Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Novembro 2020

As coisas da velha, por Cynthia Dornelles

Imagem
AS COISAS DA VELHA          Cynthia Dorneles Não podia ver o anúncio de algo “imperdível” que comprava. Fraldas. Roupas. Maquiagens. Eletrodomésticos. Panelas. Instrumentos com finalidades inexplicáveis. Toda espécie de buginganga para cozinhas e jardins- mesmo sem jamais cozinhar nem ter jardins. Cadernos. Diários. Livros. Muitos livros.  Sua fúria consumista começara antes da Internet, mas depois se tornara uma vasta compulsão. Que os amigos reparavam. Ela não.  - Maria você não tem nenhum bebê. Pra quê fraldas? - Posso dar de presente, ora.  Sendo assim, Maria tinha um quarto de sua casa fechado, permanentemente, cheio de badulaques nunca tirados das embalagens. Atulhado até o teto, explodindo de dentro dos armários.  Maria, gastadora voraz, era socialista. Sua juventude tinha sido passada dentro de aparelhos clandestinos dos diversos países por onde passara. Seu pai era cônsul e isso dera o start de sua vida cigana. Mas continua...

A Velha e a Santa, por Camilla Agostini

Imagem
Henry havia chegado há pouco mais de uma semana em Santana da Piedade. Andava com a camiseta para fora das calças, imitando o jeito de vestir dos moradores daquele povoado de poucos habitantes, no Noroeste de Minas Gerais. Mas suas pernas compridas muito brancas, cabelos rubros e olhos como faróis denunciavam sua origem estrangeira, mesmo tendo aprendido a andar de chinelos.      Santana da Piedade era conhecida por suas formações rochosas cobertas por jardins naturais de bromélias gigantes e outras espécies raras. Para o processamento das amostras coletadas na região, o botânico reorganizou os móveis dentro do quarto da Pousada Rio Bonito. Levou a mesinha de madeira para próximo da luz natural que vinha da janela, ajudando nas análises com a lupa e as anotações. A luminária ao lado da cama foi posta no chão, permitindo o remanejamento da mesa de cabeceira para ser coberta por um veludo azul marinho, no improviso de um mini estúdio para registros fotográficos. A segu...

A Velha Senhora, por Guilherme Preger

Imagem
  A Velha Senhora olhou os jovens mascarados pela janela de seu apartamento e pensou: “Covardes! Têm medo de morrer! Quem tem medo de morrer não está preparado para viver e sobreviver. Como eu. Eles acham que eu cheguei a noventa e quatro anos como? Com medo de morrer? Se tivesse medo, teria ficado pelo meio do caminho. Não teria tido filho. Não teria aguentado o divórcio. Não teria bancado minhas próprias contas. Não teria comprado este apartamento. Covardes!”. Ela costumava a sair sem máscara para demonstrar seu desdém pelos medrosos. Quem tem medo de morrer acaba por se tornar escravo. Mas ela era uma Senhora. Ela mandava, nunca havia recebido ordens de ninguém, nem do Falecido. Os funcionários da Padaria reclamavam. “A Senhora não pode andar sem máscara, não!”. Queria ver que não a deixassem entrar. Sempre deixavam, pois aqueles servos eram interesseiros. Eram medrosos mas não rasgavam dinheiro. E comprava seus pães e o leite. E pagava com dinheiro. Sempre dava uma tossezinh...

Ver é um Todo, de Henri Cartier-Bresson

Imagem
Cartier-Bresson, Henri. Ver é um todo. Entrevistas e conversas. 1951-1998. São Paulo: Gustavo Gili, 2015, pp. 47-48. Existe Transcendência Entrevista com Sheila Turner-Seed (1973) Você precisa se esquecer de si mesmo. Você precisa ser você mesmo, esquecer-se de si mesmo e mergulhar totalmente no que faz para que a imagem ganhe mais força. [...] Sem pensar. Ideias são muito perigosas. Você precisa pensar o tempo todo, mas quando fotografa você não está tentando apresentar um argumento ou demonstrar alguma coisa. Você não prova nada. Acontece sozinho. A fotografia não é um meio de propaganda, mas uma maneira de gritar o que sentimos. É a mesma diferença entre um folheto publicitário e um romance. O romance precisa passar por todos os canais nervosos, pela imaginação. Ele tem muito mais força do que um prospecto pelo qual passamos os olhos antes de jogar fora. E a poesia é a essência de todas as coisas. Com frequência vejo fotógrafos cultivando a estranheza ou a imperfeição de uma cena pe...