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Mostrando postagens com o rótulo julho 2020

O Enantiomorfo, por Guilherme Preger

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  Meu nome é xxx, mas pode me chamar de Nane. Nessa pandemia para aliviar minha solidão de tantas amizades meramente virtuais, criei um amigo enantiomorfo para conversar. Dei-lhe o nome de Enan. Crei um e-mail para ele e uma conta de mídia social. Procurei uma imagem minha para ilustrar seu perfil social. Trabalhei para obscurecê-la num software de desenho, como se ela se tivesse tornado uma imagem de meu próprio raio-x. Fiz obviamente amizade primeiramente comigo mesmo. Enan era parecido comigo em muitas coisas, mas pensava sempre a 180 graus de diferença. Assim, se eu dizia sim, ele vinha com não, ou se eu dizia esquerda, ele insistia com a direita. Se eu achava 1, ele devolvia 0. E vice versa. Jamais tinhamos consenso sobre assunto algum e nossas tretas infindáveis começaram a chamar a atenção de outros amigos meus nas mídias sociais que pensavam como eu e por isso não me eram enantiomorfos. Eles se admiraram de como Enan havia “furado a bolha” e rapidamente lhe pediram...

O bebê de Maria, por Leo Almeida

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O bebê de Maria Disseram que era filho dele, do inominável, do coisa ruim. A cidade inteira, assustada, começou a cochichar pelas vielas, gretas escuras, bares. Do dia para a noite, não se teve mais sossego por aquelas bandas: é filho do tinhoso , diziam as beatas na reunião da paróquia, antes da missa, e se benziam assustadas e maldosas. Ao mostrarem qualquer descrença, duvidando da paternidade infernal da criança, algumas pessoas de alma boa e boa crença eram convencidas pelo olhar de ameaça que insistia no vaticínio: esse menino veio das profundas . Estava escrito , diziam. Deve-se à parteira o início de todo esse disse-me-disse. Confidenciando a um grupo de amigas, afirmou que nunca tinha visto nada igual: os olhos, os olhos, eram coisa de outro mundo. Um horror! O corpinho, que se mexia como uma serpente ao sair da mãe, tinha escamas. Sim, eram escamas. Nunca tinha visto algo assim. Nasceu com os olhos de fogo bem abertos e não chorou, pelo contrário, emitiu uma risadinha fina e i...

E se o Diabo falasse...., por Alejandro Jodorowsky

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Sou Lúcifer, portador da luz. Meu dom magnífico à humanidade é a ausência absoluta de moral. Nada me limita. Transgrido todas as leis, queimo as constituições e os livros sagrados. Nenhuma religião pode me conter. Destruo todas as teorias, faço explodir todos os dogmas. “No fundo do fundo do fundo, ninguém mora em lugar mais profundo do que eu. Sou a origem de todos os abismos. Sou aquele que dá vida às grutas escuras, aquele que conhece o centro em torno do qual orbitam todas as densidades. Sou a viscosidade de tudo aquilo que em vão tenta ser formal. A suprema força do magma. A pestilência que denuncia a hipocrisia dos perfumes. A carniça mãe de cada flor. A corrupção dos espíritos vaidosos que se comprazem na perfeição. “Sou a consciência assassina do efêmero perpétuo. Sou eu, encerrado no subterrâneo do mundo, quem faz tremer a catedral estúpida da fé. Sou eu quem, ajoelhado, morde e faz sangrar os pés dos crucificados. Quem apresenta ao mundo, sem pudor, minhas feridas abertas ...