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Partidas: ausências, rupturas, despedidas - Beco de Escritores

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  Recomendação de leitura por Yassu Nogucho Partidas: ausências, rupturas, despedidas O Beco é um grupo formado por escritores com trajetórias literárias diversas, que há mais de três anos se reúne em uma pequena sede na Vila Madalena, em São Paulo, para explorar os caminhos da escrita. As autoras de "Partidas" participaram de uma mesa na OFF Flip de 2014.  

A.M. D.M.- Yassu Noguchi

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A.M. D.M. Grandes merdas Ser O Todo Poderoso (olha eu pecando) e não ter intestino. Muito menos a menor das palavras. Não estou me referindo à palavra fé, mas “aquela outra”, de uma única sílaba também. E de onde sai todo o caos da Humanidade. Que tem olho e tudo, como Deus. Deus tem dois olhos. Apenas dois? Como Ele observa esse merderê todo aqui e ao mesmo tempo, tanta gente que transa e se masturba? Porque eu ouvia, desde menino, quando demorava no banheiro, do outro lado da porta, a mãe dizendo: “- Menino, olha lá o que você anda fazendo aí dentro... Deus tá vendo. Deus vê tudo o que a gente faz aqui embaixo, hein...”. Daí, talvez, a mania de fechar a cortina sempre que vou trepar. O que muitas vezes, no clímax da coisa, levava a parceira a não entender porque saía correndo, do nada. Era só ver a cortina aberta e... Brochava na volta, na maioria das vezes. Perdia, sabe, o timming da coisa. Tá vendo, Deus, que merda crescer com toda essa culpa católica? Se fosse Deusa, escu...

Mais um dia - Yassu Noguchi

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Mais um dia Ao acordar, percebi. Ela já havia passado pela pia: o tubo de pasta de dente apertado na parte da frente, do contrário que faço, seguindo a lógica. Ela já havia passado pelo chuveiro: a calcinha molhada pendurada na torneira, diferente de mim, que coloco as cuecas na máquina. Ela já havia passado pelo closet: uma pilha de roupas espalhadas pelo chão, contrastando com minha coleção de camisetas pretas e blusas sociais brancas, para não ter dúvida. Ela já havia passado pela cozinha: a marca de batom na xícara dentro da pia, e a garrafa da cafeteira cheia, que nada se fazia dela, pois não tomo café. Ela já havia passado pela sala: correspondências fechadas e o jornal fora da ordem, que eu prontamente, ao ver, abria e arrumava, caderno por caderno. Ela já havia passado pela varanda: a areia do gato trocada, o que não amenizava - essa higiene toda que ela fazia questão de manter - meu horror por animais de estimação. Ela já havia passado pela área de serviço: secadora em ...

Tudo o que parece ser é aquilo que não é - Yassu Noguchi

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Tudo o que parece ser é aquilo que não é Não eram os fios brancos que me chamavam a atenção, nem me desagradava o tempo gravado neles. Eu também estava gravado ali, sob o tempo de minhas mãos neles, no caminho percorrido. Eu fazia parte daquele emaranhado de vida. Era, sim, a forma com que, mesmo com o passar de tantos anos, ela passava a mão direita por cima da cabeça para pentear-se, da altura da testa, até o fim do gesto, nas pontas. O que ficou claro para mim nesse momento, não foi perceber a mudança da cor dos cabelos, mas que estive o tempo todo atento a esse movimento. Não eram as marcas no rosto dela diante do espelho que eu via quando ela fazia isso, era seu olhar de cumplicidade e timidez comigo, sempre seguido de um sorriso. A impressão que eu tenho é que ela sempre se surpreendia com minha contemplação. Eu é que me surpreendia que o mesmo gesto ainda me deixasse assim, perplexo, e desconcertado. De amor. Conto escrito para o encontro de 29/04/2014 Ha-fu...