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Mostrando postagens com o rótulo Walter Macedo Filho

Dose, por Walter Macedo filho

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Dose Responsabilidade dela Não tenho certeza se tomei o remédio. Acredito que se eu tivesse tomado, provavelmente já teria feito algum efeito. Não tenho paciência para essas coisas. Por mim, deixaria como está. Mas estou certo de que ela vai notar. Ela vai querer saber. Ela vai conferir a quantidade. Ela sempre sabe a quantidade. Sempre sabe se está certa ou não. Sabe mais do que eu. Mas saber mais do que eu não é lá grande coisa. E se eu tomar agora? E se eu já tiver tomado? Não dá para descuidar. Eu deveria ter prestado mais atenção. Agora já foi. Ela que descubra. Ela que reclame mais uma vez. Que importa? Se ela faz questão de conferir, é porque eu não sou mesmo confiável. Se não dá para confiar em mim, isso passa a ser problema dela, responsabilidade dela. Ela me acostuma mal me tratando sempre assim. Como quer que eu seja diferente? Como posso ser diferente se sempre me acham incapaz para qualquer coisa? Qualquer coisa como, por exemplo, tomar um remédio na hora certa. Mas...

Empenhar ou derreter?

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Gilberto nunca teria feito aquilo, não fosse pela necessidade. Não era o seu perfil. Ele nem sabia direito como funcionava uma penhora. Foi até o banco e pegou as informações. De imediato, lembrou-se de sua tia-avó, dona Irene, que morou na zona norte, onde Gilberto, quando criança, passava semanas sozinho durante as férias escolares. Eram as férias mais tristes que trazia na memória. Às vezes, as imagens daquele tempo apareciam de repente na sua cabeça e seu estômago encolhia como um tatu-bola. Quando se aproximava o final de cada semestre, e as aulas estavam para terminar, Gilberto mais uma vez tentava persuadir seus pais para que desistissem de entregá-lo aos cuidados da tia Irene. Agora que sabia do que se tratava uma penhora, Gilberto viu que, na situação em que se encontrava, era sua única saída. Não tinha jeito. Estava sem um tostão e o que ainda possuía de valor, que poderia transformar em dinheiro, eram as alianças, a sua e da sua mulher. A doença e a morte da esposa...

Mote do encontro (05/ 03/ 16)

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Mote lido por Walter Macedo Filho Possibilidades da inteligência Uma inteligência que reflete é uma inteligência que, afora o esforço praticamente útil, possuía um excedente de força para gastar. É uma consciência que, virtualmente, já se reconquistou a si mesma. Mas ainda é preciso que a virtualidade passe ao ato. É de presumir que, sem a linguagem, a inteligência teria ficado atada aos objetos materiais que tinha interesse em considerar. Teria vivido num estado de sonambulismo, exteriormente a si mesma, hipnotizada por seu trabalho. A linguagem contribuiu muito para libertá-la. A palavra, feita para ir de uma coisa para outra, é, com efeito, essencialmente deslocável e livre. Poderá, portanto, estender-se, não só de uma coisa percebida a outra coisa percebida, mas também da coisa percebida à lembrança dessa coisa, da lembrança precisa a uma imagem mais fugidia, de uma imagem fugidia, mas no entanto ainda representada, à representação do ato pelo qual é represen...

Mote do encontro (16/ 02/ 16)

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Mote lido por Walter Macedo Filho   História da Loucura A Renascença despojou a miséria de sua positividade mística. E isto através de um duplo movimento do pensamento que retira à Pobreza seu sentido absoluto e à Caridade o valor que ela obtém dessa Pobreza socorrida. No mundo de Lutero, e sobretudo no de Calvino, as vontades particulares de Deus — esta "singular bondade de Deus para com cada um de nós" — não deixam à felicidade ou à infelicidade, à riqueza ou à pobreza, à glória ou à miséria o dom de falar por si mesmas. A miséria não é a Dama humilhada que o Esposo vem tirar da lama a fim de elevá-la; ela tem no mundo um lugar que lhe é próprio — lugar que não testemunha por Deus nem mais nem menos do que o faz a riqueza. Deus está tão presente, sem dúvida, sua mão generosa tão próxima da abundância quanto da miséria, conforme lhe aprouver "alimentar uma criança abundantemente ou escassamente" 1 . A vontade singular de Deus, quando se di...

Nascimento - Walter Macedo Filho

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Nascimento Assustei quando minha tia perguntou o que eu fazia sentada com as duas mãos entre as coxas, as palmas abertas e viradas para fora a massagear minhas virilhas num vai-e-vem automático, desce-e-sobe ritmado. Não era eu. Era meu corpo. A imagem congelou: ele tirava a camisa, o cinto frouxo fez a calça escorregar parando em diagonal, abaixo da cintura. O que eu não via, imaginava. − Saia daí. Deixe seu pai terminar de se arrumar. De uma só vez descobri o desejo, o pecado e a culpa. Eu faria 12 anos dali a três meses. Ele olhou para o canto onde eu estava e lançou uma piscadela para mim. Nunca mais me foi possível ver o torso despido de um homem sem que aquela imagem viesse em relâmpago à minha cabeça. No começo eu tentava reprimir de qualquer forma, fosse negando, fosse desfazendo relacionamentos que ainda estariam para se formar só porque tinham alguma relação com o que vi naquele momento. Passados os anos, cedi. Na primeira semana que parei de resisti...