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Mostrando postagens com o rótulo 2017

Por um bife, de Jack London

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Ele era um veterano e o mundo não se dava bem com veteranos. Ele não era bom para nada, a não ser parar biscates, e o nariz quebrado e a orelha inchada não lhe ajudavam nem para isso. Ele se viu desejando que tivesse aprendido algum ofício. Teria sido melhor a longo prazo. Mas ninguém havia lhe dito isso, e ele sabia, bem no fundo do coração, que não teria ouvido se o tivessem.  Tinho sido tão fácil. Dinheiro de sobra, lutas intensas e gloriosas, períodos de descanso e vagabundagem entre elas, um séquito de ávidos puxa-sacos, os tapas nas costas, os cumprimentos, os figurões contentes em lhe pagar um drinque pelo privilégio de uma conversa de cinco minutos, e a glória da luta, os ginásios gritando, o turbilhão dos golpes finais, os juízes “King é o vencedor!” e o seu nome nas colunas de esporte no dia seguinte.             Aqueles tinham sido dias e tanto! Mas ele se dava conta agora, do seu jeito lento e reflexivo, que eram...

Diálogo, por Guilherme Preger

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Diálogo ( cena com dois interlocutores: D e E durante o bloco Escravos da Mauá no domingo antes do carnaval ). D- O que você quer dizer com “Feijoada é de esquerda”? Eu adoro feijoada, quer dizer que eu sou de esquerda? E- Depende da maneira como você come, não da feijoada. Esquerda e direita são posições, não são essências. D- Explica melhor isso, eu detesto esse pedantismo da “esquerda filosófica” que acha que todo mundo de direita é imbecil.  E- Bem, eu acho que quem luta para ter menos direitos só pode ser imbecil. Mas deixa isso para lá,  pois nosso assunto é a feijoada. A feijoada, como coisa-em-si, não é de esquerda. É verdade que era comida de escravos, era a alimentação básica dos negros escravizados: feijão preto, farinha de mandioca, laranjas e bananas, além de carnes secas e toucinhos... D- Só o fato de ser comida de escravos faz ser de esquerda a feijoada? Não havia escravos de direita? Não havia negros que venderam outros negros aos brancos? Esse...

O desejo dos vivos, por José Fontenele

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Com afinco decidi ser santo. Interpelei o padre após a missa sobre qual escada tomar à santidade e ele sorriu da minha meninine. Disse que cometia engano por achar que uma lista de tarefas definia a santificação. Era preciso mais. Era preciso ultrapassar a linha dos homens, esta ainda invisível aos meus treze anos. Quando perguntei o que era isso o padre riu e deitou a mão nos meus cabelos ralos tomando-me inocente com vontades sem solução. Após a missa notava a vila unânime em pesares. Todos saíam silenciosos e mesmo com roupas de domingo não se escutava qualquer elogio. A Margarida me alcançava enquanto eu seguia para casa e me dizia que logo cresceríamos o bastante para nos casarmos; ela fez um coração na praia com os nossos nomes dentro e deixara um traço incompleto no desenho para que eu entrasse e se fixasse por inteiro naquela vontade. Eu respondi que não. Buscava ser santo e por isso não a protegeria na integridade daquele amor. Me interessava outro amor, um sentimento comu...