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Mostrando postagens com o rótulo Mote vencedor

Noites Brancas, por Fiodor Dostoievski

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  Eu tinha vindo a ela de coração aberto e mal podia esperar a hora da entrevista. Não suspeitava mesmo o que devia suportar hoje, não pressentia que tudo isto acabaria de outro modo. Ela estava radiante de alegria, esperava a resposta. A resposta era ele mesmo. Ele devia vir, acorrer a seu apelo. Ela veio antes de mim, uma hora antes. No começo desatava a rir por qualquer motivo, a cada palavra minha ela ria. Comecei a falar e depois me calei. - Sabe por que estou tão contente, - disse ela – tão contente de o ver? Por que estou gostando tanto de você hoje? - Então? - perguntei, e meu coração fremiu. - Estou gostando de você porque não se enamorou de mim. Um outro no seu lugar, não é? Me importunaria, insistiria, soltaria suspiros, cairia em delíquio, enquanto que você, você é sempre gentil! Neste momento, ela apertou minha mão tão fortemente que quase gritei. Ela riu. Deus, que amigo você é! Recomeçou ela ao cabo de um minuto, muito seriamente. - Mas foi Deus que ...

A Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik

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A Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik. Ilustrações de Santiago Caruso. Editora Tordesilhas, 2011  (Mote lido por Maíra Fernandes para o encontro de 12/11/2019) 

O silêncio, por Amílcar Bettega

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Por uma espécie de abulia inata, ele foi renegando a palavra. Entregava-a aos outros em generosas porções de silêncio, nas quais eles, os outros, serviam-se com avidez e um instinto de se sobrevivência que, para ele, estava próximo do comportamento dos animais. Secretamente regozijava-se ao vê-los, os outros, embrutecidos e rasteiros, tão distantes do destino nobre que desde o início já sentia desenhado para ele. Mas não desconfiava que o regozijo, o qual – num esforço sincero para anular qualquer sentimento de superioridade - ele repudiava, podia ser uma forma de defesa e que na base de tudo estava a sua incapacidade para exercer a palavra, para se fazer ouvir. Ou melhor, para expressar o que queria que fosse ouvido. Não, não era uma incapacidade, ele pensou, já tarde demais. Mas mesmo que já fosse tarde ele continuou a pensar e convenceu-se de que uma sucessão de ausências concorrera para produzir aquele caráter particular que agora lhe pesava tanto. Ausência de coragem, de v...

A Natureza das coisas, por Marilia Passos

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Sentada no batente da janela, ela olha a baía de Guanabara. Queria viver com a mesma desenvoltura daqueles homens que não têm medo de cair. Talvez eles se segurem nas opiniões tão firmes que possuem sobre tudo, ou talvez sejam destemidos mesmo, ou talvez nunca tenham vivido um fracasso. Ou talvez só sejam homens. Como Chico, o amigo de infância que ganhava em tudo. “Meninos são mais fortes”, ele dizia. E ela então quis ser homem, até a tarde em que Saulo, o faxineiro da escola de dança, pediu para ver a xoxota dela. Luísa achou aquilo engraçado: ninguém nunca lhe pedira para ver a xoxota. Ele repetia a pergunta como um apelo, o mesmo tom que ela usava quando implorava um brinquedo: “Compra, mãe, compra! Por favor!”.  — Não, Saulo, não vou mostrar xoxota nenhuma. Balançava a cabeça do mesmo jeito que a mãe.  Esfregando o chão, ele insistiu uma, duas, dez vezes. Ela não saía do lado dele, observando aquele homem gordo se rastejar sobre seus pés pelo reflexo do espelho. F...

Enquanto os dentes, por Carlos Eduardo Pereira

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Havia muitas brincadeiras de garoto, guerra de amêndoa, golzinho, pipa, taco, rolimã, cuspe a distância, e Antônio era um desastre em todas elas. Mas em corrida de chapinha ele se destacava. Era o responsável por desenhar as pistas, reproduções dos circuitos que ele conhecia tão bem. Desenhava na calçada irregular, não exatamente como eram, mas simulando florestas e pontes, riscando o chão às vezes com tocos de giz, quase sempre com pedaços de tijolo. Tinha jeito para desenho e talento para atividades manuais em geral, era o que diziam. A mãe guardava as tampinhas das garrafas de cerveja ou do refrigerante de domingo e Antônio separava as mais lisinhas, as que não tinham sido deformadas pelo abridor, para usar nas competições. Com o tempo, desenvolveu técnicas para incrementar seus automóveis imaginários, testando materiais, derretendo cera de vela na parte de dentro das chapinhas, misturando tintas, cores as mais variadas, proporcionando estabilidade, e beleza, aos petelecos. Mas te...

Caderno de memórias coloniais, por Isabela Figueiredo:

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Ernesto não ia trabalhar há três dias. Era preto e os pretos eram preguiçosos, queriam era passar os dias estendidos na esteira a beber cerveja e vinho de caju, enquanto as pretas trabalhavam na terra, plantavam amendoim ao sol, suando com os filhos às costas, ao peito, e a enxada a subir e a descer. Preto era má rês. Vivia da preta. Não pensava na vida, no futuro, nos filhos. Só queria descansar, dormitar, dançar, cantar, beber, comer, viver vida boa. Era absolutamente necessário ensinar os pretos a trabalhar, para seu próprio bem. Para evoluírem através do reconhecimento do valor do trabalho. Trabalhando, poderiam ganhar dinheiro, e com o dinheiro poderiam prosperar, desde que prosperassem como negros. Poderiam deixar de ter uma palhota e construir uma casa de cimento com telhado de zinco. Poderiam calçar sapatos e mandar os filhos à escola para aprenderem ofícios que fossem úteis aos brancos. Havia muito a fazer pelo homem negro, cuja natureza deveria ser anulada – para seu be...

A Harmonia do Mundo, por Johannes Kepler

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1o de fevereiro de 1618 Meu coração está dividido: de um lado as tristezas que a vida me traz e, de outro, a alegria que sinto ao contemplar as verdades escritas nos céus. Depois de sofrer terrivelmente, minha mãe - ou o que restou dela - enfim foi libertada. Mal festejamos, minha enteada e uma filha minha morreram, e outra teve de mudar-se para longe. Susanna e eu temos tentado lidar da melhor forma possível com essa sucessão de tragédias. Ludwig e Katharina são nossa única inspiração nestes dias difíceis. Não sei o que faríamos sem os dois... Deus os proteja! Quando posso, fecho-me no escritório e procuro as harmonias do mundo. Voltei a estudar os ensinamentos de Pitágoras e de seus discípulos sobre as relações entre os números e os sons harmônicos. Benditos sejam nossos antepassados da Grécia! Descobriram, soando as cordas da lira, que os sons são agradáveis, ou melhor, harmônicos, apenas quando o comprimento do de duas cordas satisfazem razões simples entre si - 1:2 (uma corda...

A biblioteca elementar, por Alberto Mussa

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Os mortos voltam para casa. Os encantados, não. Porque os mortos perdem o nome quando morrem. O nome pode ir até a encruzilhada do primeiro céu, onde fica o Urubu de Duas Cabeças, e tentar passar. Pode também arriscar passagem pelo portal de pedra, entrada da terra dos antepassados, antes que as pedras fechem e o esmaguem. O encantado, não. Um encantado não pode se aventurar nesses lugares, porque é pesado. Encantado é o morto que não consegue perder o nome na hora de morrer. Encantados vão sem rumo, procurando a morte. Não apodrecem, como os mortos. Vão se esgarçando, perdendo os contornos, com o tempo. Não sentem dor. Têm é muita angústia, muita agonia. Essa angústia é que provoca o encantamento. Dizem, os encantados, que é melhor morrer. A morte precisa ser aceita. A angústia, na hora da morte, não deixa o nome fugir, se separar da sombra. Isso é o encantamento, uma grande desgraça. E os encantados vagam. Se, daqui, você chamar, você cantar, o encantado vem. Encontra um ...

Lagartixa cauda-de-chicote, por Patricia Porto

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Enfim encontro–me com a lagartixa. Ela que esteve sempre presente. Um amigo homem, claro, cortava o rabo da lagartixa aos aplausos de sua mãe: "Vai, filho, corta!" Isso só para vê–lo nascer de novo, o rabo, coisa de criança – a mãe dele dizia. Assim como era um chiste que o mesmo menino chutasse o rabo da babá – aos cinco anos de idade – quando voltava da sua escola em Londres. Meninos que cortam rabos de lagartixas adoram Londres – nem preciso fazer pesquisa – conheci muitos. Meninos que ficaram presos no cordão de fel de suas mães adoram cortar os rabos das lagartixas – alguns até queimam o rabo da lagartixa. Esses meninos não conhecem as mulheres amazonas ou as mulheres das ribeiras. Lá onde as águas cantam, as florestas abraçam – meninos que cortam, chutam ou queimam o rabo da lagartixa – eles simplesmente não existem. Mas foi quando vim para o Rio de Janeiro que conheci os cortadores de rabos de lagartixa, um terror. ( mote vencedor para o encontro de 12/03/2019) ...

Na presença da ausência, por Mahmoud Darwich

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No exílio escolhes um espaço para domesticar o hábito, um espaço privado para o teu diário. E escreves: O lugar não é uma armadilha. Podemos dizer: Aqui temos uma rua lateral, uma estação dos correios, uma padaria, uma lavandaria, uma tabacaria, uma esquina, e um cheiro que me faz lembrar... As cidades são cheiros: Acre cheira a iodo e especiarias. Haifa, a pinho e lençóis engelhados. Moscovo, a vodca e gelo. Cairo, a maga e gengibre. Beirute, a sol, mar, fumo e limões. Damasco, a jasmim e frutos secos. Tunes, a almíscar e sal. Rabat, a hena, incenso e mel. Uma cidade sem cheiro não tem lugar na memória. Os exílios partilham um cheiro: o cheiro da melancolia do que se foi; um cheiro que lembra outro. Um cheiro ávido e nostálgico que te guia, como um mapa turístico já gasto, ao cheiro do lugar primeiro. O cheiro é uma memória e um pôr-so-sol. Aqui, o pôr-do-sol é a reprimenda da beleza ao forasteiro. Mas, contrariamente do que dizem, amar o pôr-do-sol não é um dos atributos do...

A Casa Tomada, por Julio Cortázar

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Lembro-me bem da divisão da casa. A sala de jantar, uma peça com gobelinos, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá frente para Rodríguez Peña. Só um corredor, com sua maciça porta de carvalho, separava essa parte da ala dianteira, onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos de dormir e o living central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um saguão com azulejos de majólica, e a porta-persiana dava para o living . De maneira que se entrava pelo saguão, abria-se a porta-persiana e já se chegava ao living ; tinha-se, dos lados, as portas dos nossos quartos e, à frente, o corredor que levava à parte mais afastada; seguindo pelo corredor, chegava-se à porta de carvalho e mais adiante se iniciava o outro lado da casa, ou então se podia virar à esquerda, justamente antes da porta, e seguir por um corredor mais estreito, que levava à cozinha e ao banheiro. [...] Recordarei sempre, com nitidez, porque f...

O conto da Aia, por Margaret Atwood

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Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas. Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco. Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como um forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo. Estou em desgraça, o que é o oposto da graça. Deveria me sentir pior quanto a isso. Mas sinto-me serena, em paz, impregnada de indiferença. Não deixe que os bastardos esmaguem você. Repito isso para mim mesma, mas não me transmite nada. Seria a mesma coisa que você dizer: Que não haja ar; ou: Não seja. Suponho que você poderia dizer isso. Não há ninguém no jardim.             Gostaria de saber se vai chover. Lá fo...

MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO -- PRÓLOGO, de Flávio Tavares

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Primeiras visões Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, do mais profundo de ti, sim, mas vêm daquele meu ego morto que só contigo renasceu. Pouco me ri e muito mais sofri neste tempo todo. São 30 anos que esperei para escrever e contar. Lutei com a necessidade de dizer e a absoluta impossibilidade de escrever. A cada dia, adiei o que iria escrever ontem. A ideia vinha à memória, mas, logo, logo, se esvaía naquele cansaço imenso que me fazia deixar tudo para amanhã e jamais recomeçar. Tornei-me um esquizofrênico da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. Tendo tudo para contar, sempre quis esquecer. Por que lembrar o major torturador, os interrogatórios dias e noites adentro? Por que trazer de volta aquele sabor metálico do choque elétrico na gengiva, que me ficou na boca meses a fio? Por que lembrar a prisão em Brasília ou no Rio de Janeiro ou nos quartéi...

O Espeleólogo, por Paula Giannini

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Quando crescesse queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos. - Agora você já é quase um homem. E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô um lugar provisório, de onde assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra. Coisa para gente muito rica. Coisa para os heróis. E o avô-herói retirava maravilhas do carrinho. Latinhas, anéis, medalhas com fo...

A cidade em fuga, por Ana Teresa Jardim (mote)

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A minha história começa em Ipanema, que você conhece. Mas qual? O bairro boêmio dos anos pós-guerra, o paraíso dos hippies? A Ipanema que te peco para lembrar já tinha visto passar metade dos anos 50. Mas na minha percepção as épocas sempre trazem rastros indeléveis das anteriores. Tal vez eu me sinta assim por sempre ter convivido com pessoas de épocas separadas da minha por lapsos muito grandes de tempo. De modo que a atualidade nunca chegava completamente, ou o pelo menos chegava mais devagar.   Estava sendo criada, naquele momento, a batida jazzística que misturava o samba ao som e à calma das marés, e a bossa nova era tocada em apartamentos térreos nos prédios de três andares em Ipanema. Brisas noturnas sopravam suavemente da praia ali tão perto, onde se podia caminhar descalços o mundo de Julia e Max tinha o chão atapetado, cigarreiras, tafetá em pó compacto. A pequena cobertura na rua Joaquim Nabuco tinha no chão da sala um tapete cor de coral, que neutralizava com s...