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Mostrando postagens com o rótulo novembro 2018

João Russo, por Vivian Pizzinga

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João Russo era um dos pacientes que mais gostávamos na clínica, embora sua assiduidade ao tratamento sempre tivesse sido aquém em relação àquilo que os supervisores consideravam terapeuticamente indicado, no caso dele. Russo tinha cerca de cinquenta anos. Ou um pouco mais. Um olho cego, um sorriso grátis, uma fala suave, muita vontade de gentileza, excesso de tristeza encarcerada. Quando conversava conosco, confesso: era difícil de entender, parecia que sua língua estava pela metade, danificada. Ou mesmo perambulando, troncha, pelo cerne da boca, e dando encontrões desavisados com o palato e talvez os dentes, que guardaram entre eles, algum dia, uma faca que nunca cravou o coração de ninguém. Russo já teve ódio. Já teve luta. Já teve, principalmente, muito, muito medo. Isso tudo era fácil de enxergar. Dentro dele, no entanto, o que o habitava agora era a loucura, forma possível de esquecimento, escolha de certo abandono de si e do mundo. Já isso era difícil de aceitar. João Russo n...

A Triesfera, de Guilherme Preger

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Quando recebi o bip do novum informando que a Tirania havia sido eleita, pensei: é preciso fugir. Mas não havia para onde.             Logo depois do novum , recebi dois outros bips em sequência. Eram do contato afetivo. Eles vieram na cor vermelha, de urgência.             As mensagens estavam escritas em nosso código de enlace. Tive que usar o decriptador secreto. Ele estava escondido num arquivo opaco de meu dispositivo virtual.             A primeira mensagem, em código hexadecimal (1578ACB745), quando traduzida dizia: “Eureka”. A segunda dizia apenas um código numérico, que não entendi.             Em seguida, mais um bip, que dizia: “SOS”. E então achei que deveria visitá-lo imediatamente.           ...

O conto da Aia, por Margaret Atwood

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Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas. Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco. Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como um forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo. Estou em desgraça, o que é o oposto da graça. Deveria me sentir pior quanto a isso. Mas sinto-me serena, em paz, impregnada de indiferença. Não deixe que os bastardos esmaguem você. Repito isso para mim mesma, mas não me transmite nada. Seria a mesma coisa que você dizer: Que não haja ar; ou: Não seja. Suponho que você poderia dizer isso. Não há ninguém no jardim.             Gostaria de saber se vai chover. Lá fo...

MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO -- PRÓLOGO, de Flávio Tavares

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Primeiras visões Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, do mais profundo de ti, sim, mas vêm daquele meu ego morto que só contigo renasceu. Pouco me ri e muito mais sofri neste tempo todo. São 30 anos que esperei para escrever e contar. Lutei com a necessidade de dizer e a absoluta impossibilidade de escrever. A cada dia, adiei o que iria escrever ontem. A ideia vinha à memória, mas, logo, logo, se esvaía naquele cansaço imenso que me fazia deixar tudo para amanhã e jamais recomeçar. Tornei-me um esquizofrênico da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. Tendo tudo para contar, sempre quis esquecer. Por que lembrar o major torturador, os interrogatórios dias e noites adentro? Por que trazer de volta aquele sabor metálico do choque elétrico na gengiva, que me ficou na boca meses a fio? Por que lembrar a prisão em Brasília ou no Rio de Janeiro ou nos quartéi...