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Mostrando postagens com o rótulo Conto vencedor

O cubo, por Camilla Agostini

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O Cubo Camilla Agostini Nasceu para ser um cubo. Mas era também de gelo. Vivia nas bandejas plásticas de congelador, próprias para cubos. Às vezes vinha refrescar um suco. Era um prazer especial mergulhar naquele sumo morno com suas fácies geladas, quando espirravam gotas para fora do copo. Depois rodar de um lado para o outro dentro da boca humana, empurrado pela língua contra o macio da bochecha. Fazê-la gelar e então ser cuspido no vazio do copo. Quando não passava de um resto. Voltava correndo para a bandeja antes de desvanecer. Pedia que lhe completassem de água e que lhe deixassem quieto no recinto gelado até que pudesse ser útil novamente. Até um dia que foi servido numa mesa bonita e escapou sobre a toalha ao lado de uma vela acesa. Ela era muito alta, então não fazia mal. O cubo de gelo, com suas paredes ainda em riste, admirado confessou: – Sua chama é bonita. Estou cansado de sempre me esvanecer. Você também passa por isso? – Não sei do que está falando, me acenderam agora a...

A Velha Senhora, por Guilherme Preger

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  A Velha Senhora olhou os jovens mascarados pela janela de seu apartamento e pensou: “Covardes! Têm medo de morrer! Quem tem medo de morrer não está preparado para viver e sobreviver. Como eu. Eles acham que eu cheguei a noventa e quatro anos como? Com medo de morrer? Se tivesse medo, teria ficado pelo meio do caminho. Não teria tido filho. Não teria aguentado o divórcio. Não teria bancado minhas próprias contas. Não teria comprado este apartamento. Covardes!”. Ela costumava a sair sem máscara para demonstrar seu desdém pelos medrosos. Quem tem medo de morrer acaba por se tornar escravo. Mas ela era uma Senhora. Ela mandava, nunca havia recebido ordens de ninguém, nem do Falecido. Os funcionários da Padaria reclamavam. “A Senhora não pode andar sem máscara, não!”. Queria ver que não a deixassem entrar. Sempre deixavam, pois aqueles servos eram interesseiros. Eram medrosos mas não rasgavam dinheiro. E comprava seus pães e o leite. E pagava com dinheiro. Sempre dava uma tossezinh...

UM DIA NA VIDA, POR GUILHERME PREGER

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  UM DIA NA VIDA 08:30 A.M. ACORDE AO TOQUE DO CELULAR. COLOQUE EM MODO SONECA POR MAIS 15 MINUTOS. DEPOIS LEVANTE. VÁ AO BANHEIRO. URINE. NA COZINHA PREPARE O CAFÉ. ACENDA O FORNO E COLOQUE O PÃO FRIO POR 10 MINUTOS. COLOQUE XÍCARAS E TALHERES, A MANTEIGA E O MEL. VERIFIQUE SE HÁ REQUEIJÃO. APÓS O CAFÉ, LIGUE O COMPUTADOR; ESPERE POR 10 MINUTOS PELO CARREGAMENTO DO SISTEMA OPERACIONAL. VERIFIQUE SUA CAIXA POSTAL PESSOAL. DELETE AS MENSAGENS DE SPAM. RESPONDA AS MENSAGENS URGENTES. DEPOIS ENTRE NA CAIXA POSTAL DO TELETRABALHO E REPITA A OPERAÇÃO. VERIFIQUE SE HÁ REUNIÕES MARCADAS NA AGENDA DA PLATAFORMA DE VIDEOCONFERÊNCIA. ABRA OS SÍTIOS NOTICIOSOS. VERIFIQUE ALGUM FATO RELEVANTE. EM CASO DE FATO RELEVANTE, ABRA SUA REDE SOCIAL E ESCREVA UM COMENTÁRIO. CASO CONTRÁRIO, OBSERVE OS POSTS DE SEUS CONTATOS. COMENTE ALGUNS DELES. EM CASO DE TRETA, REPITA VÁRIOS COMENTÁRIOS ATÉ A TRETA SE ESGOTAR. SAIA DA REDE SOCIAL. PROCURE EM ALGUM SERVIÇO DE ENTREGA UM PRATO DO TI...

O alfabeto do silêncio, por Leo Almeida

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Quando lhes disse que havia descoberto o Manual, trataram-me como louco e impuseram-me grades e medicações. De uma hora para outra, em função de minha declaração firme, resoluta, fui tratado como ensandecido e merecedor do claustro manicomial. Ah, quisera eu ter calado a descoberta e tudo seria tão diferente em minha vida, mas não... com a boca grande dos perdidos e deslumbrados, contei a todos que, fuçando uma velha estante de livros num sebo do Largo de São Francisco, caiu-me em mãos o tal Manual que, na verdade, intitulava-se Gramática da Poesia do Silêncio – Manual prático para principiantes. Primeiro quedei-me estupefato, pois a tal Gramática, uma espécie de Santo Graal da Estética Literária, era tão rara quanto o corno de um unicórnio. Para muitos, tratava-se de mera lenda, conto de fadas. Uma das mais antigas menções ao livro, encontra-se na pequena dupla-quadra do Cancioneiro Geral, atribuída a Garcia de Resende: Se silêncio queres Busca a poesia Não a que alicia A doce língua ...

O bebê de Maria, por Leo Almeida

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O bebê de Maria Disseram que era filho dele, do inominável, do coisa ruim. A cidade inteira, assustada, começou a cochichar pelas vielas, gretas escuras, bares. Do dia para a noite, não se teve mais sossego por aquelas bandas: é filho do tinhoso , diziam as beatas na reunião da paróquia, antes da missa, e se benziam assustadas e maldosas. Ao mostrarem qualquer descrença, duvidando da paternidade infernal da criança, algumas pessoas de alma boa e boa crença eram convencidas pelo olhar de ameaça que insistia no vaticínio: esse menino veio das profundas . Estava escrito , diziam. Deve-se à parteira o início de todo esse disse-me-disse. Confidenciando a um grupo de amigas, afirmou que nunca tinha visto nada igual: os olhos, os olhos, eram coisa de outro mundo. Um horror! O corpinho, que se mexia como uma serpente ao sair da mãe, tinha escamas. Sim, eram escamas. Nunca tinha visto algo assim. Nasceu com os olhos de fogo bem abertos e não chorou, pelo contrário, emitiu uma risadinha fina e i...

Dresden, por Camilla Agostini

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Conheci um sujeito das bandas de lá. Ele contava que quando criança esperavam os tios virem visitar. Era quando traziam presentes da Alemanha Ocidental. Ficara radiante, já adolescente, com a chegada do jeans em uma dessas visitas. Aos dezenove anos tentou fugir, atravessando a fronteira pela floresta. Como muitos alemães, guardava memórias antigas do tempo da guerra, mesmo aquelas herdadas ou as ouvidas quando esteve preso, por ousar ter outra escolha àquela que lhe oferecia o seu país. Contava que a primeira coisa que os russos faziam no tempo da guerra, ao invadirem uma cidade, era retirar o sino da igreja. Disse isso como se fosse evidente, acompanhado de um silêncio imperativo. O tempo, regulado pelas badaladas, não estaria mais nas mãos de Deus, era esse o recado? Contava também que os casais, quando os homens partiam para a guerra na Rússia, lavavam os pés um do outro, em um ritual de despedida e de afeto, pois não sabiam quando, ou mesmo se, iriam se reencontrar. Conheci t...

Matilde, por João Mattos

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Agradecendo a Wanderson Alves pela cessão de uma de suas inspiradoras fotos A casa parece chorar, manchas esverdeadas nos muros, rachaduras nas paredes, um cheiro de mofo por toda a parte. A empregada nova – a cada mês tem uma, impossível guardar o nome de ajudantes tão efêmeras – me conduz até o quarto. Sentada na cadeira de rodas, Matilde cantarola uma canção de sua terra: "Debaixo da oliveira / Não se pode namorar / A folha é miudinha / Deixa passar o luar". Quando me vê – sem me reconhecer absolutamente – pergunta se vou levá-la de volta a Miranda do Douro, onde seus pais a esperam, já não quer ficar presa no castelo da princesa. Olho ao redor, os aposentos da princesa – a princesa que Matilde foi um dia, uma lembrança que se apagou na bruma de sua memória: a romântica cama, com o dossel já meio rasgado e pilastras torneadas que já conheceram dias melhores, as cortinas de seda tisnadas pela maresia, as arandelas de cristal trincadas. Há quase cinco década...

Coisas na cabeça de um guri, por Camilla Agostini

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Tomar um brinquedo nas mãos, pousá-lo logo à frente e vê-lo mover. Se a casa de bonecas da prima abre portas e janelas, deixando as mãos apertadas entrarem, seus pequenos balanços em formato de carrossel giram e a lembrança voa para o dia no parque de diversões. Luzes coloridas e brinquedos emocionantes, assustadores com uma dose de aventura. Montanha russa, trem fantasma, bate-bate. Esperava a chuva passar para que logo pudesse ir aos balanços da pracinha, enquanto giravam ali no chão da sala as cadeirinhas coloridas nas mãos do guri. A praça era o que restava depois da temporada do parque na localidade. Esse mesmo piá esteve um dia instigado em como tanta coisa podia parar dentro de uma garrafa de vidro. Olhava bem e desafiava o pensamento, imaginando a engenharia necessária para passar um boneco articulado de madeira pelo gargalo. Averiguava com as pontas dos dedos que não havia marcas na garrafa, a única entrada possível era a diminuta boca e insistia em uma resposta até cansar a...

Aristeu, por João Mattos

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Aristeu, no primeiro dia de aula. Aristeu, companheiro de carteira escolar, com dificuldade de pegar no lápis. Para mim era fácil, vinha de uma casa de professora, tinha lápis de cor, papel e cartolina, giz de cera à vontade. "Mas essa gente é muito bronca", dizia minha mãe. E teve o dia de fazer a primeira cópia. A história de Oscar, seu barco e seu cãozinho. Da lousa para o caderno, capricho e atenção. Eu terminei, os colegas terminaram. Aristeu, com seus garranchos, nunca chegava. "Muito devagar, muito devagar!", censurou a professora. Aristeu ria, um riso sem graça. A casa de Aristeu era lá pra baixo, quase na beira do rio. Isso era recente, dois anos antes moravam na roça, no bairro dos Sete Fogão. Minha mãe corrigia: "Sete Fogões". Mas não tinha jeito não, o nome do lugar era Sete Fogão mesmo. Aristeu e as brincadeiras no pátio. E na volta da escola, passar pela praça, subir na mangueira, jogar pedras no laguinho dos peixes. Aristeu era danad...

O número três implica caos

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O combinado era de que seríamos três. Um, o outro e um terceiro. E o terceiro não seria a simples adição ou a complexa multiplicação dos outros dois. Pois um mais um dá dois; e um vezes um dá um. O terceiro seria um ente autônomo, com suas necessidades e desejos diferentes das necessidades de nós outros. Dizem que o número três é mágico. Falam no poder da Santíssima Trindade. Falam da complexidade da dialética hegeliana: tese, antítese, síntese. E o corpo: cabeça, tronco e membros. No nosso caso, seria simples assim: o um, o dois e o três. Como num triângulo, nem isósceles nem equilátero, um triângulo irregular. Cada lado com seu comprimento. Cada um de nós estava num vértice. E cada um via sempre o segundo e o terceiro. O terceiro deveria ser o produto de nossas ações, o resultado de nosso encontro, mas a verdade é que aos poucos cada um de nós dois começou a ser definido, ou determinado pelo terceiro. O terceiro parecia não ter vindo depois, mas antes. Foi o terceir...

Doutor Faustus: Autoexílio nos Trópicos, por Marcos Pedrosa de Souza

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Foi no mesmo bar em que se conheceram, que os dois vieram a se reencontrar. Doutor Faustus, o mefistófeles do submundo do Rio de Janeiro, e Demétrio, o Lacan da Lapa. Não se viam há um bom tempo e se lançaram aos braços um do outro com toda efusividade em uma daquelas confraternizações de velhos e saudosos amigos. A última vez que se encontraram foi ainda durante o período de vivência intensa de suas respectivas juventudes. Era à época em que Faustus, ainda um estrangeiro na cidade, buscava sua aproximação com as figuras mais prosaicas da vida carioca. E entre estas, estava Demétrio, alguém com quem teve imediata e plena identificação. Apesar da pompa do título de doutor, Faustus era, como Demétrio, um charlatão barato, um vigarista de alta estirpe, um pilantra formado nas piores escolas da canalhice. Também tinha realizado seu curso por correspondência como o Lacan da Lapa, nosso psicanalista especializado no atendimento aos frequentadores do baixo meretrício. Só que em lugar de Vi...