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Mote do encontro (04/10/ 16)

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Mote lido por Daniel Russell Ribas Um dia toparei comigo O telefone tocou às sete da manhã e eu cambaleava do sono que não dormi. Confesso que fiquei satisfeita: a coordenadora da clínica queria me tranquilizar. A tranquilidade significava meu pai converso em vegetal sobre a cama, oxigênio a mil, dedos a necrosar, tosto de cera adivinhando o próximo habitat. Ora desperto, ora adormecido. Sim, a intermitência das coisas brutas e serenas retornara em grau máximo. Novamente os vivos e os mortos povoavam seu quarto. Ele indicava um ponto na parede e lá residia a escola da infância, onde parentes preparavam seu desenlace. Esta era sua. Desenlace. Mas não era a única palavra a nos vexar. Havia todo um vocabulário misto de invenção e memória, o qual penávamos para decifrar: “hecatombe” não era problema, apenas reflexo de nossa pobreza de linguagem, mas “sorvete de gliche” gerava angústia, pois não havia mais pulmão para nos esclarecer. Aguardávamos entre uma respira...

Mote do encontro (07/ 06/ 16)

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Mote lido por Daniel Russell Ribas Morangos mofados   Terça-feira gorda (trecho) Brilhávamos os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pelos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente. Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha a...

Mote do encontro (10/ 05/ 16)

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Mote lido por Daniel Russell Ribas Muito barulho por nada Quinto Ato Cena 1 LONATO – Eu te peço, chega de conselhos, pois eles caem em meus ouvidos tão inúteis como a água numa peneira. Não me dês conselhos, nem permita que consoladores outros venham me agradar os ouvidos, exceto se for alguém cujos agravos sejam comparáveis aos meus. Arranja-me um pai que amou tanto quanto eu a uma filha, motivo de seu orgulho e sua alegria, agora dominado por dor como esta minha, e pede a ele que me fale de paciência. Que a desgraça dele venha medir o comprimento e a largura da minha, e que se correspondam, o meu cansaço e o dele; que se possa ver um tanto cá e um tanto lá, um pesar tão importante nele quanto em mim, em cada feição, em cada ruga, na forma e no formato. Se esse sujeito sorrir e alisar a barba, despachar a tristeza, com um “Harrã” limpar a garganta em vez de gemer de dor, usar provérbios como curativos para o luto, embebedar o infortúnio com filosofices de ...

A regra - Daniel Russell Ribas

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A regra Ela sempre foi clara e inviolável. Nunca mijar fora do vaso. “Isto é nojento!”, esbravejava. Então, com toda boa vontade, mirava na água. Ainda assim, acidentes ocorriam. E a quantidade não importava. Apenas uma gota era o necessário para a tempestade vir. “Porra! Tenho cara de doméstica? Gosto da casa limpa, tudo arrumado no seu lugar, aí você chega e emporcalha tudo!” A porrada comia, esta parecia ser a regra real. Tudo no seu lugar, bem ajustado: gota fora, cacete adentro.  Anos e a regra, que não era dita, era tão clara quanto aquele xixi depois de beber muita água. Uma noite, cheguei bêbado. Tava puto e tomei todas. Da branquinha, desceu bem e queimando. “Porra, tá fedendo a cachaça!”, escutava na cabeça num contínuo monótono e agudo. Encarei a privada e saquei minha pistola, como um caubói de faroeste italiano. E girei o bicho em alta velocidade. Mijei a porra do banheiro todo. Gargalhei alto, como um cientista louco. Ela chegou à porta, de ...

Mote do encontro (02/ 02/ 16)

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Mote lido por Daniel Russell Ribas Fight Club   Aquele velho ditado, você mata aqueles que ama, bom, olhe, funciona nos dois sentidos. Com uma arma em sua boca e o cano entre os dentes, você só consegue pronunciar vogais. Faltam dez minutos. Outra janela explode do prédio e o vidro voa como uma revoada de pombos brilhantes, e, então, uma mesa de madeira escura é empurrada de lado pelo Comitê de Destruição aos poucos até ceder e deslizar e virar de ponta-cabeça em uma coisa mágica perdida na multidão abaixo. O prédio Parker-Morris não estará aqui em dez minutos. Você pega uma quantidade suficiente de explosivo gelatinoso e a envolve nas colunas de sustentação, e derruba qualquer edifício no mundo. Você gruda forte e aperta com sacos de areia de modo a explosão agir na conta e não no estacionamento e arredores. “Este faça você mesmo” você não encontra em livro de história algum. As três receitas para fazer napalm: Um, você mistura partes iguais de gas...