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Mostrando postagens com o rótulo Poliana Paiva

A vida secreta dos ácaros, de Poliana Paiva

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Minha irmã me denunciou prum programa de tv a cabo que denuncia pessoas que, segundo a opinião deles, são acumuladoras, ou seja, pessoas que, segundo a definição deles, possuem mais coisas do que necessitam. Aí eu pergunto: quem são essas pessoas que acham que sabem o tanto que as outras devem possuir? Qual o problema de eu ter um quarto só pros meus discos de vinil? E outro só pras fitas de vídeo? E daí que hoje em dia tem tudo em mp3, no netflix ou na nuvem? E se a nuvem e a internet e todas essas mídias pouco palpáveis um dia sumirem do mapa, quem vai poder ouvir 'the dark side of the moon' tranquilona? Quem, meus caros? O pessoal da tv a cabo é que não vai ser! Quando minha irmã soube que eu fiquei indignada com o que ela chamou de convite mas que na minha terra se chama coersão, ela ficou perplexa. Disse que era uma chance em mil ser escolhida prum programa como aquele, que era por isso que eu estava encalhada, que homem nenhum aguenta aquela quantidade de ácaro no a...

CARTA ABERTA A ANDREA, por Poliana Paiva

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Estudamos juntas e juntas fomos aos shows do Menudo do Tremendo da Blitz do Tim Maia. Pedíamos mão de pipoca no circo voador porque não tínhamos grana pra nenhuma guloseima. Tudo que não fosse a cervejinha - pésima, diga-se de passagem, mas que naquela época descia maravilhosamente bem, afinal, era cerveja - para nós era superfluo. A vida foi nos separando naturalmente, cada uma prum canto. Não tinha facebook, celular, bipe nem nada, só tinha mesmo o obsoleto aparelho fixo, hoje responsável somente por telefonemas para os mais idosos, ligações de bandidos afirmando estar de posse de sua filha e telemarketing de quinta categoria. Mas, há 25 anos, o telefone era particularmente importante, pois foi justamente através dele que eu soube como você, minha querida Andrea, a quem não via há um ano, estava passando. Cheguei em casa depois da aula de jazz - por jazz, leia-se dança praticada com polainas, collants cavados e sapatilhas, quase sempre ao som de Frankie goes to Hollywood - e vi ...

Jair, por Poliana Paiva

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Muito embora seja filho da união estável de duas mulheres hoje com 65 anos, Jair sempre foi um sensível de fachada, desses que leram Simone, gostam de Mc Carol, aplaudem o protagonismo feminino mas na hora do vamo ver, na hora que o cinto aperta, que a vontade é destra, vão lá e destilam sua condescendência auto-imune. Jair tem pau grande. E grosso. Dizem as boas línguas que se trata de um pau hábil e expressivo. Um pau democrático. Até a página dois, naturalmente, afinal, uma coisa que Jair nunca assume é sua preferência pelo padrão. Jair beija a loira de barriga negativa no chorinho de domingo de manhã na praça lotada e a mulata gorda nos cantos escuros do baile funk, onde, disfarçado de burguesia folclórica, pode abrir seu coração e ser ele mesmo. No fundo Jair queria era poder dizer aos quatro ventos que mulher, se não tivesse boceta, ele não dava nem bom dia. Mas isso pegaria muito mal e faria com que ele passasse aperto com as intelectuais que gosta de seduzir e que, ...

Terça em dobro - Poliana Paiva

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Terça em dobro Ele era aquele tipo que dá um suadouro só de olhar. Um sorriso, umas   mãos enormes, uma pegada rústica. Não sei se o bofe era tão magia assim ou se o encantamento tinha a ver com o último dia de carnaval. Só sei que tudo nele exalava   luxúria e purpurina. Se desse mole, ele tinha purpurina até no cu. Eu não me importava com nada. Ele era todo dourado, todo suado, todo enamorado de minha pessoa. Volta e meia, entre uma pirocada e outra, lembrava de uma amiga que sempre me falou pra passar carnaval na Bahia, mas eu não perdia por esperar. Não tinha noção do que vinha pela frente. Ou melhor, do que vinha por trás. Fui precisa, escolhi um cara que era praticamente um profissional da alegria: aquela boca, quando não estava me beijando, só sorria. Um sorriso com tantos dentes que me fazia pensar apenas em mordidas. Eu estava que era pura libido. Meu lindo lago do amor já tinha virado bacia hidrográfica de tanto que eu estava animada. Uma hora, não sei s...

Pelo Menos - Poliana Paiva

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Pelo Menos Nem passar dos trinta a gente pode mais. Outro dia, na sala de espera da depilação, uma menina me perguntou se eu estava encarando bem a menopausa. Tudo bem a pessoa ser novinha, gatinha, cheirando a leite. Tenho sobrinhas, afilhadas, sei como é. Mas daí a achar que uma mulher de trinta e cinco anos está na menopausa é um pouco demais. Minha vontade foi dar-lhe uma resposta atravessada mas fiz a fina, dei um sorriso amarelo-margarina e voltei pra minha “Caras”. Mais precisamente, pra reportagem sobre o vazamento de fotos íntimas de alguma celebridade. Nessas horas fico feliz de não ter emplacado como atriz, porque, do jeito que já perdi vários aparelhos, se eu tivesse feito qualquer ponta em “Malhação”, meus bucelfies estariam por aí, espalhados em todas as redes. Esse tipo de coisa com certeza me deixaria arrasada e poderia ser capaz até de tolhir meu exibicionismo, pra tristeza de todos os meus paus amigos. O sorriso amarelo-margarina de superioridade tinha um mot...

Mote do encontro (13/ 10/ 15)

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Mote lido por Poliana Paiva Animal de estimação Nunca soube se é gato ou cachorro. Tem sempre muito dos dois. Esfrega-se às vezes em paredes – coçando um ponto inalcançável das costas, comprimindo um intercostal hipertensionado ou simplesmente recostando-se -, ora como um felino, ora como um cão. Em manhãs nubladas como aquela sente-se muito mais gato, não tem dúvidas. Mas quando está com gente, principalmente com ela, não consegue fugir aos instintos caninos de subordinação. Enquanto cachorro, nunca seria um líder da matilha, será sempre um seguidor. Um entre outros. Submisso. Enquanto gato, como todo gato, é naturalmente livre e propenso a um individualismo monstruoso. Como não dorme muito, acorda cedo, às vezes para ver o sol nascer, e já de um pulo. Pouco gato no quesito preguiça. É como ter uma propulsão canina instintivamente ativada pelo simples fato de estar acordado. Não é que não tenha preguiça; tem, mas esta é rarefeita. Quer farejar o que há pra fazer...

That´s it - Poliana Paiva

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That´s it Chegou a hora dessa gente desbocada mostrar seu valor. Falar o que pensa. Desnudar a alma. É preciso mostrar ao mundo quem se é. Porque, de boa, tá cansativo abrir o facebook e receber convite pra curtir evento onde só tem foto tua expondo teus filhos e na legenda escrito "amor maior". Extenuante também é ir às festinhas que você me convida e ter de responder de hora em hora que nunca engravidei e que isso não faz de mim menos mulher. Chato ter que ficar provando minha feminilidade o tempo todo. O que você quer? Que eu tire a roupa, pra exibir minha aparelhagem? Que eu mostre exames ginecológicos? Porque você bem sabe que sou capaz disso. Quer saber de outra? Poucas coisas são mais constrangedoras do que ouvir como foi lindo o filhinho da sobrinha do teu amigo que foi pajem do casamento da afilhada da tua ex-chefe, que, a propósito, conseguiu engravidar aos cinquenta anos, depois de gastar dois milhões em inseminação. “-Que bom para o casal”, sempre digo, p...