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Mostrando postagens com o rótulo Conto

As coisas da velha, por Cynthia Dornelles

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AS COISAS DA VELHA          Cynthia Dorneles Não podia ver o anúncio de algo “imperdível” que comprava. Fraldas. Roupas. Maquiagens. Eletrodomésticos. Panelas. Instrumentos com finalidades inexplicáveis. Toda espécie de buginganga para cozinhas e jardins- mesmo sem jamais cozinhar nem ter jardins. Cadernos. Diários. Livros. Muitos livros.  Sua fúria consumista começara antes da Internet, mas depois se tornara uma vasta compulsão. Que os amigos reparavam. Ela não.  - Maria você não tem nenhum bebê. Pra quê fraldas? - Posso dar de presente, ora.  Sendo assim, Maria tinha um quarto de sua casa fechado, permanentemente, cheio de badulaques nunca tirados das embalagens. Atulhado até o teto, explodindo de dentro dos armários.  Maria, gastadora voraz, era socialista. Sua juventude tinha sido passada dentro de aparelhos clandestinos dos diversos países por onde passara. Seu pai era cônsul e isso dera o start de sua vida cigana. Mas continua...

Pipariferia, por Felipe Boaventura

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Pipariferia As pipas não nascem prontas. Não nascem no céu ou surgem em mercearias. As pipas não nascem na indústria. Elas vem da mão dos homens, e em especial, as com vida, das mãos dos meninos. Para nascer uma pipa é preciso encontra o bambu “devês”, com sua casca verde a amarelar, e sua flexibilidade para as varetas. Suas medidas são as medidas aprendidas na tradição oral. Dos mais velhos para os mais novos. Das pipas pegas dos telhados alheios e usadas como moldes. Da experiência de tantas feitas “no olho” e que dão para um dos lados. As varetas amarradas com linha velha dão origem as pipas “carrapetas”, as “charutos”, “batatas”, “arraias”. Depois, é preciso empapar uma pouco de arroz para usar como cola entre os papéis de seda nas cores escolhidas, e entre o papel e as linhas amarradas nas varetas de bambu para lhes dar carne. A linha “Corrente” no tamanho de um “deizinho” ou um “deizão” é indispensável, tanto para amarrar um bom cabresto de acordo com o vento do dia, como para s...

Três esquetes para períodos pandêmicos, por Guilherme Preger

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  Três esquetes para períodos de confinamento Personagens: M:Mulher. H:Homem. Local: cidade da América do Sul. Tempo: Futuro distante. Situação: Pandemia misteriosa e letal obrigou os seres humanos de todo o planeta ao confinamento em seus apartamentos e casas por anos. Esquete 1: Contatinhos M: Amor, o que você tanto vê no seu celular? H: Amor, estou escrevendo meus posts filosóficos e políticos. O que mais tenho para fazer? M: Ah, deixa eu olhar... H: Não! Assim, você me desconcentra e eu não consigo escrever. Não tem nada mais útil para fazer? M: Ah, eu já sei. Você está é novamente falando com seus contatinhos, né? Deixa eu ver. Onde estão aquelas biscoiteiras? H: Como assim, biscoiteiras, Amor? Eu não conheço biscoiteiras. Tenho apenas amigos e amigas. M: Mentira! Você fica aí conversando com seus contatinhos que eu sei. E você virou o maior de todos os biscoiteiros! Por que você postou aquela foto sem camisa na rede social, hem, hem? Você pensa que eu ...

Camming, por Guilherme Preger

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  Camming Diga-me o que você está pensando... Bem, essa pandemia está me fazendo repensar algumas coisas na minha vida, mudar alguns valores... Hummm. Conte-me mais sobre isso. Foi um pensamento que tive desde aquele problema com o Guido. Já te falei sobre ele. Meu melhor amigo, mas que me decepcionou por ter me enviado umas fotos meio inapropriadas. A princípio fiquei muito zangada com ele, puta mesmo. Depois conversando com algumas amigas do peito, fiz novamente as pazes com ele. Afinal, nós nos adoramos. Vocês se adoram em que sentido? Bem, é só amizade. Nada demais. Nunca transamos. Quer dizer, nunca nos relacionamos sexualmente. Você sabe que não há relação sexual, segundo a psicanálise. Sim, isso eu estou aprendendo. Você já me explicou. Essa pandemia está sendo uma provação. Ela me pegou solteira. Há mais de um ano que não durmo com ninguém. Tive que comprar uns brinquedinhos. Minhas amigas todas estão se divertindo com brinquedinhos. Às vezes f...

O Jogo, por Guilherme Preger

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  O Jogo [mut4nte]: Entrei agora na sala dos Templários QAnistas. Não sei se conseguirei sobreviver. Me restam poucas vidas. Há muitos Trolls por aqui. Shiv Ⱥ onde vc está agora? Preciso de ajuda para recarregar minhas baterias. Copiado? [shivȺ]: Copiado. Estou na sala brasileira, quarto dos lavajatistas de jesus. Foi invadido agora por milhares de bolsonários. Há uma guerra entre lavajatistas e bolsonários, que antes eram aliados, mas agora estão divergindo. Aproveitei a briga entre eles e matei vários com minha espada laser pau-brasil. Me escondi sob o manto da invisibilidade quilombola. Então eles não me veem. Mas perdi também muitas vidas por causa disso. Minha bateria está na reserva. Não posso compartilhar com Mut4nte. Sugiro tentar a S@k@mutcho. Alô Saka! [s@k@mutcho]: Gentiiii, estou agora enfrentando o Cornudo Loquito! E está tocando Jamiroquai! É muita emoção! Estou usando o movimento de kung-fu virtual que aprendi com o Kill Bill! Apertem ctrl+Altgr+~ para ver o qu...

Sobre a Inexistência de Deus, por Guilherme Preger

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  Sobre a inexistência de Deus Estudei em colégio jesuíta. E lá me ensinaram que Deus existe e está provado. Há várias provas da existência divina. A que eu mais gosto é a de Santo Anselmo. É possível pensar num Ser absolutamente superior. Nada existiria acima desse Ser em qualquer qualidade. Mas há uma contradição nesse pensamento. Pois ao Ser absolutamente superior pensado faltaria ainda uma qualidade para sua perfeição e suprema magnitude. Ele seria apenas pensado e, portanto, inexistente. Para resolver essa contradição é preciso pensar num Ser rigorosamente semelhante a esse Ser superior pensado em todas as suas qualidades e a Ele acrescentar a qualidade da existência. Então teríamos um Ser superior que além de pensado, seria existente. Tal Ser é Deus. Sempre achei a prova de Santo Anselmo impecável, mas ao mesmo tempo, assim como na contradição do Ser superior pensado, acredito que falta à prova algum detalhe que nunca consegui encontrar. Por isso, me dediquei a u...

S.B. no photoshop, por Guilherme Preger

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Estou indignado. Conheço um pouco da vida.  Nasci no Bronx, percorri todas as ruas de Chicago, fotografei a máfia, mas há certas coisas que não podemos admitir. Esta notí­cia abalou Paris, de Montmartre ao Quartier Latin, dos Campos Elí­seos às Tulherias. E pelos motivos errados. Eles e elas não sabem de nada. Eu sei porque estava lá. Fotografei todos os famosos, as mais célebres personagens do século XX, mas nenhum astro se compara ao escritor N.A. Mulherengo, boêmio, talentoso, o que importa que não seja hoje considerado um dos grandes artistas do século passado? Que importa que seu nome não seja verbete de enciclopédia? Que importa que poucos saibam que ele influenciou um famoso cantor de rock com seu grande romance “Walk on the wild side”? N.A era um verdadeiro “Mandarim”, como chamava sua amante S.B., famosa intelectual francesa. Acho que a paixão ”sincera, emotiva” de S. por N. era apenas mais um exemplo do velho, inabalável e inconfesso fascí­nio que os americanos despertam ...

A Caixa, por Guilherme Preger

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  O doutor Adolfo Minguela, médico, formado na Universidade Gama Filho no Rio de Janeiro e doutor pós-graduado em Epidemologia na Freiburg Universität, na Suíça, olhou aquela caixa de caixas. Eram 100 caixas coloridas de verde e amarelo no interior da grande caixa preta. Ele pensou na antiga caixa de Pandora, que na verdade não era caixa, mas um vaso, ou uma ânfora, semelhante a uma vagina. Epitemeu abriu o vaso e de dentro escaparam os eflúvios de Pandora, que desgraçaram a humanidade. Faltou apenas a esperança que permaneceu no vaso. A esperança é aquela que permanece. A mensagem do Ministério era transparente como um comando: as caixas foram fornecidas gratuitamente, pagas por empresas que preferiram se manter no anonimato e deveriam ser distribuídas imediatamente. Os médicos precisavam enviar relatórios semanais do destino da distribuição e de quantos pacientes (na medicina não existem doentes, apenas pacientes) estavam sendo atendidos. No entanto, não havia espaço para rel...

Amiga,,por Guilherme Preger

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Amiga,        sabe o Guido, aquele meu amigão que conhece tudo de física quântica, de matemática e até de literatura? Pois é, acho que ele não está sabendo lidar bem com o isolamento, pois me mandou umas mensagens estranhas. Disse que conheceu uma menina, que enviou umas fotos para ela, mas ela teria “sumido”. Aí ele resolve me mandar também as mesmas fotos para ver o que eu achava, se eu via algum problema maior nelas. Nem me perguntou se eu realmente queria receber as fotos. Era ele de cueca, tudo bem que era tipo boxer, mas mesmo adorando o Guido, não quero ver ele de cueca. É claro que eu amo ele demais, mas somos amigos, ele me ajudou muito no meu TCC, e já nos conhecemos há o quê? Mais de dez anos. Nunca transamos, não existe isso. Eu tive os meus casos, ele teve os dele. Eu sei que todos deram errado, pois ele é bem enrolado. Eu estou achando que ele quer algo comigo, pois está falando de a gente se encontrar, sair um pouco à noite, beber umas...

Gustavo e o Bicho, por Guilherme Preger

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Gustavo e o bicho     Tudo ia bem para o pequeno Gustavo em seu cotidiano humilde até que lhe tiraram a creche, a praça e a praia.      Tudo por causa do bicho, é o que lhe diziam. Há um bicho lá fora, e se você sair ele pode te pegar.      E o mundo do pequeno Gustavo ficou reduzido à sua simples casa, que incluia seu quarto, que dividia com 3 irmãos e uma irmã, todos mais velhos, o quarto dos pais, que havia sido seu primeiro quarto, mas do qual havia sido expulso no ano anterior, sem seu entendimento ou consentimento, o que muito lhe magoou. Mas assim é a vida, e esta expulsão tinha sido sua primeira ou segunda perda como dirão alguns (pois a primeira perda seria a do líquido amniótico da placenta do ventre de sua mãe, e a segunda perda a do bico do seio materno, mas isso é assunto para especialistas e Gustavo ainda não entende isso).  Há também a sala de estar e de jantar, onde há uma grande mesa e a televisão onde passam o...

Esperando Goriot, por Guilherme Preger

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Esperando Goriot - Olá. Quem você está esperando? Goriot. Quem é Goriot?  Goriot é como um Pai para mim.  Ele é seu pai?  Não. Ele é apenas parecido.  Aqui não tem nenhum Goriot. Aqui é uma clínica particular. Você tem algum problema?  Goriot irá me ajudar a vencer o Falso Messias.  Não conheço o Messias. Nem o verdadeiro nem o falso.  É melhor mesmo não conhecer. Por acaso você está com coronavírus?  Não sei o que é isso.  Nunca ouviu falar da Pandemia?  Que Pandemia?  Estranho. Todos conhecem a Pandemia. Por acaso você tem tossido ou sentido febre?  Não sei tossir nem torcer. E nunca senti febre, portanto não sei se estou.  Vou pegar um termômetro. … Aqui está, coloque debaixo do braço, nas axilas, por gentileza.  É gelado! Não faz mal. São três minutos apenas. Você deveria estar usando máscara.  Por que eu usaria máscara se tenho um rosto? Deus nos deu um rosto para não ter que usar máscaras.  Aqui não é ...

Amy aos treze (ou como se cria uma Diva), por Guilherme Preger

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Amy gostava de passear no táxi do Pai cruzando os subúrbios de Londres aos domingos. Ele reservava exclusivamente o táxi para sair com a filha (ele tinha mais um garoto, Alex, dois anos mais velho do que Amy), como programa de fim-de-semana paterno, compensação da sempre mal digerida separação com a mãe dos garotos, quatro anos antes. O passeio de automóvel se mantinha para a então mocinha de treze anos como o último laço da infância além das bonequinhas pinup tipo década de 50 que agora pendiam de suas orelhas. Iam ouvindo Frank Sinatra e Dinah Washington e cantarolando os sucessos de jazz e R&B de que gostavam tanto. Enfim a mocinha já não era mais uma menina e o corpo apresentava as curvas esculpidas pela produção quí­mica incessante da tiróide. O processo era irreversí­vel: a forma mulher desenhava sua presença inquietante no banco do carona. Os seios, em particular, se avolumavam; mas ainda estavam lá, da antiga menina, o longo cabelo negro, os olhos enormes e as felinas sobra...

A Deus, por Ana Claudia Calomeni

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          Vida é teia que se tece. Fio-a-fio. A minha é miúda. De onde venho, mulher é para casar, cuidar dos pequenos, cozinhar e satisfazer marido. Da porteira para dentro é onde ela se desenrola. Esquento comida. Degolo galinha. Passo e lavo roupa. Levo e trago água. Também costuro. Emendo panos e combino tempo e espaço criando vestido novo com trapos de roupas velhas.  Aos domingos esqueço galinha, criança, roupa e marido. O galo canta, adivinhando o dia. Acordo antes de todos. A casa ainda no escuro, a janela do quarto já emoldura um horizonte avermelhado que me lembra um quadro pendurado na sala da casa da Glorinha, na cidade. Foi a única vez que fui visitá-la. Lembro dela chegando em casa nos braços da mãe, o pai feliz, mas triste porque era mais uma menina.  Apago a luz fraca do lampião aceso na noite anterior. Lá fora o dia nasce. Me levanto em silêncio. Abro a porta do armário tão devagar que consigo enganar o ranger das dobradiças e...

O Enantiomorfo, por Guilherme Preger

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  Meu nome é xxx, mas pode me chamar de Nane. Nessa pandemia para aliviar minha solidão de tantas amizades meramente virtuais, criei um amigo enantiomorfo para conversar. Dei-lhe o nome de Enan. Crei um e-mail para ele e uma conta de mídia social. Procurei uma imagem minha para ilustrar seu perfil social. Trabalhei para obscurecê-la num software de desenho, como se ela se tivesse tornado uma imagem de meu próprio raio-x. Fiz obviamente amizade primeiramente comigo mesmo. Enan era parecido comigo em muitas coisas, mas pensava sempre a 180 graus de diferença. Assim, se eu dizia sim, ele vinha com não, ou se eu dizia esquerda, ele insistia com a direita. Se eu achava 1, ele devolvia 0. E vice versa. Jamais tinhamos consenso sobre assunto algum e nossas tretas infindáveis começaram a chamar a atenção de outros amigos meus nas mídias sociais que pensavam como eu e por isso não me eram enantiomorfos. Eles se admiraram de como Enan havia “furado a bolha” e rapidamente lhe pediram...