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Crônica da casa esquartejada, por João Bastos de Mattos

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CRÔNICA DA CASA ESQUARTEJADA João Bastos de Mattos, 12/02/2019 Inspirado no conto Casa tomada , de Julio Cortázar Já era um fato previsto, desde que se soube que uma tribo de bárbaros havia cruzado o Reno. Mas foi para nós uma surpresa quando a notícia chegou, dada a rapidez com que tudo ocorreu: nossa Horta havia sido invadida de madrugada por um exército de Suevos. Nada a fazer, disse Flamínio, o mais sensato dos irmãos, quando Cornélia, com o olhar desamparado, veio nos avisar. A Horta já deixara há muito de ser uma horta, mas havia na família a mania de manter as denominações históricas. Ali era o lugar da fantasia, com circos mambembes montados pelos mais velhos, incendiando a imaginação dos pequenos, que sonhavam equilibristas com saltos mortais, homens do come-fogo, feras de terras longínquas obedecendo à voz do domador. Não havia remédio, os Suevos que vinham das margens do Elba tinham escolhido justamente nossa Horta para armar suas tendas, amarrando varais no...

Previsível, por Carmen Belmont

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Previsível, por Carmen Belmont Cocoricó. Por incrível que pareça, havia um galo no coração da cidade. Devia ser da loja de aves vivas no pé da ruela que subia o morro. A rouca insistente cantoria começava às quatro da manhã e se estendia até o sol nascer, ah, que vontade de esganar esse galo desgraçado! Mas na impossibilidade de sair de pijama correndo pelas madrugadas, acabou se acostumando ao ruído incômodo. E só se mexia mesmo quando ao som insólito se juntava o do despertador anunciando o dia. Ela não tinha a menor graça. Ou tinha, mas era cuidadosamente abafada por um jeito de ser comum e previsível. Acordava cedo, arrumava-se sobriamente e ia para aquele escritório, igual a tantos outros, desempenhar suas burocráticas tarefas com a maior correção possível. Era polida, reservada e discreta o suficiente para ter conquistado um lugar no gabinete da diretoria. Não faltava. Não se atrasava. Não se metia na vida alheia. Não ria alto. Não. Tão certinha por fora. Mas ela sabia, ...

O Universo Oculto do São João Baptista

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por Morena Madureira  O universo oculto do São João Batista Ele era daquela profissão que agora quase que não existe mais. Aquela que deram na mão de outro pra fazer, sem pra isso aumentar seu salário. Corte de custos. Corte de custos supérfluos. Ele era trocador de ônibus. Demitido, foi ser coveiro no cemitério São João Batista. Nos primeiros dias não achou nada demais, tinha ficado tanto tempo sem trabalho que só pensava no salário que finalmente ia voltar a ganhar. Contas penduradas, cheque especial no talo, e ter que depender do salário da mulher pra seguir sobrevivendo. Não, daquele jeito não dava não. Além disso, ele não via os mortos mesmo. Nada, já chegavam com o caixão fechado, segurado por parentes chorosos, os homens da família. Primo, filho, amigo do botequim. As mulheres vinham atrás, abraçadas umas às outras, enxugando as lágrimas com seus lenços coloridos. Mas isso foi só no começo, porque depois eles começaram e ficou tudo diferente. Eles, os ...