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Mostrando postagens com o rótulo Camilla Agostini

A Velha e a Santa, por Camilla Agostini

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Henry havia chegado há pouco mais de uma semana em Santana da Piedade. Andava com a camiseta para fora das calças, imitando o jeito de vestir dos moradores daquele povoado de poucos habitantes, no Noroeste de Minas Gerais. Mas suas pernas compridas muito brancas, cabelos rubros e olhos como faróis denunciavam sua origem estrangeira, mesmo tendo aprendido a andar de chinelos.      Santana da Piedade era conhecida por suas formações rochosas cobertas por jardins naturais de bromélias gigantes e outras espécies raras. Para o processamento das amostras coletadas na região, o botânico reorganizou os móveis dentro do quarto da Pousada Rio Bonito. Levou a mesinha de madeira para próximo da luz natural que vinha da janela, ajudando nas análises com a lupa e as anotações. A luminária ao lado da cama foi posta no chão, permitindo o remanejamento da mesa de cabeceira para ser coberta por um veludo azul marinho, no improviso de um mini estúdio para registros fotográficos. A segu...

Dando nome às condições, por Camilla Agostini

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O significado da palavra “Escravo”, tal como consta no dicionário etimológico da língua portuguesa, é um “indivíduo que está ou foi privado de sua liberdade, definido como propriedade”; “alguém que é dependente”. No velho livro das palavras consta que seu contrário é “livre, liberto”. Seguindo o rumo dos significados desses lugares e condições muito ouvidos e falados, particularmente em países que estiveram sob regime escravocrata há menos de cento e cinquenta anos, ser “Livre”, para o mesmo dicionário, tem a ver com “a capacidade para agir ou não agir”. Aquele “que não está sujeito a domínio estrangeiro; independente”. Sendo seu contrário, “aquele que está preso; subordinado”. Em última instância a tão sonhada “Liberdade” seria aquele “nível de independência absoluto e legal de um indivíduo, de uma cultura, povo ou nação.  [Por Extensão]  Alternativa que uma pessoa possui para se expressar da maneira como bem entende.  [Por Extensão]  Poder que um cidadão possui par...

Por que escrevo, por Eduardo Galeano

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Por que escrevo Eduardo Galeano. Amaraes. Porto Alegre: L&PM, 2019. pp.160-161 Quero contar a vocês todos uma história que, para mim, foi muito importante: meu primeiro desafio no ofício de escrever. A primeira vez que me senti desafiado por esta tarefa. Aconteceu no povoado boliviano de Llallagua. Eu passei um tempinho lá, na zona mineira. No ano anterior, e lá mesmo, tinha acontecido a matança de San Juan, quando o ditador Barrientos fuzilou os mineiros que estavam celebrando a noite de San Juan, bebendo, dançando. E o ditador, lá dos morros que rodeiam o povoado, mandou metralhar todos eles. Foi uma matança atroz e eu cheguei mais ou menos um ano depois, em 68, e fiquei por lá um tempinho graças às minhas habilidades de desenhista. Porque, entre outras coisas, eu sempre quis desenhar, mas nunca ficava bom o suficiente para que sentisse o espaço entre o mundo e eu. O espaço entre o que eu conseguia e o que eu queria era demasiado abismal, mas eu me dava mais ou m...

Dresden, por Camilla Agostini

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Conheci um sujeito das bandas de lá. Ele contava que quando criança esperavam os tios virem visitar. Era quando traziam presentes da Alemanha Ocidental. Ficara radiante, já adolescente, com a chegada do jeans em uma dessas visitas. Aos dezenove anos tentou fugir, atravessando a fronteira pela floresta. Como muitos alemães, guardava memórias antigas do tempo da guerra, mesmo aquelas herdadas ou as ouvidas quando esteve preso, por ousar ter outra escolha àquela que lhe oferecia o seu país. Contava que a primeira coisa que os russos faziam no tempo da guerra, ao invadirem uma cidade, era retirar o sino da igreja. Disse isso como se fosse evidente, acompanhado de um silêncio imperativo. O tempo, regulado pelas badaladas, não estaria mais nas mãos de Deus, era esse o recado? Contava também que os casais, quando os homens partiam para a guerra na Rússia, lavavam os pés um do outro, em um ritual de despedida e de afeto, pois não sabiam quando, ou mesmo se, iriam se reencontrar. Conheci t...

Coisas na cabeça de um guri, por Camilla Agostini

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Tomar um brinquedo nas mãos, pousá-lo logo à frente e vê-lo mover. Se a casa de bonecas da prima abre portas e janelas, deixando as mãos apertadas entrarem, seus pequenos balanços em formato de carrossel giram e a lembrança voa para o dia no parque de diversões. Luzes coloridas e brinquedos emocionantes, assustadores com uma dose de aventura. Montanha russa, trem fantasma, bate-bate. Esperava a chuva passar para que logo pudesse ir aos balanços da pracinha, enquanto giravam ali no chão da sala as cadeirinhas coloridas nas mãos do guri. A praça era o que restava depois da temporada do parque na localidade. Esse mesmo piá esteve um dia instigado em como tanta coisa podia parar dentro de uma garrafa de vidro. Olhava bem e desafiava o pensamento, imaginando a engenharia necessária para passar um boneco articulado de madeira pelo gargalo. Averiguava com as pontas dos dedos que não havia marcas na garrafa, a única entrada possível era a diminuta boca e insistia em uma resposta até cansar a...

Portas da Cidade, por Camilla Agostini

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Muitos morros no Rio de Janeiro viraram cidade. Modos de vida rurais emaranhados numa confusão de vielas, escadas, becos, fiações irregulares, uma arquitetura caótica onde um dia antes foi mata. A vegetação nas proximidades serve de refúgio para criminosos e sem-tetos. Há locais em rochedos e ranchos improvisados que servem de abrigos temporários para figuras como Tião Espiga, ilustre desconhecido da história de Copacabana, um catador de papelão da década de 1950. Lembrado por vizinhos, passava os dias com seus trapos a juntar papelão pelas ruas desse bairro badalado da zona sul. Era como aquelas criaturas monocromáticas que vagam silenciosamente pelo cotidiano, no vai e vem das calçadas da cidade. No fim da tarde, se recolhia em um abrigo rochoso, fazia um fogo e aquecia algum alimento; era também ali onde dormia. Conta a lembrança de uma vizinha, que seu pai a ameaçava, dizendo que chamaria Tião Espiga com seu saco para leva-la embora quando fazia muita bagunça. Tião Espiga era ...

O Duelo, por Camilla Agostini

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O duelo Era daquelas cozinhas grandes de fazenda antiga, nunca esqueço. Tinha umas panelas de ferro penduradas em cima do fogão e uma brasinha sempre queimando. Num armário de canto ficavam guardados uns pratos finos da família, que só usavam na hora do jantar. No meio ficava um mesão de madeira muito pesado, daqueles difíceis de arrastar, com todo tipo de comida que era feita todo dia. Tigela com leite, batata descascada, um monte de farinha, uma galinha degolada, coisas assim. Eu costumava chegar de mansinho, gostava de espiar a cozinheira grandona mexendo nas panelas, sempre a espreita pelo feijão preto que, requentado, ficava ainda melhor. Espichava o olho sempre para as três coisas mais importantes da cozinha: a panela de feijão, a cozinheira e umas cumbucas empilhadas numa prateleira. Era tudo muito simples: distrair a velha, pegar uma cumbuca e correr com o feijão. Pensa que era fácil? Ela não parava quieta. Às vezes, fazendo meu plantão de espia do lado de fora, ...