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Prólogo, por Susan Sontag

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É a entrada do mercado de pulgas. Não se paga ingresso. É grátis. Gente mal ajambrada. Vulpinos, brincalhões. Por que entrar? O que você espera ver? Estou vendo. Estou constatando o que há no mundo. O que sobrou.   O que foi descartado. O que não se quer mais. O que deve ser   sacrificado. O que alguém pensou que poderia interessar a outro alguém. Mas é lixo. Se existe algo aqui ou ali, já foi peneirado. Mas lá pode haver algo valioso. Não exatamente valioso. Mas algo que eu poderia querer. Querer resgatar. Algo que me fale. Que fale aos meus anseios.Que fale com alguém, fale de algo. Ah.... Por que entrar? Será que você tem todo esse tempo livre? Você vai olhar. Vai passear. Vai perder a noção do tempo. Acha que tem bastante tempo. Sempre leva mais tempo do que você pensa. Daí você vai se atrasar. Ficará aborrecida com você mesma. Quererá ficar. Sentirá tentação. Sentirá aversão. As coisas são encardidas. Algumas quebradas. Mal remendadas ou sem remendo nenhum. Elas me fa...

Distancia de resgate, por Samanta Schweblin

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Ele ligou,   com urgência, para o veterinário, alguns vizinhos vieram, todos preocupados correndo daqui para lá, eu voltei desesperadamente para casa, peguei David ,que ainda dormia no berço, e me tranquei no quarto, na cama, com ele nos   braços ,para rezar. Rezei como uma   louca, rezei como se eu nunca tivesse rezado na minha vida. Você pensará porque eu não corri para a emergencia   em vez de me trancar na sala, mas às vezes não há tempo para confirmar o desastre. O que for que o cavalo tivesse bebido , meu David também o pegara, e se o cavalo estivesse morrendo, não havia chance para ele. Eu sabia com toda a clareza, porque já tinha ouvido e visto muitas coisas nesta cidade, eu tinha algumas horas, talvez minutos, para encontrar uma solução que não fosse esperar meia hora por um médico rural que nem chegaria   a tempo. Eu precisava de alguém para salvar a vida do meu filho, a qualquer custo Eu espio novamente Nina, que agora dá alguns passos em direçã...

A Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik

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A Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik. Ilustrações de Santiago Caruso. Editora Tordesilhas, 2011  (Mote lido por Maíra Fernandes para o encontro de 12/11/2019) 

O silêncio, por Amílcar Bettega

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Por uma espécie de abulia inata, ele foi renegando a palavra. Entregava-a aos outros em generosas porções de silêncio, nas quais eles, os outros, serviam-se com avidez e um instinto de se sobrevivência que, para ele, estava próximo do comportamento dos animais. Secretamente regozijava-se ao vê-los, os outros, embrutecidos e rasteiros, tão distantes do destino nobre que desde o início já sentia desenhado para ele. Mas não desconfiava que o regozijo, o qual – num esforço sincero para anular qualquer sentimento de superioridade - ele repudiava, podia ser uma forma de defesa e que na base de tudo estava a sua incapacidade para exercer a palavra, para se fazer ouvir. Ou melhor, para expressar o que queria que fosse ouvido. Não, não era uma incapacidade, ele pensou, já tarde demais. Mas mesmo que já fosse tarde ele continuou a pensar e convenceu-se de que uma sucessão de ausências concorrera para produzir aquele caráter particular que agora lhe pesava tanto. Ausência de coragem, de v...

Dresden, por Camilla Agostini

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Conheci um sujeito das bandas de lá. Ele contava que quando criança esperavam os tios virem visitar. Era quando traziam presentes da Alemanha Ocidental. Ficara radiante, já adolescente, com a chegada do jeans em uma dessas visitas. Aos dezenove anos tentou fugir, atravessando a fronteira pela floresta. Como muitos alemães, guardava memórias antigas do tempo da guerra, mesmo aquelas herdadas ou as ouvidas quando esteve preso, por ousar ter outra escolha àquela que lhe oferecia o seu país. Contava que a primeira coisa que os russos faziam no tempo da guerra, ao invadirem uma cidade, era retirar o sino da igreja. Disse isso como se fosse evidente, acompanhado de um silêncio imperativo. O tempo, regulado pelas badaladas, não estaria mais nas mãos de Deus, era esse o recado? Contava também que os casais, quando os homens partiam para a guerra na Rússia, lavavam os pés um do outro, em um ritual de despedida e de afeto, pois não sabiam quando, ou mesmo se, iriam se reencontrar. Conheci t...

Matadouro 5, por Kurt Vonnegut

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Tudo isso aconteceu, mais ou menos. As partes da guerra, pelo menos, são bem verdadeiras. Um cara que eu conhecia realmente foi morto em Dresden por pegar uma chaleira que não lhe pertencia. Outro cara que eu conhecia realmente ameaçou contratar assassinos profissionais para matar seus inimigos pessoais depois da guerra. E assim por diante. Eu mudei todos os nomes. Eu realmente voltei a Dresden com dinheiro da fundação Guggenheim (que Deus a tenha) em 1967. A cidade parecia com Dayton, em Ohio, mas com mais espaços abertos do que Dayton. Deve haver toneladas de farinha de ossos humanos enterradas no solo. Voltei lá com um velho companheiro de armas, Bernard V. O'Hare. Fizemos amizade com um motorista de táxi que nos levou ao matadouro onde havíamos ficado presos durante a noite como prisioneiros de guerra. O nome dele era Gerhard Müller. Ele nos contou que foi prisioneiro dos americanos por um tempo. Nós lhe perguntamos como era viver no comunismo, e ele disse que foi terrív...

Um sinal no espaço (As Cosmicômicas), por Italo Calvino

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Situado na zona externa da Via Láctea, o Sol leva cerca de duzentos anos para realizar uma revolução completa da Galáxia. Exatamente, este é o tempo que leva, nada menos, disse Qfwfq ; eu uma vez passando fiz um sinal no espaço, de propósito, para poder vir reencontrá-lo duzentos milhões de anos depois, quando viéssemos a passar por ali na volta seguinte. Um sinal como? É difícil dizer porque quando lhes digo sinal pensarão imediatamente em alguma coisa que se distinga de outra coisa, e ali não havia nada que pudesse se distinguir-se de nada; pensarão logo num sinal marcado com um utensílio qualquer ou mesmo com as mãos; em seguida, que os utensílios e as mãos se vão mas que o sinal permanece; mas naquele tempo ainda não havia utensílios, nem mesmo as mãos, ou dentes, ou narizes, tudo isso que veio em seguida, mas muito tempo depois. Quanto à forma que se dá ao sinal, acharão não ser problema porque, seja qual for a forma que tenha, basta que um sinal sirva de sinal, quer dizer, ...