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Mostrando postagens com o rótulo Andréa Rodrigues

A solidão é nua - Andréa Rodrigues

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A solidão é nua Ana queria almoçar fora naquele sábado. Pensou em escrever para algumas amigas, em busca de companhia.  Depois lembrou que Cristina ia sair com o ex-namorado, Joana devia estar de ressaca, e Letícia..., ah Letícia estava muito chata ultimamente. Ana chegou a pensar em desistir. Olhou para a sua estante, bem desarrumada. O armário, precisando de uma boa organizada. Mas o sábado a chamava para a rua. Ana foi. Foi sozinha. Comprou livro, cumprimentou autor que não conhecia, tentou puxar conversa com alguns. Sábado era dia de feijoada. Muita gente na rua do Ouvidor, mas como sentar ali sozinha e pedir uma feijoada? Decididamente, feijoada não era um prato para se comer sozinha. Rumou para um lugar mais tranquilo, pediria uma salada, havia ali perto um restaurante, ia rolar uma roda de choro.  -  São quantas pessoas? - Só eu mesma. Ana tentava se manter firme na sua proposta. Não tinha companhia e queria fazer coisas, viver a cidade...

O rei silenciado - Andréa Rodrigues

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O rei silenciado Alice estava muito chateada de ter de ouvir de alguém que ela só existia no sonho do rei. Ela tinha muito medo da existência mas ao mesmo tempo não queria nem pensar na possibilidade de desaparecer. Não era possível que ela precisasse mesmo viver naquela condição, depender assim de alguém para estar ali. Pensou se haveria um modo de libertar-se disso. Observou em volta e avistou uma trilha, no meio de muitas árvores. Começou a andar por ela, bem devagar. Pisava com muito cuidado naquele chão cheio de galhos, com medo de acordar o rei. Continuou andando e percebeu que a trilha ia ficando mais larga.   Começou a caminhar mais rapidamente e de repente, ao ver que o rei não acordava com seus passos, passou a correr.    No meio do caminho, foram aparecendo algumas casas, com luzes acesas e barulho de vozes vindo do interior. As casas iam ficando cada vez mais frequentes, até que ela encontrou uma praça e concluiu que tinha chegado a uma pequena ci...

Vitrine de salgados - Andréa Rodrigues

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Vitrine de salgados Ele entrou no restaurante que, no passado, tinha frequentado com sua mulher, agora morta. Uma década se passara. O ambiente assaltou-lhe a memória. Sentou e ficou tentando lembrar como estava sua vida dez anos antes. Quanta coisa acontecera. Encontros e desencontros. Mais estes do que aqueles. Caminhos inesperados, mudanças imprevisíveis. Tudo ali parecia estar igual.   Deu um frio na barriga pensar que tudo segue seu curso mesmo quando alguém desaparece de um lugar. Era assim na cidade em que ele morara a vida inteira e que tinha deixado, logo que sua mulher morreu. As poucas vezes em que voltou lá, ele viu as pessoas andando pelas ruas, a cidade se movimentando: a ausência dele não fazia mesmo diferença. Pensou que a morte deveria ser exatamente assim e que voltar a um lugar anos depois era vivenciar de uma certa forma a morte. “Vivenciar a morte”, que frase mais estranha. O garçon já estava ficando aflito porque ele não fazia o pedido. ...

Nicole e o autorretrato - Andréa Rodrigues

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Nicole e o autorretrato Nicole tinha nascido num subúrbio de Paris, há treze anos e alguns meses.   Tinha esse nome assim francês mas era filha de argelinos, imigrantes na França desde que eram adolescentes. Nicole estudava numa escola a duas quadras da sua casa. No caminho, passava por um prédio que tinha uma placa cheia de nomes. Desde que tinha uns 8 anos ela tinha resolvido parar para ler o que havia ali. Era uma lista com o nome de crianças que moravam naquele prédio na época da segunda guerra e que foram levadas dali para os campos de concentração, pelos alemães. Desde que tomou conhecimento disso, Nicole tinha pensado que, tivesse ela nascido muito antes, poderia ter sido vizinha de dezenas de crianças que desapareceriam para sempre um dia.   A distância que havia entre Nicole e as crianças que foram levadas de suas casas era apenas de tempo. Elas moraram na mesma rua que ela. Tinha um escorrega no prédio delas. Talvez Nicole brincasse ali com elas, no alto d...