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Mostrando postagens com o rótulo Marco Antonio Martire

O Filósofo do Samba, de Francisco Bosco

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... Mas e a filosofia? Se o poeta da Vila é esse amigo íntimo da língua, o sujeito engenhoso que se procurava na Galeria Cruzeiro para fazer a segunda parte de um samba, o craque que inventava samba epistolar, marcha absurda e era capaz de transformar em canção até um gago com dor de cotovelo — se é a isso que se refere o apelido de poeta, o que pretendia designar o de filósofo? O filosófico, em Noel, se deixa ler em pelo menos duas dimensões. Uma, mais evidente, é a dimensão ética. É ela que se mostra no samba  Filosofia : “Não me incomodo/ Que você me diga/ Que a sociedade é minha inimiga/ Pois cantando neste mundo/ vivo escravo do meu samba/ Muito embora vagabundo”. Desde a sua origem na Grécia antiga, o filósofo é alguém que se define por uma relação de maior autonomia com a sociedade. Essa autonomia pode se dar tanto por um isolamento ascético, indiferente ao mundano, quanto por uma atuação política direta, interventiva. Nos dois casos o que se tem é um modo mais ativo...

Uísque

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Aquele porteiro praticava um hábito curioso: bebia à noite durante o serviço doses de uísque. Digo curioso porque imagino o seu salário. Sem grana o bastante para criar família ou entreter namorada, ainda assim reduzia as parcas despesas, curtia sacrifícios para saborear à noite doses queridas de uísque. Tomava várias precauções, sabia quando beber. Sempre depois da meia-noite, quando os moradores já deitados sonhavam sobre travesseiros. Sacava a garrafa de um armário esquecido em um canto da portaria, do seu quarto trazia o gelo, esticava-se na cadeira de rodinhas e assistia à televisão. Embriagava-se devagar, protegido pela escuridão da portaria. Uma noite, Milena chegou com vontade de falar, os papos com os amigos não tinham sido suficientes. Parou junto dele, observando seus olhos baços, avaliando o homem que descobriu beber escondido, mas que parecia capaz de conversar. Ela perguntou quanto é que fora o jogo. Ele perguntou quê jogo. — Não sei, sempre tem um jo...

Alfa

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Assumir a relação era para ela um problema. Acreditava em morar livre e só nesta parte do mundo, compartilhando a rotina com um cachorro parceiro e amigo. Morava por aqui longe dos pais e do irmão. Tinha família grande, tios e tias e primos, moravam longe também. Cuidava de um carro novo, usava para trabalhar, só para o trabalho, gostava de ônibus e metrô.      Passeava com o cachorro quando conheceu o Vitor. Conversou com o rapaz primeiro por quinze minutos, na calçada do meio de semana, o tráfego muito intenso, som de tráfego e canto de cigarras. Não resistiu, ele pediu e ela aceitou sua amizade no facebook. Conversaram muito online, à tarde e à noite e pela manhã. Descobriram preferências de um e outro devagar, havia um clima de romance no ar, mas ela foi levando com calma. Havia livros e séries de tevê, havia celulares e tablets, havia os amigos da vida e da internet. Vitor era sem dúvida seu amigo da internet. Os dois brincavam muito pela rede, o cachorro de...

Mote do encontro (29/ 03/ 16)

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Mote lido por Marco Antonio Martire Dicionário da história social do samba Malandragem. Uma das várias acepções da palavra "malandro" (do italiano malandrino ) é a de indivíduo astuto e matreiro. Foi essa apregoada esperteza que plasmou, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, a partir da década de 1920, um dos estereótipos do negro sambista subempregado ou desempregado, situado entre a marginalidade artística e a perspectiva de integração social - malandragem também é sinônimo de vagabundagem, vadiagem, vida marginal. Atitude e rótulo, a "malandragem" romântica, glamourizada, é explícita na obra de compositores e intérpretes como Geraldo Pereira (1918-1955), Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Jorge Veiga, Moreira da Silva, Wilson Batista (1913-1968) etc. Segundo Câmara Cascudo, a origem da figura do malandro estaria nos filhos dos escravos alforriados, os quais, rejeitando o trabalho formal, com horários rígidos e obrigações definidas, p...

Não tem pra ninguém - Marco Antonio Martire

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Não tem pra ninguém Felícia acordou meio indisposta, mas lembrou logo que era dona de uma bela bunda. Uma bunda que ela balança no quarto diante do espelho, que empinada no salto levanta muita piroca, uma bunda que sim pisca e acorda todos os pares de olhos, uma bunda, uma bunda, uma bunda capaz de comandar qualquer trepada. Felícia de costas surpreende os homens e provoca ejaculações, possui uma bunda consciente, que arrepia e induz gozos de tremedeiras, uma bunda que próxima de janelas enlouquece os edifícios, as varandas. Uma bunda que não é simplória, tem mistérios, uma cicatriz pequena, de uma nádega menor do que a outra desde o nascimento, corrigida com uma plástica profissional. Uma bunda então simétrica, que examinada por um comitê olímpico levaria medalhas para casa, para a cama, para o mais luxuoso dos chuveiros, onde se pode afirmar que apara a água, ficam uns pingos ali, formando um laguinho. Uma bela bunda, uma bunda, uma bunda que os motoristas procuram no tráfego...

Alfa - Marco Antonio Martire

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Alfa Assumir a relação era para ela um problema. Acreditava em morar livre e só nesta parte do mundo, compartilhando a rotina com um cachorro parceiro e amigo. Morava por aqui longe dos pais e do irmão. Tinha família grande, tios e tias e primos, moravam longe também. Cuidava de um carro novo, usava para trabalhar, só para o trabalho, gostava de ônibus e metrô.                               Passeava com o cachorro quando conheceu o Vitor. Conversou com o rapaz primeiro por quinze minutos, na calçada do meio de semana, o tráfego muito intenso, som de tráfego e canto de cigarras. Não resistiu, ele pediu e ela aceitou sua amizade no facebook. Conversaram muito online, à tarde e à noite e pela manhã. Descobriram preferências de um e outro devagar, havia um clima de romance no ar, mas ela foi levando com calma. Havia livros e séries de tevê, havia celu...