O Enantiomorfo, por Guilherme Preger
Meu nome é xxx, mas pode me chamar de Nane. Nessa pandemia para aliviar minha solidão de tantas amizades meramente virtuais, criei um amigo enantiomorfo para conversar. Dei-lhe o nome de Enan. Crei um e-mail para ele e uma conta de mídia social. Procurei uma imagem minha para ilustrar seu perfil social. Trabalhei para obscurecê-la num software de desenho, como se ela se tivesse tornado uma imagem de meu próprio raio-x. Fiz obviamente amizade primeiramente comigo mesmo. Enan era parecido comigo em muitas coisas, mas pensava sempre a 180 graus de diferença. Assim, se eu dizia sim, ele vinha com não, ou se eu dizia esquerda, ele insistia com a direita. Se eu achava 1, ele devolvia 0. E vice versa. Jamais tinhamos consenso sobre assunto algum e nossas tretas infindáveis começaram a chamar a atenção de outros amigos meus nas mídias sociais que pensavam como eu e por isso não me eram enantiomorfos. Eles se admiraram de como Enan havia “furado a bolha” e rapidamente lhe pediram...