O sonho de Luzia, por Guilherme Preger
Imagino Luzia fugindo de algum sapiens macho, violento, estuprador. Ela está há dias numa caminhada de fuga solitária, extenuante. Ela abandona a Zona da Mata, onde o bote de algum animal ou o abraço forçado do macho (os machos são inimigos) é sempre iminente. Ela alcança a região do sertão, de suas veredas e rios, da mata rasteira do cerrado, onde pode ver de longe a aproximação do inimigo. Ela deve ter pensado: viver é muito perigoso . É quase noite, mas ainda há luminosidade. Ela procura um rio onde possa beber água e limpar suas feridas. Há em seu corpo frágil rasgos da vegetação espinhosa, cortes de pedras afiadas, cicatrizes das lutas pela sobrevivência. Ela vê o regato do rio colorido pelo sangue de suas veias e de sua menstruação. A noite é deslumbrantemente estrelada no céu límpido do planalto americano. Ela ouve o cicio das folhas e o zumbido dos insetos. Ela ouve um choro de criança, mas que deve vir de sua própria imaginação. Então ela deita e dorme. Não há tempo pa...