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Mostrando postagens com o rótulo 2014

São Paulo, 40 graus - Guilherme Preger

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São Paulo, 40 graus São Paulo, 40 graus, aqui ficou tudo um caos. Do alto do Edifício Copan, eu vejo a cidade, mas não vejo amanhã. Não chove, não cai água, só há suor e mágoa. Lá embaixo,   vejo multidões sedentas, sinto sedes irredentas. No asfalto calcinante, sufocam os ambulantes. Nas calçadas ao sol, está aceso o paiol. Mataram todos os mananciais, agora não vai ter paz. Chegamos ao fundo do poço, estava sem água e todo mundo está no osso. Os manos cavam fundo a terra que só minério encerra. Maluf furou por petróleo, mas só automóvel engole óleo. Agora é sem apelo, não sobrevive nem camelo. Nego te fez de otário, te chamando de dromedário. Construíram estrada e viaduto e puseram no tributo. Fizeram uma cidade para os carros e não há saliva para escarro. Gasolina tem bastante, mas a água é diamante. A cidade virou um sertão, mas secaram o coração. Dizem que o corpo é todo líquido, mas nego foi muito iníquo. Secaram os dias e a esperança, agora é cada um com sua dança. To...

Partilha amigável - Clara I. P. Mello

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Partilha amigável - Toma, fica com ‘o sexo'. Acho que não vou mais usar. - Hum... é? Enão me dá. - Posso ficar com ‘a parcimônia'? Sei que era sua, mas é que eu nunca tinha tido, agora me acostumei e já não sei viver sem ela... - Tá, mas então você concorda em deixar ‘a desinibição' pra mim? - Se ela quiser, pode ficar... Quando recobrou a atenção no que estava se passando a sua volta, parecia que o pessoal da empresa de mudanças estava parado ali na frente dela esperando orientações há pelo menos uma hora. Levantou os olhos que estavam fixos num jarro de vidro e deu de cara com o Sr. Luiz, encarregado chefe da mudança. Na blusa dele leu: "Gato Preto", e daí pensou que ‘a sorte' não poderia ser partilhada. Ele e ela deveriam mantê-la porque o azar de um deles poderia comprometer os projetos de ambos. A sala foi-se esvaziando e já se ouvia o eco do apartamento vazio. Já nos últimos itens despachados viu que ia sobrando a caixa de fotogr...

Um conto sobre o infinito - Francisco Ohana

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Um conto sobre o infinito A luz da rua empalidecia de indecisão o fim de tarde. Gostava de anoitecer porque as pessoas voltavam para casa, porque os sons começavam a ter eco, porque a brisa era fria. Porque as janelas ficavam brancas e amarelas e a vida parecia uma piscina. Um mecanismo artificial. Seguia as marcas de sapato depois de poças na calçada sobre as quais gente e gente. Chutava pedacinhos de galho, entrava numa loja de vestidos e ia ao banheiro. Procurava gotas secas de xixi na porcelana, denunciando que alguém, além dela, havia estado ali. Notava que os animais da noite (formigas voantes, libélulas e demais insetos) eram outros que os do dia – sabia de histórias de bichos com hábitos noturnos na mata detrás dos prédios. Olhava janela adentro nos andares baixos e via a cena repetida da caixa de música da vida particular. E, assim, ainda não existia dia seguinte no meio do ano. Não importava quantas cidades viesse a conhecer – seu mundo era um bai...

Narrativas - Francisco Ohana

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Narrativas Ainda lhes restava alguma autoconfiança. Havia no centro da cidade uma espécie de edifício monolítico. Preto. Era menos que uma sentinela guia de destinos, menos que um canto de sereia perturbador de macacos e astronautas temerosos. Acho mesmo que, pela irrelevância, pode não ter acontecido nada do que digo, e que minha memória seja mais uma contação, apenas. Da janela da torre não se vê muita coisa, mas o suficiente para notar que funcionários fechavam às pressas os portões em torno na tentativa de barrar os manifestantes. Vinham em traje típico e alguns tinham arco e flecha em mão. Canteiros inclinados ladeavam o prédio, cercado de grades que haviam sido transpostas pelas gentes em movimento. Uns penduravam-se no cercado e gritavam uma cantoria de bando. Outros apontavam flechas para fileiras de homens uniformizados, curvos detrás dos muros e paredões da estrutura, esgueirando-se ao modo dos primatas iniciais na iminência de um salto maior. No gramado viam-se cocar...

Nicole e o autorretrato - Andréa Rodrigues

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Nicole e o autorretrato Nicole tinha nascido num subúrbio de Paris, há treze anos e alguns meses.   Tinha esse nome assim francês mas era filha de argelinos, imigrantes na França desde que eram adolescentes. Nicole estudava numa escola a duas quadras da sua casa. No caminho, passava por um prédio que tinha uma placa cheia de nomes. Desde que tinha uns 8 anos ela tinha resolvido parar para ler o que havia ali. Era uma lista com o nome de crianças que moravam naquele prédio na época da segunda guerra e que foram levadas dali para os campos de concentração, pelos alemães. Desde que tomou conhecimento disso, Nicole tinha pensado que, tivesse ela nascido muito antes, poderia ter sido vizinha de dezenas de crianças que desapareceriam para sempre um dia.   A distância que havia entre Nicole e as crianças que foram levadas de suas casas era apenas de tempo. Elas moraram na mesma rua que ela. Tinha um escorrega no prédio delas. Talvez Nicole brincasse ali com elas, no alto d...