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Balão Cativo, por Pedro Nava

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Quando não olhava para a Charlotte Corday nem para a Princesa de Lamballe, quando não lia — suspendia as âncoras, alestava os cabos, levantava minhas velas e saía mar afora. Para isto bastava fechar os olhos e encostar aquele búzio no ouvido. Era uma fantástica e gigantesca concha univalve cuja espiral não se desenvolvia em torno de uma linha, mas como giro que partisse do flanco de um cilindro. Essa anomalia do molusco deixava por dentro tuba que emitia o som grave, penetrante, profundo e antigo — o mesmo das que eram usadas pelos tritões no mundo de outrora. Eu tomava e soprava largamente como quem procede aos encantamentos. Ao seu troante apelo, como que o mar suscitado se empolava feito se dele fosse nascer outra lua e, do torvelinho da espuma de olhos fugazes, surgiam, cantando, nereidas de ventres nacarados, de altos pentes incrustados de caramujos e de imensas nádegas opalescentes. Punha no ouvido e do côncavo da concha vinha aquele ruído de para-sempre, aquele sustenido nas alt...

O Defunto, por Pedro Nava

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  O DEFUNTO (Pedro Nava) A Afonso Arinos de Melo Franco Quando morto estiver meu corpo evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos, só por piedade consigo, procuram apagar no Morto o grande castigo da Morte. Não quero caixão de verniz ou os ramalhetes distintos, os superfinos candelabros e as discretas decorações. Eu quero a morte com mau gosto! Deem-me coroas de pano. Deem-me as flores de roxo pano, angustiosas flores de pano, enormes coroas maciças, como enormes salva-vidas, com fitas negras pendentes. E descubram bem minha cara: que a vejam bem os amigos. Que a não esqueçam os amigos que ela perturbe os amigos e que lance nos seus espíritos a incerteza, o pavor, o pasmo... E a cada um leve bem nítida a ideia da própria morte. Descubram bem esta cara! Descubram bem estas mãos: Não se esqueçam destas mãos! — Meus amigos! Olhem as mãos! Onde andaram, que fizeram, em que sexos se demoraram seus lábios quirodáctilos? Foram nelas esboçados todos os gestos malditos...

Feijoada

V erbete de “O dicionário amoroso do Rio de Janeiro”, de Alvaro Costa e Silva (mais conhecido como Marechal). Ed. Casarão do Verbo, 2015, págs 79 a 82. Quanto maior o calor, mais o carioca come feijoada. Com o verão no auge, entre os meses de janeiro e fevereiro, fica impossível fugir dela. É como se vivêssemos naquela cena do filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade: mergulhados em orgia numa piscina cheia de lombo, lingüiça, costela, paio, orelha, chispe, focinho, pé, rabo. Para onde quer que você olhe há opções: restaurantes mais ou menos chiques, botequins, quiosques de praia, hotéis, clubes e até livrarias. As escolas de samba dão a largada, entupindo suas quadras aos sábados, quando são servidas mais de mil unidades do prato. O impressionante preparo, em cozinhas industriais, para o qual contribuem não só mulheres, mas também homens, tem início na quinta-feira. Não são apenas as carnes e o feijão: pense nos molhos de couve, nas dúzias de laranjas, nas cebolas e cab...