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Mostrando postagens com o rótulo Clube da Leitura

Asas de papel, por Carmen Belmont

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Asas de papel, por Carmen Belmont –  Corta. Corta tudo – disse a voz que parecia sair dela, irreconhecível. Enquanto as mechas longas caíam, a imagem da mulher que ela fora se desfazia no espelho, interrogando-a com um misto de indignação e tristeza, mas ela não se deixou intimidar: sustentou o olhar reprovador levantando a curva dos lábios no lado direito da face, quase como se fosse dar um sorriso. Mas não sorriu; ficou observando aquela figura que chegava, como uma onda inesperada, nos cachos rebeldes cujas pontas curtas se multiplicavam desordenadamente sobre a nuca recém-descoberta. – Chega. Assim já está bom. – Mas... ainda não terminei  e – – Terminou sim – disse e se levantou da cadeira onde estivera sentada, penteando, com os dedos, os cabelos ainda úmidos. Parecia um moleque que acabara de escapar da chuva – pensou, algo divertida, sacudindo gotas brilhantes sobre a bancada envidraçada. Pagou e ganhou a rua rapidamente, juntando-se aos passantes d...

O triunfo da cor, por Carmen Belmont

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O triunfo da cor, por Carmen Belmont Ele era magro e tinha uma cabeleira ruiva, o que lhe valia mil apelidos na escola. Cabeça de fósforo. Cenourinha. Labareda. Curupira. Diabo-da-tasmânia. Salsicha. Como ninguém jamais levantou o assunto bullying , ficou apenas o registro na memória de algumas brincadeiras bobas de criança, sem maiores traumas. A juba vermelha só chegou a incomodar um pouco porque não podia participar de nenhuma bagunça sem ser pego, pois era sempre o primeiro de quem os inspetores e professores se lembravam. Quem mandou ter uma característica tão facilmente identificável como aquela? Se bem que era calmo – apesar da inquietude interna que o fazia tamborilar em qualquer coisa, de paredes a cadernos – e não costumava se meter em encrencas. Pelo menos não em encrencas desse tipo. A verdade é que ir à escola não lhe interessava muito, a não ser pela possibilidade de zoar com os amigos nos intervalos das aulas. Passava a maior parte do tempo calado e sonolento, ou ...

Fluxo, por Carmen Belmont

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Fluxo, por Carmen Belmont ______ era como se sentia quando se levantava de madrugada sem nem ao menos ter dormido é que ficava insone com tantos pensamentos fervilhando na cabeça tentando colocá-los entre  palavras e traços no papel isso antes de trocar o papel pela telinha do smartphone porque concluiu que era mais fácil para escrever ou desenhar deitado no escuro do quarto desenhava letras e bichos e monstros e árvores e horizontes e personagens e cenas coloridas freneticamente como se não houvesse mais tempo e tivesse que deixar aquilo para que alguém o conhecesse já que no cotidiano ele não tinha rosto era tão invisível e hermético quanto os outros no meio dos demais e estava cansado queria descobrir uma necessidade um sentido uma bebida uma droga uma sensação um lugar uma pessoa qualquer coisa não ligava se isso era o que qualquer um poderia pretender pois tinha certeza de que a sua falta de resposta doía mais e era tão única como ele próprio só que apenas ele sabia q...

CARTA ABERTA A ANDREA, por Poliana Paiva

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Estudamos juntas e juntas fomos aos shows do Menudo do Tremendo da Blitz do Tim Maia. Pedíamos mão de pipoca no circo voador porque não tínhamos grana pra nenhuma guloseima. Tudo que não fosse a cervejinha - pésima, diga-se de passagem, mas que naquela época descia maravilhosamente bem, afinal, era cerveja - para nós era superfluo. A vida foi nos separando naturalmente, cada uma prum canto. Não tinha facebook, celular, bipe nem nada, só tinha mesmo o obsoleto aparelho fixo, hoje responsável somente por telefonemas para os mais idosos, ligações de bandidos afirmando estar de posse de sua filha e telemarketing de quinta categoria. Mas, há 25 anos, o telefone era particularmente importante, pois foi justamente através dele que eu soube como você, minha querida Andrea, a quem não via há um ano, estava passando. Cheguei em casa depois da aula de jazz - por jazz, leia-se dança praticada com polainas, collants cavados e sapatilhas, quase sempre ao som de Frankie goes to Hollywood - e vi ...

Previsível, por Carmen Belmont

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Previsível, por Carmen Belmont Cocoricó. Por incrível que pareça, havia um galo no coração da cidade. Devia ser da loja de aves vivas no pé da ruela que subia o morro. A rouca insistente cantoria começava às quatro da manhã e se estendia até o sol nascer, ah, que vontade de esganar esse galo desgraçado! Mas na impossibilidade de sair de pijama correndo pelas madrugadas, acabou se acostumando ao ruído incômodo. E só se mexia mesmo quando ao som insólito se juntava o do despertador anunciando o dia. Ela não tinha a menor graça. Ou tinha, mas era cuidadosamente abafada por um jeito de ser comum e previsível. Acordava cedo, arrumava-se sobriamente e ia para aquele escritório, igual a tantos outros, desempenhar suas burocráticas tarefas com a maior correção possível. Era polida, reservada e discreta o suficiente para ter conquistado um lugar no gabinete da diretoria. Não faltava. Não se atrasava. Não se metia na vida alheia. Não ria alto. Não. Tão certinha por fora. Mas ela sabia, ...

Mote do encontro (04/10/ 16)

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Mote lido por Daniel Russell Ribas Um dia toparei comigo O telefone tocou às sete da manhã e eu cambaleava do sono que não dormi. Confesso que fiquei satisfeita: a coordenadora da clínica queria me tranquilizar. A tranquilidade significava meu pai converso em vegetal sobre a cama, oxigênio a mil, dedos a necrosar, tosto de cera adivinhando o próximo habitat. Ora desperto, ora adormecido. Sim, a intermitência das coisas brutas e serenas retornara em grau máximo. Novamente os vivos e os mortos povoavam seu quarto. Ele indicava um ponto na parede e lá residia a escola da infância, onde parentes preparavam seu desenlace. Esta era sua. Desenlace. Mas não era a única palavra a nos vexar. Havia todo um vocabulário misto de invenção e memória, o qual penávamos para decifrar: “hecatombe” não era problema, apenas reflexo de nossa pobreza de linguagem, mas “sorvete de gliche” gerava angústia, pois não havia mais pulmão para nos esclarecer. Aguardávamos entre uma respira...

Se Deus quiser, por Carmen Belmont

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Se Deus quiser, por Carmen Belmont “Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio.” Rita Lee, in ‘Baila comigo’. Ele não era um sujeito muito eloquente, mas isso nunca tinha sido um problema perto dos outros tantos na sua vida de menino de periferia. O que lhe faltava em palavras sobrava em resistência: crescera, como todo garoto nessa condição, apesar da pobreza, do descaso e devidamente vacinado contra as adversidades. Mal completara os estudos básicos, porque desde cedo já trabalhava para ganhar uns trocados e ajudar a mãe a alimentar as três bocas que o pai bêbado abandonara ainda pequenos. Mas tinha fé e era calmo e tenaz, de modo que não sofria pelo passado nem reclamava do presente. Quanto ao futuro, tentava fazer a sua parte para que fosse melhor, se Deus quiser. Tinha encontrado Nícia em uma festa junina, uma daquelas em que ele fora mais por insistência dos amigos do que por outra coisa. Tá certo, também aceitara ir porque sabia que poderia ficar em paz vendo o vaiv...

Perguntas de Curumim

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Por: Eduardo Villela        Pedro deitou a folha de papel em branco diante de si, no chão da sala. Queria criar uma fábula sobre adultos. Uma fábula em que as pessoas apenas afirmavam, nunca faziam perguntas. Os adultos eram assim, para ele. Os amigos dos pais que visitavam a casa à noite não faziam perguntas, só diziam coisas. Não sabia ainda se ia desenhar ou contar a história em texto. Ou se os dois juntos. As pessoas que iam lá só tinham algo a dizer, nunca a saber. Por que eram desse jeito, ele não sabia responder. Precisava compreender isso rápido, antes de ficar adulto. E se amanhã, de repente, eu virar adulto e não mais poder perguntar isso, também? Nunca vou saber?        A fábula era sobre uma aldeia em que não se fazia perguntas. Podia se passar nos dias de hoje, no futuro, antigamente. Mas era uma tribo que vivia no meio da floresta, sem ninguém por perto num raio de muitos quilômetros. Eles qua...

Manutenção

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Por Eduardo Villela Primeiro, silêncio. Um pouco de paz. Então, o ronco. Oscilação rápida e contínua de engrenagens banhadas em óleo velho, pastoso. Quatro ou cinco segundos, e depois a brisa surda, sucedida de novo pela máquina operante, e mais uma vez brisa surda. Um motor que descansa, exala vento e volta a operar. Máquina de conservação e reparação. É um som que está ali só para existir, não precisa de significado. Sentido tem o sistema de entretenimento, que começa a projetar filmes autobiográficos, histórias futuras, realização de desejos, lembranças distorcidas da infância. Hoje não é dia de terror ou frustração. Também não pode haver passagens que provoquem turbulências ou impressões de quedas bruscas. A ordem, que ninguém sabe de onde vem, é pacificar. A semana foi intensa. Uma forte luz natural invade e ofusca a projeção, tomando seu lugar na tela. Um pouco de sabonete phebo preto, merenda, short adidas azul. E some a infância, porque o continente ora se movimenta. ...

Uísque

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Aquele porteiro praticava um hábito curioso: bebia à noite durante o serviço doses de uísque. Digo curioso porque imagino o seu salário. Sem grana o bastante para criar família ou entreter namorada, ainda assim reduzia as parcas despesas, curtia sacrifícios para saborear à noite doses queridas de uísque. Tomava várias precauções, sabia quando beber. Sempre depois da meia-noite, quando os moradores já deitados sonhavam sobre travesseiros. Sacava a garrafa de um armário esquecido em um canto da portaria, do seu quarto trazia o gelo, esticava-se na cadeira de rodinhas e assistia à televisão. Embriagava-se devagar, protegido pela escuridão da portaria. Uma noite, Milena chegou com vontade de falar, os papos com os amigos não tinham sido suficientes. Parou junto dele, observando seus olhos baços, avaliando o homem que descobriu beber escondido, mas que parecia capaz de conversar. Ela perguntou quanto é que fora o jogo. Ele perguntou quê jogo. — Não sei, sempre tem um jo...

Alfa

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Assumir a relação era para ela um problema. Acreditava em morar livre e só nesta parte do mundo, compartilhando a rotina com um cachorro parceiro e amigo. Morava por aqui longe dos pais e do irmão. Tinha família grande, tios e tias e primos, moravam longe também. Cuidava de um carro novo, usava para trabalhar, só para o trabalho, gostava de ônibus e metrô.      Passeava com o cachorro quando conheceu o Vitor. Conversou com o rapaz primeiro por quinze minutos, na calçada do meio de semana, o tráfego muito intenso, som de tráfego e canto de cigarras. Não resistiu, ele pediu e ela aceitou sua amizade no facebook. Conversaram muito online, à tarde e à noite e pela manhã. Descobriram preferências de um e outro devagar, havia um clima de romance no ar, mas ela foi levando com calma. Havia livros e séries de tevê, havia celulares e tablets, havia os amigos da vida e da internet. Vitor era sem dúvida seu amigo da internet. Os dois brincavam muito pela rede, o cachorro de...