A Deus, por Ana Claudia Calomeni
Vida é teia que se tece. Fio-a-fio. A minha é miúda. De onde venho, mulher é para casar, cuidar dos pequenos, cozinhar e satisfazer marido. Da porteira para dentro é onde ela se desenrola. Esquento comida. Degolo galinha. Passo e lavo roupa. Levo e trago água. Também costuro. Emendo panos e combino tempo e espaço criando vestido novo com trapos de roupas velhas. Aos domingos esqueço galinha, criança, roupa e marido. O galo canta, adivinhando o dia. Acordo antes de todos. A casa ainda no escuro, a janela do quarto já emoldura um horizonte avermelhado que me lembra um quadro pendurado na sala da casa da Glorinha, na cidade. Foi a única vez que fui visitá-la. Lembro dela chegando em casa nos braços da mãe, o pai feliz, mas triste porque era mais uma menina. Apago a luz fraca do lampião aceso na noite anterior. Lá fora o dia nasce. Me levanto em silêncio. Abro a porta do armário tão devagar que consigo enganar o ranger das dobradiças e...