Asas de papel, por Carmen Belmont
Asas de papel, por Carmen Belmont – Corta. Corta tudo – disse a voz que parecia sair dela, irreconhecível. Enquanto as mechas longas caíam, a imagem da mulher que ela fora se desfazia no espelho, interrogando-a com um misto de indignação e tristeza, mas ela não se deixou intimidar: sustentou o olhar reprovador levantando a curva dos lábios no lado direito da face, quase como se fosse dar um sorriso. Mas não sorriu; ficou observando aquela figura que chegava, como uma onda inesperada, nos cachos rebeldes cujas pontas curtas se multiplicavam desordenadamente sobre a nuca recém-descoberta. – Chega. Assim já está bom. – Mas... ainda não terminei e – – Terminou sim – disse e se levantou da cadeira onde estivera sentada, penteando, com os dedos, os cabelos ainda úmidos. Parecia um moleque que acabara de escapar da chuva – pensou, algo divertida, sacudindo gotas brilhantes sobre a bancada envidraçada. Pagou e ganhou a rua rapidamente, juntando-se aos passantes d...