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A Triesfera, de Guilherme Preger

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Quando recebi o bip do novum informando que a Tirania havia sido eleita, pensei: é preciso fugir. Mas não havia para onde.             Logo depois do novum , recebi dois outros bips em sequência. Eram do contato afetivo. Eles vieram na cor vermelha, de urgência.             As mensagens estavam escritas em nosso código de enlace. Tive que usar o decriptador secreto. Ele estava escondido num arquivo opaco de meu dispositivo virtual.             A primeira mensagem, em código hexadecimal (1578ACB745), quando traduzida dizia: “Eureka”. A segunda dizia apenas um código numérico, que não entendi.             Em seguida, mais um bip, que dizia: “SOS”. E então achei que deveria visitá-lo imediatamente.           ...

A MENSAGEM, por Guilherme Preger

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Parece que estou preso nessa gaiola que é uma caixa. Digo que parece, pois me disseram que estou livre e posso ir para onde quiser. E na verdade há passagens. Mas quando as atravesso é como se saísse de uma caixa e entrasse em outra. Há sempre paredes que são anteparos e há nesses anteparos belas projeções que observo com contento. Creio que são os programadores que fazem as projeções. Essas projeções também são chamadas de diagramas. Há janelas, muitas, que são como furos ou brechas. E as paisagens após as janelas são também bonitas e luminescentes. E há pequenos orifícios onde estão inseridos dispositivos. Nesses dispositivos chegam mensagens para mim. As mensagens me divertem. Também posso escrever mensagens com os dispositivos. Eles possuem interfaces apropriadas para a escrita. Disseram que posso escrever qualquer coisa nas mensagens e que há uma chance das mensagens serem recebidas por alguém (essas mensagens que recebo dos programadores chamam-se protocolos). ...

O conto da Aia, por Margaret Atwood

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Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas. Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco. Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como um forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo. Estou em desgraça, o que é o oposto da graça. Deveria me sentir pior quanto a isso. Mas sinto-me serena, em paz, impregnada de indiferença. Não deixe que os bastardos esmaguem você. Repito isso para mim mesma, mas não me transmite nada. Seria a mesma coisa que você dizer: Que não haja ar; ou: Não seja. Suponho que você poderia dizer isso. Não há ninguém no jardim.             Gostaria de saber se vai chover. Lá fo...

Cinematógrafo e os cortes naturais (uma montagem ultra soviética), por Fernando Andrade

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É uma experiência tocar os dois seios, e quando os toco vejo que é uma experiência só minha. Que logo mais abaixo existe um buraco que não deve ser ocupado por mãos vazias e nem por músculos, talvez um tímido de óculos que ainda vejo na abertura, uma significação para entrada e saída sem alternância de fatores. E na imagem do cinematógrafo, os cortes naturais, onde uma ocupação que venha junto com uma montagem ultra - soviética. (Ela por baixo)   Assim minha tia me ensinou a manejar os pais. A usá-los a meu bem querer. A ludibriá-los feito o diabo para que não me cancelem numa cancela ou no porão musical, onde toca a rádio FM (feminino | masculino) mais intolerável para uma menina cult. A palavra em si já é um palavrão, um espaço privativo de liberdade e de sexualidade, embora sirva bem à masturbação genital. Me deram um pinto mas não o uso. Me deram uma flor mas não a digo em público. Talvez numa junção de palavras me exercite pintando flores, sem tinta por favor! Pintar d...

MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO -- PRÓLOGO, de Flávio Tavares

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Primeiras visões Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, do mais profundo de ti, sim, mas vêm daquele meu ego morto que só contigo renasceu. Pouco me ri e muito mais sofri neste tempo todo. São 30 anos que esperei para escrever e contar. Lutei com a necessidade de dizer e a absoluta impossibilidade de escrever. A cada dia, adiei o que iria escrever ontem. A ideia vinha à memória, mas, logo, logo, se esvaía naquele cansaço imenso que me fazia deixar tudo para amanhã e jamais recomeçar. Tornei-me um esquizofrênico da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. Tendo tudo para contar, sempre quis esquecer. Por que lembrar o major torturador, os interrogatórios dias e noites adentro? Por que trazer de volta aquele sabor metálico do choque elétrico na gengiva, que me ficou na boca meses a fio? Por que lembrar a prisão em Brasília ou no Rio de Janeiro ou nos quartéi...

O Espeleólogo, por Paula Giannini

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Quando crescesse queria ser espeleólogo, como o avô, um rapaz de apenas 38 anos. Jovem demais para ser avô. Velho demais para ser considerado um jovem. Sempre suado, visivelmente exausto, mas disposto a contar seu dia ao neto, com um estudado sorriso e pormenores dignos da mais emocionante aventura. Assim havia sido a sua jornada de trabalho, escavara em busca de tesouros e embrenhara-se em obscuras cavernas. Sempre iluminando os buracos com a inseparável lanterninha de cabeça, igual à que dera ao menino quando este completara dez anos. - Agora você já é quase um homem. E descansava sua carrocinha de espeleologista na porta da pequena casa. Para o avô um lugar provisório, de onde assim que a vida permitisse, tiraria sua família. Para o garoto, um castelo, com seu portal adornado com imagens aladas e figuras de longas orelhas esculpidas em pedra. Coisa para gente muito rica. Coisa para os heróis. E o avô-herói retirava maravilhas do carrinho. Latinhas, anéis, medalhas com fo...

Juiz de Fora, por Guilherme Preger

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13:00. Faltam 13 minutos para eu sair deste quarto de pensão. A minha Missão estará cumprida se eu sair exatamente às 13:13. Esses maçons imbecis acham que o PT roubou o número 13 deles. Eles não sabem que esses petistas são estúpidos. Os petistas acreditam nos juízes e no judiciário. Eu acredito no Senhor e em minhas mãos guiadas por Ele. A faca do Senhor está amolada na fé luminosa.   Dizem as Escrituras que eram 12 os apóstolos mais um: Satã, que vivia sempre junto a Judas. Então Judas trouxe o 13º apóstolo. Mas há também quem diga que o 13º apóstolo era Jesus. E Satã é quem guiava Jesus e seus 12 apóstolos. A Maçonaria é satânica. Todos sabem disso. Os estúpidos petistas acham que as elites brasileiras têm raiva deles por causa do bem que eles fizeram aos pobres. Mentira. As elites têm raiva dos petistas porque eles roubaram o número 13. A guerra que existe no Brasil é cósmica. Não tem nada a ver com esses néscios seguidores do José Dirceu. É uma guerra de mun...