Diários, por Al Berto
BERTO, Al (Out. 2012). Diários. Porto: Assírio & Alvim. Fev. 2013. estou finalmente sozinho comigo mesmo, algures, num ponto desconhecido do Universo. uma voz quase estelar perturba, todo o meu corpo treme. são muitas horas passadas com a casa encostada à vidraça. olhando o mar. olhando até que nem mar, nem coisa nenhuma me vem ao olhar. o mar vem, então, de dentro de mim, e não se parece nada com aquele que vejo. são muitas horas sem minutos. são muitas horas sem ninguém, de deserto em deserto, à espera que a noite desça e esconda tudo com seu soluço de sombras. e me esconda a mim, também, dos meus próprios pensamentos. um escuro tão total que ao passar uma mão pela outra não a sinto. o corpo diluído na própria espessura da noite, enfim para descansar. é no instante fulgurante em que já não tenho corpo, nem sentimentos, nem desejos, que surgem as palavras, ainda sem forma no papel, ainda sem mentiras. ainda se...