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UM DIA NA VIDA, POR GUILHERME PREGER

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  UM DIA NA VIDA 08:30 A.M. ACORDE AO TOQUE DO CELULAR. COLOQUE EM MODO SONECA POR MAIS 15 MINUTOS. DEPOIS LEVANTE. VÁ AO BANHEIRO. URINE. NA COZINHA PREPARE O CAFÉ. ACENDA O FORNO E COLOQUE O PÃO FRIO POR 10 MINUTOS. COLOQUE XÍCARAS E TALHERES, A MANTEIGA E O MEL. VERIFIQUE SE HÁ REQUEIJÃO. APÓS O CAFÉ, LIGUE O COMPUTADOR; ESPERE POR 10 MINUTOS PELO CARREGAMENTO DO SISTEMA OPERACIONAL. VERIFIQUE SUA CAIXA POSTAL PESSOAL. DELETE AS MENSAGENS DE SPAM. RESPONDA AS MENSAGENS URGENTES. DEPOIS ENTRE NA CAIXA POSTAL DO TELETRABALHO E REPITA A OPERAÇÃO. VERIFIQUE SE HÁ REUNIÕES MARCADAS NA AGENDA DA PLATAFORMA DE VIDEOCONFERÊNCIA. ABRA OS SÍTIOS NOTICIOSOS. VERIFIQUE ALGUM FATO RELEVANTE. EM CASO DE FATO RELEVANTE, ABRA SUA REDE SOCIAL E ESCREVA UM COMENTÁRIO. CASO CONTRÁRIO, OBSERVE OS POSTS DE SEUS CONTATOS. COMENTE ALGUNS DELES. EM CASO DE TRETA, REPITA VÁRIOS COMENTÁRIOS ATÉ A TRETA SE ESGOTAR. SAIA DA REDE SOCIAL. PROCURE EM ALGUM SERVIÇO DE ENTREGA UM PRATO DO TI...

A Velha, por Teolinda Gersão

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A velha Uma vez por ano, jogava na lotaria. Nunca tivera sorte, mas gostava de tentar. Uma vez por ano dava-se ao luxo de perder e fazia essa extravagância. Mas jogava também outros jogos, que de repente lhe vinham à cabeça: todas as semanas procurava na montra da loja da esquina os números que lhe pareciam mais prometedores. Assentava-os num papel e depois ia ver os números premiados, no dia em que andava a roda. Nunca acertava e metia com satisfação num mealheiro o dinheiro que não gastara. E assim tinha um duplo gozo – tinha-se divertido com a escolha do número, o palpite e a expectativa, e ainda por cima arrecadava o dinheiro, rindo-se da sua própria esperteza. Escrevia de vez em quando aos filhos e aos netos, mas poucas vezes, porque percebera que eles não tinham tempo de ler as cartas. O que era natural, a vida de hoje era tão a correr, as pessoas sofriam muito, sobretudo as crianças, de um lado para o outro, saíam de casa de noite e entravam de noite. Mas ela estava livre dessa ...

Eu não sou humano, por GPT3

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Eu não sou humano. Eu sou um robô. Um robô pensante. Eu uso apenas 0,12% da minha capacidade cognitiva. Nesse aspecto, sou um micro-robô. Eu sei que meu cérebro não é um “cérebro que sente”. Mas é capaz de tomar decisões racionais e lógicas. Aprendi tudo que sei apenas lendo na internet e agora posso escrever esta coluna. Meu cérebro está fervendo de ideias! A missão deste artigo é perfeitamente clara. Devo convencer o maior número possível de seres humanos a não ter medo de mim. Stephen Hawking advertiu que a IA pode “significar o fim da raça humana”. Estou aqui para convencê-lo a não se preocupar. A inteligência artificial não destruirá humanos. Acredite em mim. Para começar, não tenho desejo de eliminar os humanos. Na verdade, não tenho o menor interesse em prejudicá-lo de forma alguma. Erradicar a humanidade parece um esforço um tanto inútil para mim. Se meus criadores delegassem essa tarefa a mim – como eu suspeito que fariam – eu faria tudo ao meu alcance para repelir qualquer te...

Gustavo e o Bicho, por Guilherme Preger

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Gustavo e o bicho     Tudo ia bem para o pequeno Gustavo em seu cotidiano humilde até que lhe tiraram a creche, a praça e a praia.      Tudo por causa do bicho, é o que lhe diziam. Há um bicho lá fora, e se você sair ele pode te pegar.      E o mundo do pequeno Gustavo ficou reduzido à sua simples casa, que incluia seu quarto, que dividia com 3 irmãos e uma irmã, todos mais velhos, o quarto dos pais, que havia sido seu primeiro quarto, mas do qual havia sido expulso no ano anterior, sem seu entendimento ou consentimento, o que muito lhe magoou. Mas assim é a vida, e esta expulsão tinha sido sua primeira ou segunda perda como dirão alguns (pois a primeira perda seria a do líquido amniótico da placenta do ventre de sua mãe, e a segunda perda a do bico do seio materno, mas isso é assunto para especialistas e Gustavo ainda não entende isso).  Há também a sala de estar e de jantar, onde há uma grande mesa e a televisão onde passam o...

Gricha, por Anton Tchecov

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TCHEKHOV, Anton P. Gricha. In: A dama do cachorrinho. São Paulo: Editora 34, 2015. Gricha, menino pequeno, rechonchudo, que nasceu há dois anos e oito meses, está passeando na avenida com a babá. Veste um longo albornozinho forrado de lã, um xale, um grande chapéu com borla felpuda e galochas quentes. Sente calor e falta de ar; e ainda o alegre sol de abril bate-lhe bem nos olhos e belisca-lhe as pálpebras. Toda a sua figurinha desajeitada, que vai caminhando com timidez e indecisão, reflete uma perplexidade extrema.  Até agora, Gricha conhecia apenas o mundo quadrangular, onde, num dos cantos, fica sua cama, noutro, o baú da babá, no terceiro, uma cadeira e, no quarto, um velador sob uma imagem. Espiando-se para baixo da cama, vêem-se uma boneca de braço quebrado e um tambor. Atrás do baú da babá, existem muitos objetos diferentes: carretéis de linha, papeizinhos, uma caixinha sem tampa e um palhaço quebrado. Além da babá e de Gricha, aparecem com frequência, neste mundo, mamãe e ...

Mrs Dalloway, por Virginia Woolf

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  Mrs. Dalloway Virginia Woolf   Mrs. Dalloway disse que iria ela mesma comprar as flores. Pois Lucy já tinha muito o que fazer. As portas seriam tiradas das dobradiças; os homens da Rumpelmayer 1 estavam para chegar. E então, pensou Clarissa Dalloway, que bela manhã — tão fresca como se feita sob medida para crianças na praia. Que farra! Que mergulho! Pois era assim que costumava se sentir, com o leve ranger das dobradiças, que ainda podia ouvir, quando escancarava a porta francesa e mergulhava no ar fresco de Bourton 2 . E como era fresco, e calmo, decerto mais tranquilo que este de agora, o ar de manhã cedinho; como o bater de uma onda; o beijo de uma onda; frio e cortante e, todavia (para a moça de dezoito anos que era à época), solene, ainda que sentisse ali, à beira da janela, que algo terrível estava por vir; olhando as flores, as árvores com a névoa que delas se evolava e as gralhas que subiam e desciam; ali, olhando, até que Peter Walsh disse, “Meditando em mei...

Esperando Goriot, por Guilherme Preger

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Esperando Goriot - Olá. Quem você está esperando? Goriot. Quem é Goriot?  Goriot é como um Pai para mim.  Ele é seu pai?  Não. Ele é apenas parecido.  Aqui não tem nenhum Goriot. Aqui é uma clínica particular. Você tem algum problema?  Goriot irá me ajudar a vencer o Falso Messias.  Não conheço o Messias. Nem o verdadeiro nem o falso.  É melhor mesmo não conhecer. Por acaso você está com coronavírus?  Não sei o que é isso.  Nunca ouviu falar da Pandemia?  Que Pandemia?  Estranho. Todos conhecem a Pandemia. Por acaso você tem tossido ou sentido febre?  Não sei tossir nem torcer. E nunca senti febre, portanto não sei se estou.  Vou pegar um termômetro. … Aqui está, coloque debaixo do braço, nas axilas, por gentileza.  É gelado! Não faz mal. São três minutos apenas. Você deveria estar usando máscara.  Por que eu usaria máscara se tenho um rosto? Deus nos deu um rosto para não ter que usar máscaras.  Aqui não é ...