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Mostrando postagens com o rótulo Bruno Flores

Xica Delícia, de Bruno Flores

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Xica Delícia O povo de Manacapuru jamais se esqueceria do dia em que Francisca da Silva, a Xica Delícia, seria eleita vereadora. O sucedido daria o que falar nos periódicos regionais, atraindo visitantes de povoados vizinhos, ansiosos por conhecer a rapariga vereadora. Mas os falatórios de momento resistiriam ao passar das vazantes e ganhariam espaço na memória coletiva. Anos depois, não haveria quem passasse pela praça principal de Manacapuru e não fosse tomado por uma insólita curiosidade pelo busto de mármore que ali reinava: uma índia sexagenária, de cabelos esvoaçantes e decote expondo sua volumosa natureza. Xica Delícia, a rainha do Solimões. Chegara sozinha em Manacapuru, aos catorze anos, após sua tribo Ianomâmi ser devastada por grileiros no Médio Rio Negro. Vagava pelo cais do porto entre bares e camelôs, e logo ficou conhecida por sua inigualável ternura. Alugava na época um quartinho na pensão da dona Inês, que fazia vista grossa para o vaivém de estivadores ...

Bicicletinha, de Bruno Flores

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Usando um cortador de unha, Dudu repartia em quatro o minúsculo papel verde, leve como confete e que supostamente nos levaria para outra dimensão. João veio do banheiro fechando a braguilha com o copo de cerveja entre os dentes, e Dudu pediu bruscamente que ele fechasse a janela. Qualquer lufada de vento poderia levar embora a fonte da nossa alegria naquela noite: o famoso bicicletinha, em uma poderosa edição especial. ---- Cês tão ligados por que o nome “bicicletinha”? Na mesma hora a Carol revirou os olhos e se levantou do sofá para fazer uma caipirinha, como quem já ouvira aquela história inúmeras vezes. Dudu era assim. Adorava pagar de didático quando tava doidão. Começou a contar sobre o químico suíço Dustin Hofmann, o primeiro cara a... ---- Peraí peraí! Dustin Hoffman é um ator americano! Uma rápida busca no Google revelou que o nome real do cientista era Albert Hofmann, o criador do LSD. Havia sintetizado a droga pela primeira vez em 1938, mas foi cinco anos depois q...

A Marcha de Alberto, de Bruno Flores

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A marcha de Alberto O velho almirante Braga abria caminho na multidão entre o Gandhi, a Marilyn Monroe e o Saci Pererê. Corpos suados bailavam entre confetes e serpentinas, enquanto uma colorida bola de praia era estapeada pra lá e cá sobre o mar de cabeças. Uma fadinha purpurinada passava em pernas-de-pau, outra balançava um bambolê e homens vestidos de noivas, baianas e quengas tocavam instrumentos. Era a vitória inquestionável da insanidade coletiva. Afinal, não se tratava de um pesadelo nem o velho almirante estava alucinando ou ficando gagá. Era, sim, aquele período em que a cidade obtinha o alvará da vagabundagem para cinco dias de embriaguez, galhofa e sem-vergonhice. Era o maldito carnaval carioca. O teu cabelo não nega mulata Porque és mulata na cor Mas como a cor não pega mulata Mulata eu quero o teu amor A marchinha trouxe lembranças dos bailes de gala no Teatro Municipal, ele e os colegas de escola naval vestindo fraques elegantes, as mulheres brilhando em fanta...

O último dia de Horácio - Bruno Flores

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O último dia de Horácio   Horácio tomou banho no dia em que morreu. Não seu banho habitual, em qualquer fonte de praça pública, com transeuntes em volta se alternando entre o riso, a repulsa ou um pomposo desprezo, mas um banho de verdade, com ducha, xampu, sabonete. Esta ação corriqueira, que a maioria cumpre mecanicamente enquanto pensa nas tarefas seguintes, foi para Horácio uma fugaz alegria antes do fim. Nesse dia, Horácio despertou embrulhado em papelão na calçada da Presidente Vargas. O movimento era intenso e uma fila de gente nervosa já crescia na porta do banco. Livrou-se do calor sufocante das cobertas e se refrescou com a leve brisa no corpo suado. Espreguiçou-se e sentiu a fisgada, como uma ponta afiada de facão. Há alguns anos a dor nas costas deixara de ser insuportável, incomodando-o apenas ao acordar. Tornara-se parte dele, tal qual a crosta de sujeira que o envolvia dos pés à cabeça e a fome inclemente que levava na barriga. Era como se tivesse ...