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Mostrando postagens com o rótulo 2016

Do Alto, por Gabriel Cerqueira

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O azul do céu parece um mar invertido que se cansara da Terra e decidiu fugir para o paraíso. Lá e cá ele é pontilhado pelos passarinhos que vem e vão semeando seus cantos por onde passam, bailando e brincando. A paisagem revela o verde das plantas que vai até o horizonte, sendo cortado apenas pelo ocre das estradas de terra, pelo branco das casas e pelas mais diversas cores de flores nos campos e das frutas que caíram maduras no chão. Ana e Miguel caminham por uma dessas estradas. Suas peles são douradas, seus sorrisos são alvos. Peles de Sol, sorrisos de Lua. Eclipses, ambos são noite e dia. A conversa animada dita o passo tranquilo no ritmo da cidade do santo. Eles caminham descalços para sentir a terra úmida e tudo o que ela tem a dizer em seu idioma a nós oculto. Um cachorro late, fingindo-se de feroz, em frente a uma casa antiga e simples com uma cerca de bambu. Miguel se abaixa e sorri, assobia e estala os dedos. O cãozinho se aproxima e lambe uma das mãos do novo am...

Diálogo, por Caio Fernando Abreu

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(mote para o encontro de 06/12/2016) Diálogo A: Você é meu companheiro. B: Hein? A: Você é meu companheiro, eu disse B: O quê? A: Eu disse que você é meu companheiro. B: O que é que você quer dizer com isso? A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso. B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto. A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico. B: Não é disso que estou falando. A: Você está falando do quê, então? B: Estou falando disso que você falou agora. A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro. B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro. A: Você também sente? B: O quê? A: Que você é meu companheiro? B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei. A: Atrás do companheiro? B: È. A: Não. B: Você não sente? A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não? B: Não. Não é isso. Não é assim. A: Você não quer que seja isso assim? B: Não é que eu não...

O triunfo da cor, por Carmen Belmont

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O triunfo da cor, por Carmen Belmont Ele era magro e tinha uma cabeleira ruiva, o que lhe valia mil apelidos na escola. Cabeça de fósforo. Cenourinha. Labareda. Curupira. Diabo-da-tasmânia. Salsicha. Como ninguém jamais levantou o assunto bullying , ficou apenas o registro na memória de algumas brincadeiras bobas de criança, sem maiores traumas. A juba vermelha só chegou a incomodar um pouco porque não podia participar de nenhuma bagunça sem ser pego, pois era sempre o primeiro de quem os inspetores e professores se lembravam. Quem mandou ter uma característica tão facilmente identificável como aquela? Se bem que era calmo – apesar da inquietude interna que o fazia tamborilar em qualquer coisa, de paredes a cadernos – e não costumava se meter em encrencas. Pelo menos não em encrencas desse tipo. A verdade é que ir à escola não lhe interessava muito, a não ser pela possibilidade de zoar com os amigos nos intervalos das aulas. Passava a maior parte do tempo calado e sonolento, ou ...

Fluxo, por Carmen Belmont

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Fluxo, por Carmen Belmont ______ era como se sentia quando se levantava de madrugada sem nem ao menos ter dormido é que ficava insone com tantos pensamentos fervilhando na cabeça tentando colocá-los entre  palavras e traços no papel isso antes de trocar o papel pela telinha do smartphone porque concluiu que era mais fácil para escrever ou desenhar deitado no escuro do quarto desenhava letras e bichos e monstros e árvores e horizontes e personagens e cenas coloridas freneticamente como se não houvesse mais tempo e tivesse que deixar aquilo para que alguém o conhecesse já que no cotidiano ele não tinha rosto era tão invisível e hermético quanto os outros no meio dos demais e estava cansado queria descobrir uma necessidade um sentido uma bebida uma droga uma sensação um lugar uma pessoa qualquer coisa não ligava se isso era o que qualquer um poderia pretender pois tinha certeza de que a sua falta de resposta doía mais e era tão única como ele próprio só que apenas ele sabia q...

Previsível, por Carmen Belmont

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Previsível, por Carmen Belmont Cocoricó. Por incrível que pareça, havia um galo no coração da cidade. Devia ser da loja de aves vivas no pé da ruela que subia o morro. A rouca insistente cantoria começava às quatro da manhã e se estendia até o sol nascer, ah, que vontade de esganar esse galo desgraçado! Mas na impossibilidade de sair de pijama correndo pelas madrugadas, acabou se acostumando ao ruído incômodo. E só se mexia mesmo quando ao som insólito se juntava o do despertador anunciando o dia. Ela não tinha a menor graça. Ou tinha, mas era cuidadosamente abafada por um jeito de ser comum e previsível. Acordava cedo, arrumava-se sobriamente e ia para aquele escritório, igual a tantos outros, desempenhar suas burocráticas tarefas com a maior correção possível. Era polida, reservada e discreta o suficiente para ter conquistado um lugar no gabinete da diretoria. Não faltava. Não se atrasava. Não se metia na vida alheia. Não ria alto. Não. Tão certinha por fora. Mas ela sabia, ...

Mote do encontro (04/10/ 16)

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Mote lido por Daniel Russell Ribas Um dia toparei comigo O telefone tocou às sete da manhã e eu cambaleava do sono que não dormi. Confesso que fiquei satisfeita: a coordenadora da clínica queria me tranquilizar. A tranquilidade significava meu pai converso em vegetal sobre a cama, oxigênio a mil, dedos a necrosar, tosto de cera adivinhando o próximo habitat. Ora desperto, ora adormecido. Sim, a intermitência das coisas brutas e serenas retornara em grau máximo. Novamente os vivos e os mortos povoavam seu quarto. Ele indicava um ponto na parede e lá residia a escola da infância, onde parentes preparavam seu desenlace. Esta era sua. Desenlace. Mas não era a única palavra a nos vexar. Havia todo um vocabulário misto de invenção e memória, o qual penávamos para decifrar: “hecatombe” não era problema, apenas reflexo de nossa pobreza de linguagem, mas “sorvete de gliche” gerava angústia, pois não havia mais pulmão para nos esclarecer. Aguardávamos entre uma respira...