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Mostrando postagens com o rótulo Ana Claudia Calomeni

A Deus, por Ana Claudia Calomeni

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          Vida é teia que se tece. Fio-a-fio. A minha é miúda. De onde venho, mulher é para casar, cuidar dos pequenos, cozinhar e satisfazer marido. Da porteira para dentro é onde ela se desenrola. Esquento comida. Degolo galinha. Passo e lavo roupa. Levo e trago água. Também costuro. Emendo panos e combino tempo e espaço criando vestido novo com trapos de roupas velhas.  Aos domingos esqueço galinha, criança, roupa e marido. O galo canta, adivinhando o dia. Acordo antes de todos. A casa ainda no escuro, a janela do quarto já emoldura um horizonte avermelhado que me lembra um quadro pendurado na sala da casa da Glorinha, na cidade. Foi a única vez que fui visitá-la. Lembro dela chegando em casa nos braços da mãe, o pai feliz, mas triste porque era mais uma menina.  Apago a luz fraca do lampião aceso na noite anterior. Lá fora o dia nasce. Me levanto em silêncio. Abro a porta do armário tão devagar que consigo enganar o ranger das dobradiças e...

Uma luta, por Ana Claudia Calomeni

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A luta humana, se resumida, não passa da luta do ser contra ele mesmo. As forças negativas, nestes tempos mais acirradas, empurram as positivas pro meio da escuridão. O ser mais racional vai me chamar de maniqueísta, vai dizer que simplifico as coisas. E eu vou ter que concordar. Sim, eu simplifico as coisas. E, sim, é uma construção maniqueísta de mundo. Quem não está sujeito a maniqueísmos que atire a primeira pedra. Quem nunca dividiu seus dias em bons e ruins? Como foi o seu dia hoje? Péssimo, respondo, é a minha rápida análise sobre um dia de extensas 24 horas em que mil coisas acontecem (talvez eu deva me exercitar pras sutilezas). Quem nunca sentiu vir lá do fundo da alma aquela pontada diante de um desejo prestes a se realizar e uma voz: isso não vai dar certo. É disso que falo. Há sempre um outro em mim que torce contra, que puxa tapete. Reconhecêlo é fundamenta...

Ambrosia, por Ana Claudia Calomeni

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AMBROSIA “Vou procurar flores wicca”, pensa Ambrosia e sai, resplandecente, pura e alva, de trás do véu das águas da cachoeira. Ambrosia acabara de adentrar a adolescência, seu corpo, ainda aquele desconhecido, se transformava a olhos vistos. A moça, entretanto, não se dava conta do efeito que seus pequenos seios rijos, suas coxas bem desenhadas, suas ancas avantajadas, seus ainda escassos pelos pubianos poderiam causar nos homens. E assim ela seguia, firme e inocente, procurando as flores wicca, suas preferidas.  Afasta-se, então, Ambrosia, mais e mais, das companheiras. As wicca são uma rara espécie de flor, que só crescem por aquelas paragens. São pequeninas e suas cores variam das mais brancas às mais rubras, passando pelas amarelas, alaranjadas, roxas. Há também as wicca azuis, mas essas, dizem, só os homens conseguem enxergar. Das rosas Ambrosia já está bem enjoada, eram as que ela mais via. E, pelo que ela havia sabido, atrás das wiccas rosas sempre há as azuis que, a depend...

Segunda-feira - Ana Claudia Calomeni

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Segunda-feira Ouço o despertador gritando no quarto dos meninos. Acordo, olho o relógio. Seis da manhã. Tão cedo ainda e o pensamento já tenta macular o que ainda resta do final de semana enfiando-se em minha tímida vigília com contas pra pagar, horários pra cumprir, trabalho chato pra fazer. Apesar das cortinas fechadas, da cama sinto que o dia ainda não nasceu completamente. Ele também tem preguiça. Afundo meu corpo no colchão quente, agradecendo por estar assim tão cansada. Adormeço de novo e sonho com um bebê que requer cuidados. Seis e 35. Agora é o meu despertador que reclama, estridente. Ouço barulho no quarto dos meninos, vou até lá, bom dia rapazes!, ofereço suco, pão, vitamina. Me arrasto até a cozinha e por um instante estranho a bagunça e a quantidade de pratos e copos sujos dentro da pia. Acho uma sacanagem o domingo invadir assim a segunda-feira sem que a gente possa fazer nada pra trazer o final de semana de volta. Sinto uma dor no estômago, é a segunda-feira...

Presente - Ana Claudia Calomeni

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Presente O restaurante estava cheio, não havia mesa disponível e eu decidi pedir um suco ali mesmo no balcão. Percebi um homem me olhando fixo. Já devia estar assim há bastante tempo e o conforto do seu olhar em mim me fazia crer que já nos conhecíamos. Fixei meus olhos nos dele, eram azuis acinzentados. A bebida estava fresca e contrastava com a tarde. Um sentimento súbito de liberdade e um pensamento: se fosse eu a companhia daquele homem, a nossa história seria assim: eu me sentiria tão bem com ele que estar ao seu lado seria o mesmo que estar sozinha. Eu entregaria àquele homem de olhos tristes toda a minha intimidade, como se estivesse entregando absolutamente nada. O meu completo vazio. Com aquele homem, ficaria tão a vontade que nunca pensaria nele, ficaria tão perfeita a ponto de não sentir sua falta caso ele me faltasse. Ele estaria tão em mim que eu nem precisaria dele e nós viveríamos na mais completa e absoluta alegria de solidão. Ao seu lado, na nossa casa, no ...

Quem é Olinto, afinal? - Ana Claudia Calomeni

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Quem é Olinto, afinal? Olinto tem 93 anos. Cabelos brancos, nariz adunco, olhos azuis desbotados e bochechas vermelhas. Anda sempre de cabeça baixa. Dizem que seus ossos calcificaram assim e ele não consegue mais levantá-la. Garantem   que foi de tanto varrer olhando sempre pro chão.   Mas, como sempre existe mais de uma versão para o mesmo fato, tem gente que diz que ele não levanta mais a cabeça desde o dia em que   viu sua mulher ser atropelada por um caminhão em plena Nossa Senhora de Copacabana. Ninguém sabe ao certo, pois ele já chegou no bairro desse jeito. As histórias que contam dele nunca foram confirmadas, pois Olinto não fala, só varre. Varrer é sua tarefa no mundo. É com disciplina de soldado que a cumpre diariamente. Independente do motivo por que anda de cabeça baixa, o fato é que há sempre um vendedor de balas perto dele. Contam que a filha de Olinto há anos contrata pessoas para acompanhá-lo pela rua, com medo de que ele passe mal. Quando pergun...

Eu não sou só uma mulher inteligente - Ana Claudia Calomeni

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Eu não sou só uma mulher inteligente Porque uma mulher inteligente é somente uma mulher inteligente. Eu sou gostosa também!! Eu malho, gente! Procuro manter as medidas de um corpo perfeito, sigo direitinho a Tabela de Medidas Padrão (TMP, o que me garante ataques de TPM eventuais, mas isso é o preço que se paga). Tenho medidas perfeitas para o manequim 40: 90/74/96. Meu IMC é 22,0. Mas vocês acham que alguém nota? Nããããããoooo!! Nem meus peitos de silicone, nem eles, coitados, adquiridos a custa de muita palestra sobre a situação político-econômica mundial, nem eles merecem qualquer atenção. Vocês acham que alguém olha pra eles? Pessoal só me olha do pescoço pra cima. O que mais admiram em mim, depois do cérebro, é a boca. Não porque ela seja carnuda. O que de fato   passou a ser depois da dica da injeção de preenchimento que peguei no site Patricinha Esperta. “Como conseguir um efeito Bocão”, recomendava a tal da patricinha, Bocão com letra maiúscula: letra grande, boca g...