Buraco Negro, de Guilherme Preger
Dizem que num buraco negro o tempo não passa. E eu imagino um relógio digital piscando esta mesma hora, este mesmo minuto, este agora: 23h 11’ 11’’. Não adianta se perguntar há quanto tempo estamos nessa pegada, juntos, enganchados, colados e suados. A hora é a mesma de sempre: 23h 11’ 11’’. Qual o calor que faz? Não sei. Chove ou é noite clara? Não sei. A lua é crescente, minguante ou é lua nova? Não sei. Eu sei apenas que a glande de meu pau descansa em algum canto da mucosa de sua vagina. Estamos imobilizados e nem sequer fazemos os movimentos típicos esperados de dois corpos que se encontraram com fome. Nós somos agora um buraco negro. Para além de nossa pele, das membranas que se uniram e que agora se acoplaram numa superfície contínua, há talvez um mundo. Minha memória diz: havia um mundo. Talvez diga: haverá um mundo. Esse mundo é para onde o suor de nossos corpos se esvai. Dizem que os buracos negros engolem toda matéria e toda luz, mas exalam uma fumacinha. Essa fumacinh...