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O Universo Oculto do São João Baptista

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por Morena Madureira  O universo oculto do São João Batista Ele era daquela profissão que agora quase que não existe mais. Aquela que deram na mão de outro pra fazer, sem pra isso aumentar seu salário. Corte de custos. Corte de custos supérfluos. Ele era trocador de ônibus. Demitido, foi ser coveiro no cemitério São João Batista. Nos primeiros dias não achou nada demais, tinha ficado tanto tempo sem trabalho que só pensava no salário que finalmente ia voltar a ganhar. Contas penduradas, cheque especial no talo, e ter que depender do salário da mulher pra seguir sobrevivendo. Não, daquele jeito não dava não. Além disso, ele não via os mortos mesmo. Nada, já chegavam com o caixão fechado, segurado por parentes chorosos, os homens da família. Primo, filho, amigo do botequim. As mulheres vinham atrás, abraçadas umas às outras, enxugando as lágrimas com seus lenços coloridos. Mas isso foi só no começo, porque depois eles começaram e ficou tudo diferente. Eles, os ...

O banheiro dos meninos

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O banheiro dos meninos, por Morena Madureira Isso aconteceu no ano passado, mas parece que faz um tempão, porque depois que aconteceu foi tanta coisa que não dá nem pra contar com uma mão só. Tem que usar as duas. Na verdade tem que usar os dedos do pé também e nem assim dá pra contar tudo. Tem que pegar uns dedos emprestados. Antes de acontecer eu tava lá, na minha, no começo do quinto ano. Eu era do 5 o B. Aquele da sala no final do corredor, em frente ao banheiro dos meninos. Eu sentava todo dia na cadeira da segunda fileira encostada na parede, de frente pra porta. Atrás do Zeca e na frente do Felipe Silveira. Todo dia eu sentava lá. Como na nossa escola não tem ar condicionado e os ventiladores são umas geringonças velhas e barulhentas, que ficam rangendo a aula toda, a professora deixava sempre a porta aberta, e eu acabei pegando mania de ficar olhando o entra e sai do banheiro dos meninos. Eu ficava olhando mais quando a aula tava chata, o que acontec...

Mote do encontro (24/ 05/ 16)

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Mote lido por Morena Madureira Tanto faz Saímos, eu e o Chico, do fundo da terra para a noite chuvosa do boulevard du Montparnasse. Entramos correndo no café da esquina, encostamos a barriga no balcão. -           Dois demis – comanda Chico – pedindo chopes ao garçon. -           O meu escuro, s’il vous plait – acrescento. O barman não me dá pelota, absorto em seu tédio profissional. Mas acaba trazendo um claro e outro escuro, como pedimos. Afundamos juntos os narizes na espuma. -           Você acha que passou por paquera barata o convite que eu fiz pra Pamella? – começa Chico, paranoico de carteirinha. -           Ué? Por quê? -           Sei lá... essa mulherada aqui da Europa é diferente. Tudo feminista, bi, trissexual, todas com m...

O inusitado encontro de Maria e João - Morena Madureira

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O inusitado encontro de Maria e João Maria era uma mulher problemática. Nasceu com uma disfunção genética que a fazia sentir todas as dores doídas nas pessoas à sua volta, em um raio de 100 metros. Não só dores do corpo, como torcicolo, cefaleia, cãimbra, dor de dente, de barriga, de garganta, de cabeça, de coluna, de ouvido, mas também as dores da alma, como luto, medo, arrependimento, melancolia, desespero, saudade aguda, dor de cotovelo e todas as outras. Por saber de sua condição, Maria evitava passar perto de locais notadamente repletos de pessoas doloridas, como hospitais, farmácias, casas de repouso e cemitérios, e buscava ficar sempre por perto de crianças e suas dores primárias e passageiras. Por isso escolheu ser monitora em uma creche. Mesmo convivendo durante o dia com os pequenos e suas dores toleráveis, como dor de estômago, gripe e joelho ralado, a escolha não a impedia de vir a sentir dores mais complexas no cair da tarde, quando pegava o ônibus lota...