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Mostrando postagens com o rótulo José Fontenele

Natureza Morta, por José Fontenele

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Mesmo que as sagradas escrituras esclareçam o contrário, a mulher nasceu foi no subterrâneo. Certo ponto chateou-se. Deixou para trás as fissuras do Hades e decidiu subir de mansinho à superfície. A ganância pelo horizonte fez com que a feminina encontrasse um rapaz adormecido em um jardim frutífero e animais nada peçonhentos. Experiente na arte da sobrevivência, a mulher localizou rapidamente os sexos e as formas entre eles e resolveu permanecer como cobaia no jardim primaveril dando-se por desconhecida dos fatos; como se nascesse naquele instante sem memória de suas impurezas ou desmazelas. O momento era favorável à nova moradora: Adão procurava alguém que representasse a função dele de ser mais inepto entre os habitantes do jardim; e deus não queria perder discípulos, afinal se eliminasse a criatura recém-chegada abortaria pelo menos metade de seus atuais e futuros fiéis. Ela sorriu de forma indiferente, fez-se tonta e desajeitada, e recebeu o nome de Eva. Nós, os outros, em desl...

Entremeio com o vaqueiro Mariano, de Guimarães Rosa

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“Em julho, na Nhecolândia, Pantanal de Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais. Típico, e não um herói, nenhum. Era tão de carne-e-osso, que nele não poderia empessoar-se o cediço e fácil da pequena lenda. Apenas um profissional esportista: um técnico, amoroso de sua oficina. Mas denso, presente, almado, bom-condutor de sentimentos, crepitante de calor humano, governador de si mesmo; e inteligente. Essa pessoa, este homem, é o vaqueiro José Mariano da Silva, meu amigo. Começamos por uma conversa de três horas, à luz de um lampião, na copa da Fazenda Firme. Eu tinha precisão de aprender mais, sobre a alma dos bois, e instigava-o a fornecer-me factos, casos, cenas. Enrolado no poncho, as mãos plantadas definitivamente na toalha da mesa, como as de um bicho em vigia, ele procurava atender-me. Seu rosto, de feitura franca, muito moreno, fino, tomava o ar de seriedade, meio em excesso,...

A benção do malandro, de José Fontenele

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A bênção do malandro Quem nota o seu Cesinha desacompanhado na mesa da diretoria da Estudantina pode pensar que ele é apenas um homem idoso utilizando o privilégio de sua idade. Supor isso denuncia que a pessoa ou é novata naquela gafieira ou não conhece as malevolências amorosas do malandro. Chapéu Panamá de abas curtas, paletó sempre branco e engomado, camisa de algodão de listras branco-pretas do glorioso Botafogo, calças brancas de leve brim e sapato social como a luz da lua, seu Cesinha não risca o salão por impedimento de suas mulheres. Elas têm medo de ganhar outra concorrente. Digo mulheres porque o malandro é casado de forma civil com a mulata Dolores, mas também dedica atenção amorosa para a mãe dela, a Serafina. O segredo da relação dupla sempre foram as palavras e o gingado dentro e fora da gafieira. Malandro altivo, o Cesinha, antes de ser respeitado, era um excelente dançarino e um convicto sedutor. Quando as madamas desciam para testar seus passos lá onde a dança de...

O desejo dos vivos, por José Fontenele

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Com afinco decidi ser santo. Interpelei o padre após a missa sobre qual escada tomar à santidade e ele sorriu da minha meninine. Disse que cometia engano por achar que uma lista de tarefas definia a santificação. Era preciso mais. Era preciso ultrapassar a linha dos homens, esta ainda invisível aos meus treze anos. Quando perguntei o que era isso o padre riu e deitou a mão nos meus cabelos ralos tomando-me inocente com vontades sem solução. Após a missa notava a vila unânime em pesares. Todos saíam silenciosos e mesmo com roupas de domingo não se escutava qualquer elogio. A Margarida me alcançava enquanto eu seguia para casa e me dizia que logo cresceríamos o bastante para nos casarmos; ela fez um coração na praia com os nossos nomes dentro e deixara um traço incompleto no desenho para que eu entrasse e se fixasse por inteiro naquela vontade. Eu respondi que não. Buscava ser santo e por isso não a protegeria na integridade daquele amor. Me interessava outro amor, um sentimento comu...

Rodada (13/ 10/ 15)

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Motes (primeira rodada) Escritor convidado Terêncio Porto fala de seu novo livro, "Animal de Estimação".                 Contos (segunda rodada)     Fotos por Guilherme Preger e José Fontenele  

O mendigo nu - José Fontenele

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O mendigo nu Há dois dias não me tolero. Há dois dias duvido dos meus olhos como quem precisa utilizar um óculos mais nítido para enxergar a realidade. Tudo por causa do mendigo nu. Anteontem, quarta-feira de verão, finquei uma gelada na praia de Ipanema perto do Posto Nove. À frente, a majestade do mar e suas curvas rubras no horizonte antecipavam as linhas esvoaçadas do pôr-do-sol. O visual reanimava minhas esperanças frouxas e entre uma conversa e outra com amigos transitórios, permaneci absorvendo o melhor do instante. Os outros frequentadores eram jovens nas mais variadas atribuições: jogando futebol, pegando uma onda e curtindo a realidade ilusória de um baseado. Os tiozinhos de sunga preta jogando vôlei de praia também estavam perto, entretidos com o esporte e reclamando quando o vento mudava repentinamente de direção e espalhava o cheiro abafado da erva na direção deles. O confronto era inevitável. Mas eis que ele surgiu. Vindo de algum lugar oculto da avenida, um mend...