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Lero lero que eu também quero, por Fernando Andrade

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Me dá, disse o garoto de rua. Vai trabalhar vagabundo.  Vai chover canivete, diz o coro.  Estou com fome, me dá! merda. Eu já falei, que para comer o pão o diabo precisar amassar ou deformar. Caralho para com estas imagens idiotas. Estou pedindo um regalo e que passa pelo gargalo. Galopa, cavalo, a quem se mostra os dentes, à cavalo, não se dá por contente. Porra, não tô aguentando mais esta diatribe verborrágica poética. Vai tomar no rabo da sua lagartixa. Se regenere meu jovem, vai para a igreja de São Judas, tá deu?  Eu vou te enfiar a faca, seu poeta de merda, me passa a grana do dia. Eu preciso ir me já. Ficaria aqui por alguns segundos? tomar conta de abacaxis, pera, aí,  tenho algo a lhe contar. O Juvenal tem uma carrocinha comunista. Vende churros e precisa que alguém tome conta. Está disposto a esta enxurrada de tempo is money. Não tenho dialética para engorduramentos, sou mais esta sua barraca legalminosa. ( tradução - leguminosa) Colega se eu te deixa...

Espiral, de Geovani Martins

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Começou muito cedo. Eu não entendia. Quando passei a voltar sozinho da escola, percebi esses movimentos. Primeiro com os moleques do colégio particular que ficava na esquina da rua da minha escola, eles tremiam quando meu bonde passava. Era estranho, até engraçado, porque meus amigos e eu, na nossa escola, não metíamos medo em ninguém. Muito pelo contrário, vivíamos fugindo dos moleques maiores, mais fortes, mais corajosos e violentos. Andando pelas ruas da Gávea, com meu uniforme escolar, me sentia um desses moleques que me intimidavam na sala de aula. Principalmente quando passava na frente do colégio particular, ou quando uma velha segurava a bolsa e atravessava a rua pra não topar comigo. Tinha vezes, naquela época, que eu gostava dessa sensação. Mas, como já disse, eu não entendia nada do que estava acontecendo. As pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio, se comparamos a outras favelas na Zona Norte, Oeste, Baixada. De certa forma, entendo esse pen...

O sonho de Luzia, por Guilherme Preger

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Imagino Luzia fugindo de algum sapiens macho, violento, estuprador. Ela está há dias numa caminhada de fuga solitária, extenuante. Ela abandona a Zona da Mata, onde o bote de algum animal ou o abraço forçado do macho (os machos são inimigos) é sempre iminente. Ela alcança a região do sertão, de suas veredas e rios, da mata rasteira do cerrado, onde pode ver de longe a aproximação do inimigo. Ela deve ter pensado: viver é muito perigoso . É quase noite, mas ainda há luminosidade. Ela procura um rio onde possa beber água e limpar suas feridas. Há em seu corpo frágil rasgos da vegetação espinhosa, cortes de pedras afiadas, cicatrizes das lutas pela sobrevivência. Ela vê o regato do rio colorido pelo sangue de suas veias e de sua menstruação. A noite é deslumbrantemente estrelada no céu límpido do planalto americano. Ela ouve o cicio das folhas e o zumbido dos insetos. Ela ouve um choro de criança, mas que deve vir de sua própria imaginação. Então ela deita e dorme. Não há tempo pa...

Os exorcismos, por João do rio (Mote)

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Há sempre de um lado os espíritos bons, os anjos que se demonstram pela teurgia¹, e os espíritos maus, as larvas e os demônios, isto é, de um lado as teofanias², de outro as fúrias. Ultimamente, porém, casos incríveis, lendas antiquíssimas deram para reaparecer. Os agentes do Diabo, as sereias, os faunos, os gigantes, os tritões surgem de novo. O João Catraieiro, ali do Cais dos Mineiros, já viu passeando na água uma dama de vermelho com homens de barbas verdes que riam e assobiavam... Por que havemos de banir fatos? Eu, e dou-lhe como testemunha o dr. Rafael Pinheiro e outras pessoas conhecidas, já tive uma doente que frei Piazza pôs boa. A mulher delirava, tinha ataques formidáveis, eu tratava-a segundo Charcot. Uma vez ela disse: eu tenho o Diabo no corpo. Pois vá ao Castelo! Foi e ficou boa. Era um médico que me dizia o assombro. Nesse mesmo dia subi ao Castelo. Pelas pedras do morro iam homens carregando baldes d'água; mulherios estendiam roupas na relva; embaixo, a cida...

Ecos da noite, por Vagalume (Mote)

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"Aí chegamos às 3 horas e 45 minutos e vimos junto à baiana do mingau, que fica ao lado do escritório do Jardim Botânico, um grupo que discutia calorosamente sobre o policiamento da cidade, que felizmente melhora dia a dia a olhos vistos. neste grupo tornavam-se salientes uma rapariga nova, vestida de preto, que tem o hábito bom ou mal de passear de madrugada, terminando o seu passeio no Boqueirão, não para tomar banhos de mar; um português ajanotado, vulgarmente conhecido por Maduro, que é  habitué  de mingau, onde discute com quem naquele ponto faz paragem, e uma adorável rapariga, que dá sorte em toda parte, na rua da Assembleia, onde reside, nos Democráticos, quando há bailes e em todos os pontos de boêmia. O Chagas, guarda-livros barato, durante a madrugada de hoje esteve mesmo a pedir uma camisola de força, pintou o sete e o diabo a quatro e por um triz a guarda civil fê-lo puxar a rica marcha para o xadrex mais próximo. Achamos que o Chagas há muito devia estar...

Viradinho a paulista nas ilhas do canal, de João Mattos

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VIRADINHO A PAULISTA NAS ILHAS DO CANAL Pra começo de conversa, ler mais um pouco sobre a vida de Victor Hugo. Depois de temperar estes bifinhos e adiantar a salada, procuro na enciclopédia. Imagino sua mulher, Adèle Foucher, dando instruções à nova cozinheira. Como preparar bem o coq au vin - o velho Hugo devia ser muito exigente. Coq au vin ou boeuf bourguignon? Coq au vin é mais apropriado para um marido narcisista como ele, a imagem de um galo velho cai bem para aquele sátiro sempre em busca de novas aventuras de alcova. Sim, filho, quiser é com S. Todas as formas do verbo querer são com S. E não enrola muito nesse dever, o ônibus pra escola não espera. Talvez ela se atrapalhasse um pouco no trato das filhas, Léopoldine pensando em frisar os cabelos, Adèle querendo um vestido de mousseline . Que confusão, a mãe se chama Adèle, a filha é Adèle também, como é que uma escritora pode lidar com isso? A diarista vem amanhã, vou ver se aproveito este solzinho fraco para secar os ...

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

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Quando mamãe morreu, enterramos papai. Em seu luto, definhou por um mês sem sair de casa. Foi sua primeira morte. Foram trinta e três anos de vida em comum, entre o casamento e o noivado. Não nos surpreendeu a sua reação à perda, pois não esperávamos outra atitude de quem, por anos, foi muito distante e frio e agora, depois de testemunhar, impotente, o corpo de minha mãe ser lentamente devorado pelo câncer, percebeu-se só. Mas o que realmente o levou à derrocada foi a descoberta dos tais diários e do caderno vermelho. Cuidadosamente guardados entre as coisas de costura de minha mãe, os livros e cadernos foram encontrados por meu pai quando selecionava objetos para jogar no lixo e para doar. Primeiro, chamou-lhe a atenção a quantidade de textos escritos na letrinha miúda que ele reconheceu ser daquela que, sob sua ótica, despendia todo o seu tempo no cuidado da casa, no trato com a família, na preocupação com a comida, com a roupa passada, com os deveres de casa dos filhos, com a febr...