O desejo dos vivos, por José Fontenele
Com afinco decidi ser santo. Interpelei o padre após a missa sobre qual escada tomar à santidade e ele sorriu da minha meninine. Disse que cometia engano por achar que uma lista de tarefas definia a santificação. Era preciso mais. Era preciso ultrapassar a linha dos homens, esta ainda invisível aos meus treze anos. Quando perguntei o que era isso o padre riu e deitou a mão nos meus cabelos ralos tomando-me inocente com vontades sem solução. Após a missa notava a vila unânime em pesares. Todos saíam silenciosos e mesmo com roupas de domingo não se escutava qualquer elogio. A Margarida me alcançava enquanto eu seguia para casa e me dizia que logo cresceríamos o bastante para nos casarmos; ela fez um coração na praia com os nossos nomes dentro e deixara um traço incompleto no desenho para que eu entrasse e se fixasse por inteiro naquela vontade. Eu respondi que não. Buscava ser santo e por isso não a protegeria na integridade daquele amor. Me interessava outro amor, um sentimento comu...