Xica Delícia, de Bruno Flores
Xica Delícia O povo de Manacapuru jamais se esqueceria do dia em que Francisca da Silva, a Xica Delícia, seria eleita vereadora. O sucedido daria o que falar nos periódicos regionais, atraindo visitantes de povoados vizinhos, ansiosos por conhecer a rapariga vereadora. Mas os falatórios de momento resistiriam ao passar das vazantes e ganhariam espaço na memória coletiva. Anos depois, não haveria quem passasse pela praça principal de Manacapuru e não fosse tomado por uma insólita curiosidade pelo busto de mármore que ali reinava: uma índia sexagenária, de cabelos esvoaçantes e decote expondo sua volumosa natureza. Xica Delícia, a rainha do Solimões. Chegara sozinha em Manacapuru, aos catorze anos, após sua tribo Ianomâmi ser devastada por grileiros no Médio Rio Negro. Vagava pelo cais do porto entre bares e camelôs, e logo ficou conhecida por sua inigualável ternura. Alugava na época um quartinho na pensão da dona Inês, que fazia vista grossa para o vaivém de estivadores ...