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Mostrando postagens com o rótulo Vivian Pizzinga

Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, de Gloria Anzaldúa

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21 de maio de 1980 Queridas mulheres de cor, companheiras no escrever Sento-me aqui, nua ao sol, máquina de escrever sobre as pernas, procurando imaginá-las. Mulher negra, junto a uma escrivaninha no quinto andar de algum prédio em Nova Iorque. Sentada em uma varanda, no sul do Texas, uma chicana abana os mosquitos e o ar quente, tentando reacender as chamas latentes da escrita. Mulher índia, caminhando para a escola ou trabalho, lamentando a falta de tempo para tecer a escrita em sua vida. Asiático-americana, lésbica, mãe solteira, arrastada em todas as direções por crianças, amante ou ex-marido, e a escrita. Não é fácil escrever esta carta. Começou como um poema, um longo poema. Tentei transformá-la em um ensaio, mas o resultado ficou áspero, frio. Ainda não desaprendi as tolices esotéricas e pseudo-intelectualizadas que a lavagem cerebral da escola forçou em minha escrita. Como começar novamente? Como alcançar a intimidade e imediatez que quero? De que forma? Uma carta, claro...

João Russo, por Vivian Pizzinga

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João Russo era um dos pacientes que mais gostávamos na clínica, embora sua assiduidade ao tratamento sempre tivesse sido aquém em relação àquilo que os supervisores consideravam terapeuticamente indicado, no caso dele. Russo tinha cerca de cinquenta anos. Ou um pouco mais. Um olho cego, um sorriso grátis, uma fala suave, muita vontade de gentileza, excesso de tristeza encarcerada. Quando conversava conosco, confesso: era difícil de entender, parecia que sua língua estava pela metade, danificada. Ou mesmo perambulando, troncha, pelo cerne da boca, e dando encontrões desavisados com o palato e talvez os dentes, que guardaram entre eles, algum dia, uma faca que nunca cravou o coração de ninguém. Russo já teve ódio. Já teve luta. Já teve, principalmente, muito, muito medo. Isso tudo era fácil de enxergar. Dentro dele, no entanto, o que o habitava agora era a loucura, forma possível de esquecimento, escolha de certo abandono de si e do mundo. Já isso era difícil de aceitar. João Russo n...

Diatribe, por Vivian Pizzinga

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Meu nome é Charlotte. E também Douglas. Muitíssimo prazer. Charlotte Douglas nos dias pares, nos dias ímpares tudo muda de figura. Sou, então, Alexander. E também Maria. Meus cumprimentos, Alexander Maria nos dias ímpares. Tenho atributos ambíguos e capacidades múltiplas, e conforme a hora do dia sou também Renata. Renata Alexander Douglas, depois das seis da tarde, quando o metrô é um apinhado humano de humores, odores e o que mais couber no vagão. Dizem que não sou flor, que não sou flor que se cheire, que sou cheiro sem flor. Não gostam de mim porque sou Lilian quando em viagem a negócios. E também Débora. Lilian Débora com uniforme de executiva, mas de férias sou Paulo. E também Jaime. Paulo Jaime se o hotel é cinco estrelas, se a orla me apetece, se o chopp estremece na tulipa. Não gostam de mim porque exalo (é o que dizem) certo odor de paranoias antigas e coletivas, não sou flor que se queira. A azia não me pertence, mas querem imputá-la a mim, porque sou Lilian Jaime Charlo...

Testo Junkie, por Paul Preciado

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Este livro (...) é um protocolo de autotestes com testosterona em gel, exercícios de envenamento controlado em meu próprio corpo. Infecto-me com um significante químico culturalmente marcado como masculino. Vacinar-se de testosterona pode ser uma técnica de resistência para os corpos com os quais fomos designados como mulheres cis. Adquiri certa imunidade política de gênero, tomar um porre de masculinidade, saber que é possível vir a ser do gênero dominante. "Pouco a pouco, a administração de testosterona deixou de ser um simples teste política e se transformou em uma disciplina, um ascetismo, um modo de ressuscitar meu espírito através do pelo que cresce nos meus braços, um vício, uma forma de gratificação, uma fuga, uma prisão, um paraíso. "Os hormônios são próteses químicas. Drogas políticas. Neste caso, a substância não só modifica o filtro com que decodificamos e recodificamos o mundo: também modifica radicalmente o corpo e, portanto, o modo pelo qual somos decodifi...

Tratado do uso das mulheres, de Rubem Fonseca

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'Foi tudo uma coincidência'. 'Coincidências não existem.' 'Não existem?' 'Vá lá, existem. Mas não resultam em nada.' 'Um amigo meu estava andando numa rua da cidade e um infeliz resolveu se matar, pulou da janela de um prédiio e caiu em cima do meu amigo que passava. Os dois morreram. Não foi uma coincidência? Com resultado, trágico, aliás.' 'E você se chamar Francisco Nunes Correia é a importante coincidência que levou você a querer escrever esse livro?' 'É.' 'O nome do sujeito é Francisco Nuñes Oria. Não é Nunes Correia. Ele nasceu em mil quinhentos e tantos, na Espanha.' 'As coincidências podem ser plenas ou parciaisl. Eu também sou médico, como ele era. O tratado que ele escreveu é de 1572, o final do número do meu telefone.' 'Que coisa mais boba.' 'Coincidências parciais são muitas vezes mais importantes do que as plenas. E não se esqueça de que o tratado dele, como o que eu ...

Mote do encontro (12/ 04/ 16)

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Mote lido por Vivian Pizzinga Adeus a Alexandria O poder das palavras que queremos ouvir é grande. Como um filhote de pássaro, o amor precisa receber continuamente essas regurgitações senão morre. É uma construção frágil, vive de promessas. Cada dia tem que ser confirmado com frases escritas no vento. CAMPELLO, Myriam. Adeus a Alexandria . Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2014. Myriam Campello nasceu no Rio de Janeiro. Com Cerimônia da noite, seu primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmio Fernando Chinaglia para romance inédito. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993, editado na Alemanha em 1998), Sons e outros frutos (contos, 1998, Bolsa para Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional em 1996), Como esquecer (romance, 2003) e Jogo de damas (romance, 2010). Em 1997, recebeu o Prêmio União Latina - Concurso Guimarães Rosa para conto inédito. Participou de diversas antologias, entre elas Os cem melhores contos bras...

Equívoco - Vivian Pizzinga

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Equívoco resolveu retomar o diário que havia abandonado, o caderno azul, agora com outros temas, quem sabe o detalhamento do tempo, quiçá o entendimento da dor, ou ainda a caminhada para algo que termina, os temas difíceis que ela jamais conseguira compreender. começaria por aquele dia de sol inesperado em pleno agosto. começaria pelo banal, ou pelo que parecia banal. aquele dia era um dia como qualquer outro, isso se olhado a olho nu, mas ela sabia, e escreveu isso, a primeira frase da retomada do diário, escreveu que nunca se deve tomar as coisas pelo modo como são vistas a olho nu. pensou, em seguida, que a cada dia, menos um dia. estamos sempre caminhando para algum final. queria entender o tempo, mas só se acercava de seus simulacros, e sabia disso. talvez escrevendo sobre ele no caderno azul tudo fizesse mais sentido. era como se, ao fazê-lo, pudesse destacar e transformar em objeto aquela relação com o tempo. e o tempo agora a pressionava de modo diferente. ela sabia qu...

Mote do encontro (18 /08/ 15)

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mote lido por Luiz Alberto Benevides A primavera entra pelos pés Prazo ela só não queria morrer antes do prazo certo. havia um prazo. a ser dado por ela mesma no futuro e que só saberia no momento de. a gente sempre sabe, era o que ela dizia quando lhe perguntavam. intuição? não, ela respondia, cansada de mesmices, intuição é explicação rápida, rasa, raquítica. por causa das mesmices e de muito raquitismo, saiu do facebook. não tinha mais tempo, nem paciência, as redes sociais reproduziam em excesso a vida ao vivo, facebook era sua agrura, vida social era seu horror. para que mais? para que tanto? não, não queria cansar dos amigos mais do que poderia se cansar deles na vida real, saiu do facebook, pôs-se a escrever poesia ou, melhor, pôs-se a escrever o que torcia (dedos cruzados) para que poesia fosse. no caderninho azul que denise havia trazido para ela da inglaterra, fez um diário da dor, esse sim nada poético. mas cru. um diário milimétrico, obses...

Graça - Vivian Pizzinga

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Graça Foi ali, exatamente ali, que os conheci. Do outro lado da rua, eu apontava para o prédio que havia sido a livraria que frequentei por alguns anos, até que mudasse de bairro. Meu filho de trinta anos estava comigo, engajado naquela espécie de jornada para conhecer os lugares que haviam sido importantes em minha juventude. Eu havia mostrado a escola onde estudei, as casas dos amigos que moravam próximos a mim, a faculdade, o bar onde havia conhecido o pai dele, e meu filho, interessado, me fazia perguntas, esboçava curiosidades, verbalizava estranhamentos. Através de suas indagações, eu ia me lembrando de situações mínimas que havia vivido, problemáticas que me fizeram perder noites de sono, confusões hoje risíveis. Se eu fosse escrever uma autobiografia, disse a ele, aquela livraria e o grupo que formamos seria, certamente, o capítulo mais longo. Atravessamos a rua, entrei na transversal e constatei que, trinta anos depois, ao menos o Pavão Azul ainda existia. Vamos s...