Postagens

Mostrando postagens com o rótulo outubro 2018

Cinematógrafo e os cortes naturais (uma montagem ultra soviética), por Fernando Andrade

Imagem
É uma experiência tocar os dois seios, e quando os toco vejo que é uma experiência só minha. Que logo mais abaixo existe um buraco que não deve ser ocupado por mãos vazias e nem por músculos, talvez um tímido de óculos que ainda vejo na abertura, uma significação para entrada e saída sem alternância de fatores. E na imagem do cinematógrafo, os cortes naturais, onde uma ocupação que venha junto com uma montagem ultra - soviética. (Ela por baixo)   Assim minha tia me ensinou a manejar os pais. A usá-los a meu bem querer. A ludibriá-los feito o diabo para que não me cancelem numa cancela ou no porão musical, onde toca a rádio FM (feminino | masculino) mais intolerável para uma menina cult. A palavra em si já é um palavrão, um espaço privativo de liberdade e de sexualidade, embora sirva bem à masturbação genital. Me deram um pinto mas não o uso. Me deram uma flor mas não a digo em público. Talvez numa junção de palavras me exercite pintando flores, sem tinta por favor! Pintar d...

O Espeleólogo, por Paula Giannini

Imagem
Quando crescesse queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos. - Agora você já é quase um homem. E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô um lugar provisório, de onde assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra. Coisa para gente muito rica. Coisa para os heróis. E o avô-herói retirava maravilhas do carrinho. Latinhas, anéis, medalhas com fo...

Portas da Cidade, por Camilla Agostini

Imagem
Muitos morros no Rio de Janeiro viraram cidade. Modos de vida rurais emaranhados numa confusão de vielas, escadas, becos, fiações irregulares, uma arquitetura caótica onde um dia antes foi mata. A vegetação nas proximidades serve de refúgio para criminosos e sem-tetos. Há locais em rochedos e ranchos improvisados que servem de abrigos temporários para figuras como Tião Espiga, ilustre desconhecido da história de Copacabana, um catador de papelão da década de 1950. Lembrado por vizinhos, passava os dias com seus trapos a juntar papelão pelas ruas desse bairro badalado da zona sul. Era como aquelas criaturas monocromáticas que vagam silenciosamente pelo cotidiano, no vai e vem das calçadas da cidade. No fim da tarde, se recolhia em um abrigo rochoso, fazia um fogo e aquecia algum alimento; era também ali onde dormia. Conta a lembrança de uma vizinha, que seu pai a ameaçava, dizendo que chamaria Tião Espiga com seu saco para leva-la embora quando fazia muita bagunça. Tião Espiga era ...

A cidade em fuga, por Ana Teresa Jardim (mote)

Imagem
A minha história começa em Ipanema, que você conhece. Mas qual? O bairro boêmio dos anos pós-guerra, o paraíso dos hippies? A Ipanema que te peco para lembrar já tinha visto passar metade dos anos 50. Mas na minha percepção as épocas sempre trazem rastros indeléveis das anteriores. Tal vez eu me sinta assim por sempre ter convivido com pessoas de épocas separadas da minha por lapsos muito grandes de tempo. De modo que a atualidade nunca chegava completamente, ou o pelo menos chegava mais devagar.   Estava sendo criada, naquele momento, a batida jazzística que misturava o samba ao som e à calma das marés, e a bossa nova era tocada em apartamentos térreos nos prédios de três andares em Ipanema. Brisas noturnas sopravam suavemente da praia ali tão perto, onde se podia caminhar descalços o mundo de Julia e Max tinha o chão atapetado, cigarreiras, tafetá em pó compacto. A pequena cobertura na rua Joaquim Nabuco tinha no chão da sala um tapete cor de coral, que neutralizava com s...