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Natureza Morta, por José Fontenele

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Mesmo que as sagradas escrituras esclareçam o contrário, a mulher nasceu foi no subterrâneo. Certo ponto chateou-se. Deixou para trás as fissuras do Hades e decidiu subir de mansinho à superfície. A ganância pelo horizonte fez com que a feminina encontrasse um rapaz adormecido em um jardim frutífero e animais nada peçonhentos. Experiente na arte da sobrevivência, a mulher localizou rapidamente os sexos e as formas entre eles e resolveu permanecer como cobaia no jardim primaveril dando-se por desconhecida dos fatos; como se nascesse naquele instante sem memória de suas impurezas ou desmazelas. O momento era favorável à nova moradora: Adão procurava alguém que representasse a função dele de ser mais inepto entre os habitantes do jardim; e deus não queria perder discípulos, afinal se eliminasse a criatura recém-chegada abortaria pelo menos metade de seus atuais e futuros fiéis. Ela sorriu de forma indiferente, fez-se tonta e desajeitada, e recebeu o nome de Eva. Nós, os outros, em desl...

Viagem sentimental ao Japão , por Paula Bajer Fernandes

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Entrei em um avião duas vezes. Na primeira, não olhei para fora da janela. Perdi a oportunidade de ver as nuvens de perto. Na segunda, foi diferente. Fui. Fui e voltei. Viajar é um movimento que ainda não consigo fazer espontaneamente. Meu corpo não gosta de ficar longe de casa. Só que me sinto atraída pelo movimento imaginário de mudar. Para outro continente, por exemplo. Outro continente de mim. Deslocamentos do espírito. Ou deslocamentos mentais.   Enfrentei. Parti. Não queria tanta distância. As coisas não acontecem como a gente espera. Tudo começou quando me senti estrangeira em minha própria casa. Eu não pertencia. Sempre foi assim. Nunca pertenci. E me fechei nos estudos, no computador, nos games, nas leituras, nos relatos de viagens. Minhas leituras me transportaram. Viagem ao centro da terra. Volta ao mundo em 80 dias. Viagens de Gulliver. Encontrei as viagens de Gulliver. O livro me inspirou. Fiquei com vontade de ir para lugares imaginários. De co...

Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, de Gloria Anzaldúa

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21 de maio de 1980 Queridas mulheres de cor, companheiras no escrever Sento-me aqui, nua ao sol, máquina de escrever sobre as pernas, procurando imaginá-las. Mulher negra, junto a uma escrivaninha no quinto andar de algum prédio em Nova Iorque. Sentada em uma varanda, no sul do Texas, uma chicana abana os mosquitos e o ar quente, tentando reacender as chamas latentes da escrita. Mulher índia, caminhando para a escola ou trabalho, lamentando a falta de tempo para tecer a escrita em sua vida. Asiático-americana, lésbica, mãe solteira, arrastada em todas as direções por crianças, amante ou ex-marido, e a escrita. Não é fácil escrever esta carta. Começou como um poema, um longo poema. Tentei transformá-la em um ensaio, mas o resultado ficou áspero, frio. Ainda não desaprendi as tolices esotéricas e pseudo-intelectualizadas que a lavagem cerebral da escola forçou em minha escrita. Como começar novamente? Como alcançar a intimidade e imediatez que quero? De que forma? Uma carta, claro...

A Nova Cosmogonia, de Stanislaw Lem

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Acheropoulos se serve do seguinte modelo explicativo: quando em um nutriente de ágar assentamos colônias de bactérias, logo no início é possível ver a diferença entre um ágar de partida (o 'natural') e aquelas colônias. Porém, no decorrer do tempo, os processos vitais das bactérias alteram o meio ambiente do ágar, introduzindo nele algumas substâncias e absorvendo outras, e assim a composição dos nutrientes, a sua acidez, a sua consistência, sofre alterações. E quando, em consequência dessas alterações, o ágar - presenteado com os novos quimismos - provocar o surgimento de novas espécies de bactérias, alteradas e não parecidas com as gerações genitoras, tais novas espécies serão resultado de um 'jogo bioquímico' que transcorria ao mesmo tempo entre todas as colônias e a base de nutrientes. Essas espécies tardias de bactérias não teriam surgido se as espécies anteriores não tivessem transformado o meio ambiente; portanto, as tardias são resultado do próprio jogo. As colô...

Nenhum Olhar, José Luís Peixoto

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Na última noite do verão, como fazia sempre nas últimas noites de cada estação desde os dezoito anos, José foi à casa da prostituta cega. Prostituta, foi uma palavra que um viajante por ali deixou e que as pessoas que moravam na vila aproveita ram para baptizar a prostituta cega. Era uma palavra estranha e difícil, que se enrolava na boca, que os habitantes da vila só utilizavam quando se referiam à prostituta cega, mas era uma palavra muito adequada, porque não era a palavra puta. A prostituta cega não era puta, era uma mulher, triste por ser cega, que fazia favores por não poder fazer mais nada. A mãe dela tinha sido igual a ela, a avó dela tinha sido igual a ela, mas dizia-se que a bisavó tinha sido uma baronesa caprichosa que abandonara a filha entre umas balsas. Abandonara-a por ser menina. E ao vê-la, ainda suja do seu sangue; ao vê-la, desgostosa por não ser o menino que imaginara e a quem fornecera um enxoval completo comprado em Lisboa; ao vê-la, pela primeira vez, disse ...

Matilde, por João Mattos

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Agradecendo a Wanderson Alves pela cessão de uma de suas inspiradoras fotos A casa parece chorar, manchas esverdeadas nos muros, rachaduras nas paredes, um cheiro de mofo por toda a parte. A empregada nova – a cada mês tem uma, impossível guardar o nome de ajudantes tão efêmeras – me conduz até o quarto. Sentada na cadeira de rodas, Matilde cantarola uma canção de sua terra: "Debaixo da oliveira / Não se pode namorar / A folha é miudinha / Deixa passar o luar". Quando me vê – sem me reconhecer absolutamente – pergunta se vou levá-la de volta a Miranda do Douro, onde seus pais a esperam, já não quer ficar presa no castelo da princesa. Olho ao redor, os aposentos da princesa – a princesa que Matilde foi um dia, uma lembrança que se apagou na bruma de sua memória: a romântica cama, com o dossel já meio rasgado e pilastras torneadas que já conheceram dias melhores, as cortinas de seda tisnadas pela maresia, as arandelas de cristal trincadas. Há quase cinco década...

Tragam suas próprias bombas, por Guilherme Preger

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Havia escolhido o bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, porque era um dos poucos onde ainda restavam muitas lan houses . Para o trabalho de LIS, lan house era fundamental. Gostava de uma que se chamava PIRATAS INSANOS, na Av Cesário de Melo. Diziam que a PIRATAS INSANOS pertencia à milícia, o que era um ponto a favor. Se a PF tentasse rastrear o acesso, iriam ter que enfrentar as milícias da região que dominavam todas as lojas de internet, assim como toda a rede de fibra óptica local. Além do mais, LIS gostava de se sentir “dentro da barriga do monstro”, no interior da fortaleza do inimigo, traficando informação. Tráfico, aliás, era uma palavra proibida naquele lugar. Milicianos costumavam “apagar” os traficantes locais bem como os usuários de qualquer droga, com exceção de cachaça, cerveja e rivotril.   Foi direto em sua máquina preferida, em que havia colocado um adesivo do System of Down , e que sabia que era a mais potente, com melhor processador. Colocou seus fones d...