O alfabeto do silêncio, por Leo Almeida
Quando lhes disse que havia descoberto o Manual, trataram-me como louco e impuseram-me grades e medicações. De uma hora para outra, em função de minha declaração firme, resoluta, fui tratado como ensandecido e merecedor do claustro manicomial. Ah, quisera eu ter calado a descoberta e tudo seria tão diferente em minha vida, mas não... com a boca grande dos perdidos e deslumbrados, contei a todos que, fuçando uma velha estante de livros num sebo do Largo de São Francisco, caiu-me em mãos o tal Manual que, na verdade, intitulava-se Gramática da Poesia do Silêncio – Manual prático para principiantes. Primeiro quedei-me estupefato, pois a tal Gramática, uma espécie de Santo Graal da Estética Literária, era tão rara quanto o corno de um unicórnio. Para muitos, tratava-se de mera lenda, conto de fadas. Uma das mais antigas menções ao livro, encontra-se na pequena dupla-quadra do Cancioneiro Geral, atribuída a Garcia de Resende: Se silêncio queres Busca a poesia Não a que alicia A doce língua ...