Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Leo Almeida

O alfabeto do silêncio, por Leo Almeida

Imagem
Quando lhes disse que havia descoberto o Manual, trataram-me como louco e impuseram-me grades e medicações. De uma hora para outra, em função de minha declaração firme, resoluta, fui tratado como ensandecido e merecedor do claustro manicomial. Ah, quisera eu ter calado a descoberta e tudo seria tão diferente em minha vida, mas não... com a boca grande dos perdidos e deslumbrados, contei a todos que, fuçando uma velha estante de livros num sebo do Largo de São Francisco, caiu-me em mãos o tal Manual que, na verdade, intitulava-se Gramática da Poesia do Silêncio – Manual prático para principiantes. Primeiro quedei-me estupefato, pois a tal Gramática, uma espécie de Santo Graal da Estética Literária, era tão rara quanto o corno de um unicórnio. Para muitos, tratava-se de mera lenda, conto de fadas. Uma das mais antigas menções ao livro, encontra-se na pequena dupla-quadra do Cancioneiro Geral, atribuída a Garcia de Resende: Se silêncio queres Busca a poesia Não a que alicia A doce língua ...

O bebê de Maria, por Leo Almeida

Imagem
O bebê de Maria Disseram que era filho dele, do inominável, do coisa ruim. A cidade inteira, assustada, começou a cochichar pelas vielas, gretas escuras, bares. Do dia para a noite, não se teve mais sossego por aquelas bandas: é filho do tinhoso , diziam as beatas na reunião da paróquia, antes da missa, e se benziam assustadas e maldosas. Ao mostrarem qualquer descrença, duvidando da paternidade infernal da criança, algumas pessoas de alma boa e boa crença eram convencidas pelo olhar de ameaça que insistia no vaticínio: esse menino veio das profundas . Estava escrito , diziam. Deve-se à parteira o início de todo esse disse-me-disse. Confidenciando a um grupo de amigas, afirmou que nunca tinha visto nada igual: os olhos, os olhos, eram coisa de outro mundo. Um horror! O corpinho, que se mexia como uma serpente ao sair da mãe, tinha escamas. Sim, eram escamas. Nunca tinha visto algo assim. Nasceu com os olhos de fogo bem abertos e não chorou, pelo contrário, emitiu uma risadinha fina e i...

Corpo tomado, por Leo Almeida

Imagem
  Metástase, doutor? Foi o que me restou dizer, naquela tarde de chuva,   incrédulo, tentando esconder a expressão de pânico que queria irromper na minha cara. Sou um homem que não se mostra, em qualquer situação. Não sou de choro ou lamento, nunca fui de expor meu tutano. Sempre pelo avesso. O que importa, costurado por dentro; por fora, apenas o supérfluo. Consideram-me, por isso, um homem frio, objetivo. E sou. Mas essa notícia, dada assim, sem qualquer preliminar que arrefecesse o golpe, soou em mim como um estrondo incômodo. Guilhotina descendo num pescoço. Como assim, metástase? Repeti, quase me engasgando com a proparoxítona. Nossos últimos exames estavam tão promissores. Ou não estavam? Foi essa a tua avaliação, lembra? O médico, recostado numa cadeira de couro preto, olhou-me, creio que com pena. Virou o monitor na minha direção, para que eu pudesse conferir seu vaticínio. Mostrou-me na tela do computador umas manchas escuras nas imagens da ressonância que fize...

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

Imagem
Quando mamãe morreu, enterramos papai. Em seu luto, definhou por um mês sem sair de casa. Foi sua primeira morte. Foram trinta e três anos de vida em comum, entre o casamento e o noivado. Não nos surpreendeu a sua reação à perda, pois não esperávamos outra atitude de quem, por anos, foi muito distante e frio e agora, depois de testemunhar, impotente, o corpo de minha mãe ser lentamente devorado pelo câncer, percebeu-se só. Mas o que realmente o levou à derrocada foi a descoberta dos tais diários e do caderno vermelho. Cuidadosamente guardados entre as coisas de costura de minha mãe, os livros e cadernos foram encontrados por meu pai quando selecionava objetos para jogar no lixo e para doar. Primeiro, chamou-lhe a atenção a quantidade de textos escritos na letrinha miúda que ele reconheceu ser daquela que, sob sua ótica, despendia todo o seu tempo no cuidado da casa, no trato com a família, na preocupação com a comida, com a roupa passada, com os deveres de casa dos filhos, com a febr...