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Mostrando postagens com o rótulo CD Belmont

Asas de papel, por Carmen Belmont

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Asas de papel, por Carmen Belmont –  Corta. Corta tudo – disse a voz que parecia sair dela, irreconhecível. Enquanto as mechas longas caíam, a imagem da mulher que ela fora se desfazia no espelho, interrogando-a com um misto de indignação e tristeza, mas ela não se deixou intimidar: sustentou o olhar reprovador levantando a curva dos lábios no lado direito da face, quase como se fosse dar um sorriso. Mas não sorriu; ficou observando aquela figura que chegava, como uma onda inesperada, nos cachos rebeldes cujas pontas curtas se multiplicavam desordenadamente sobre a nuca recém-descoberta. – Chega. Assim já está bom. – Mas... ainda não terminei  e – – Terminou sim – disse e se levantou da cadeira onde estivera sentada, penteando, com os dedos, os cabelos ainda úmidos. Parecia um moleque que acabara de escapar da chuva – pensou, algo divertida, sacudindo gotas brilhantes sobre a bancada envidraçada. Pagou e ganhou a rua rapidamente, juntando-se aos passantes d...

A alma encantadora das ruas, João do Rio

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Neste elogio talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que consegue modificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmo que a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda um valor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída na imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todos acotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da rua da Alegria ou da rua da Paz, atravessando as betesgas (viela, rua estreita) do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-se aí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à Vida e ao Mundo. No traçado das cidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com palácios de dor e choupa...

O triunfo da cor, por Carmen Belmont

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O triunfo da cor, por Carmen Belmont Ele era magro e tinha uma cabeleira ruiva, o que lhe valia mil apelidos na escola. Cabeça de fósforo. Cenourinha. Labareda. Curupira. Diabo-da-tasmânia. Salsicha. Como ninguém jamais levantou o assunto bullying , ficou apenas o registro na memória de algumas brincadeiras bobas de criança, sem maiores traumas. A juba vermelha só chegou a incomodar um pouco porque não podia participar de nenhuma bagunça sem ser pego, pois era sempre o primeiro de quem os inspetores e professores se lembravam. Quem mandou ter uma característica tão facilmente identificável como aquela? Se bem que era calmo – apesar da inquietude interna que o fazia tamborilar em qualquer coisa, de paredes a cadernos – e não costumava se meter em encrencas. Pelo menos não em encrencas desse tipo. A verdade é que ir à escola não lhe interessava muito, a não ser pela possibilidade de zoar com os amigos nos intervalos das aulas. Passava a maior parte do tempo calado e sonolento, ou ...

Fluxo, por Carmen Belmont

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Fluxo, por Carmen Belmont ______ era como se sentia quando se levantava de madrugada sem nem ao menos ter dormido é que ficava insone com tantos pensamentos fervilhando na cabeça tentando colocá-los entre  palavras e traços no papel isso antes de trocar o papel pela telinha do smartphone porque concluiu que era mais fácil para escrever ou desenhar deitado no escuro do quarto desenhava letras e bichos e monstros e árvores e horizontes e personagens e cenas coloridas freneticamente como se não houvesse mais tempo e tivesse que deixar aquilo para que alguém o conhecesse já que no cotidiano ele não tinha rosto era tão invisível e hermético quanto os outros no meio dos demais e estava cansado queria descobrir uma necessidade um sentido uma bebida uma droga uma sensação um lugar uma pessoa qualquer coisa não ligava se isso era o que qualquer um poderia pretender pois tinha certeza de que a sua falta de resposta doía mais e era tão única como ele próprio só que apenas ele sabia q...

Previsível, por Carmen Belmont

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Previsível, por Carmen Belmont Cocoricó. Por incrível que pareça, havia um galo no coração da cidade. Devia ser da loja de aves vivas no pé da ruela que subia o morro. A rouca insistente cantoria começava às quatro da manhã e se estendia até o sol nascer, ah, que vontade de esganar esse galo desgraçado! Mas na impossibilidade de sair de pijama correndo pelas madrugadas, acabou se acostumando ao ruído incômodo. E só se mexia mesmo quando ao som insólito se juntava o do despertador anunciando o dia. Ela não tinha a menor graça. Ou tinha, mas era cuidadosamente abafada por um jeito de ser comum e previsível. Acordava cedo, arrumava-se sobriamente e ia para aquele escritório, igual a tantos outros, desempenhar suas burocráticas tarefas com a maior correção possível. Era polida, reservada e discreta o suficiente para ter conquistado um lugar no gabinete da diretoria. Não faltava. Não se atrasava. Não se metia na vida alheia. Não ria alto. Não. Tão certinha por fora. Mas ela sabia, ...

Se Deus quiser, por Carmen Belmont

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Se Deus quiser, por Carmen Belmont “Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio.” Rita Lee, in ‘Baila comigo’. Ele não era um sujeito muito eloquente, mas isso nunca tinha sido um problema perto dos outros tantos na sua vida de menino de periferia. O que lhe faltava em palavras sobrava em resistência: crescera, como todo garoto nessa condição, apesar da pobreza, do descaso e devidamente vacinado contra as adversidades. Mal completara os estudos básicos, porque desde cedo já trabalhava para ganhar uns trocados e ajudar a mãe a alimentar as três bocas que o pai bêbado abandonara ainda pequenos. Mas tinha fé e era calmo e tenaz, de modo que não sofria pelo passado nem reclamava do presente. Quanto ao futuro, tentava fazer a sua parte para que fosse melhor, se Deus quiser. Tinha encontrado Nícia em uma festa junina, uma daquelas em que ele fora mais por insistência dos amigos do que por outra coisa. Tá certo, também aceitara ir porque sabia que poderia ficar em paz vendo o vaiv...