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Doutor Faustus: Autoexílio nos Trópicos, por Marcos Pedrosa de Souza

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Foi no mesmo bar em que se conheceram, que os dois vieram a se reencontrar. Doutor Faustus, o mefistófeles do submundo do Rio de Janeiro, e Demétrio, o Lacan da Lapa. Não se viam há um bom tempo e se lançaram aos braços um do outro com toda efusividade em uma daquelas confraternizações de velhos e saudosos amigos. A última vez que se encontraram foi ainda durante o período de vivência intensa de suas respectivas juventudes. Era à época em que Faustus, ainda um estrangeiro na cidade, buscava sua aproximação com as figuras mais prosaicas da vida carioca. E entre estas, estava Demétrio, alguém com quem teve imediata e plena identificação. Apesar da pompa do título de doutor, Faustus era, como Demétrio, um charlatão barato, um vigarista de alta estirpe, um pilantra formado nas piores escolas da canalhice. Também tinha realizado seu curso por correspondência como o Lacan da Lapa, nosso psicanalista especializado no atendimento aos frequentadores do baixo meretrício. Só que em lugar de Vi...

Na presença da ausência, por Mahmoud Darwich

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No exílio escolhes um espaço para domesticar o hábito, um espaço privado para o teu diário. E escreves: O lugar não é uma armadilha. Podemos dizer: Aqui temos uma rua lateral, uma estação dos correios, uma padaria, uma lavandaria, uma tabacaria, uma esquina, e um cheiro que me faz lembrar... As cidades são cheiros: Acre cheira a iodo e especiarias. Haifa, a pinho e lençóis engelhados. Moscovo, a vodca e gelo. Cairo, a maga e gengibre. Beirute, a sol, mar, fumo e limões. Damasco, a jasmim e frutos secos. Tunes, a almíscar e sal. Rabat, a hena, incenso e mel. Uma cidade sem cheiro não tem lugar na memória. Os exílios partilham um cheiro: o cheiro da melancolia do que se foi; um cheiro que lembra outro. Um cheiro ávido e nostálgico que te guia, como um mapa turístico já gasto, ao cheiro do lugar primeiro. O cheiro é uma memória e um pôr-so-sol. Aqui, o pôr-do-sol é a reprimenda da beleza ao forasteiro. Mas, contrariamente do que dizem, amar o pôr-do-sol não é um dos atributos do...

Corpo tomado, por Leo Almeida

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  Metástase, doutor? Foi o que me restou dizer, naquela tarde de chuva,   incrédulo, tentando esconder a expressão de pânico que queria irromper na minha cara. Sou um homem que não se mostra, em qualquer situação. Não sou de choro ou lamento, nunca fui de expor meu tutano. Sempre pelo avesso. O que importa, costurado por dentro; por fora, apenas o supérfluo. Consideram-me, por isso, um homem frio, objetivo. E sou. Mas essa notícia, dada assim, sem qualquer preliminar que arrefecesse o golpe, soou em mim como um estrondo incômodo. Guilhotina descendo num pescoço. Como assim, metástase? Repeti, quase me engasgando com a proparoxítona. Nossos últimos exames estavam tão promissores. Ou não estavam? Foi essa a tua avaliação, lembra? O médico, recostado numa cadeira de couro preto, olhou-me, creio que com pena. Virou o monitor na minha direção, para que eu pudesse conferir seu vaticínio. Mostrou-me na tela do computador umas manchas escuras nas imagens da ressonância que fize...

Crônica da casa esquartejada, por João Bastos de Mattos

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CRÔNICA DA CASA ESQUARTEJADA João Bastos de Mattos, 12/02/2019 Inspirado no conto Casa tomada , de Julio Cortázar Já era um fato previsto, desde que se soube que uma tribo de bárbaros havia cruzado o Reno. Mas foi para nós uma surpresa quando a notícia chegou, dada a rapidez com que tudo ocorreu: nossa Horta havia sido invadida de madrugada por um exército de Suevos. Nada a fazer, disse Flamínio, o mais sensato dos irmãos, quando Cornélia, com o olhar desamparado, veio nos avisar. A Horta já deixara há muito de ser uma horta, mas havia na família a mania de manter as denominações históricas. Ali era o lugar da fantasia, com circos mambembes montados pelos mais velhos, incendiando a imaginação dos pequenos, que sonhavam equilibristas com saltos mortais, homens do come-fogo, feras de terras longínquas obedecendo à voz do domador. Não havia remédio, os Suevos que vinham das margens do Elba tinham escolhido justamente nossa Horta para armar suas tendas, amarrando varais no...

João Russo, por Vivian Pizzinga

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João Russo era um dos pacientes que mais gostávamos na clínica, embora sua assiduidade ao tratamento sempre tivesse sido aquém em relação àquilo que os supervisores consideravam terapeuticamente indicado, no caso dele. Russo tinha cerca de cinquenta anos. Ou um pouco mais. Um olho cego, um sorriso grátis, uma fala suave, muita vontade de gentileza, excesso de tristeza encarcerada. Quando conversava conosco, confesso: era difícil de entender, parecia que sua língua estava pela metade, danificada. Ou mesmo perambulando, troncha, pelo cerne da boca, e dando encontrões desavisados com o palato e talvez os dentes, que guardaram entre eles, algum dia, uma faca que nunca cravou o coração de ninguém. Russo já teve ódio. Já teve luta. Já teve, principalmente, muito, muito medo. Isso tudo era fácil de enxergar. Dentro dele, no entanto, o que o habitava agora era a loucura, forma possível de esquecimento, escolha de certo abandono de si e do mundo. Já isso era difícil de aceitar. João Russo n...

A Casa Tomada, por Julio Cortázar

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Lembro-me bem da divisão da casa. A sala de jantar, uma peça com gobelinos, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá frente para Rodríguez Peña. Só um corredor, com sua maciça porta de carvalho, separava essa parte da ala dianteira, onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos de dormir e o living central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um saguão com azulejos de majólica, e a porta-persiana dava para o living . De maneira que se entrava pelo saguão, abria-se a porta-persiana e já se chegava ao living ; tinha-se, dos lados, as portas dos nossos quartos e, à frente, o corredor que levava à parte mais afastada; seguindo pelo corredor, chegava-se à porta de carvalho e mais adiante se iniciava o outro lado da casa, ou então se podia virar à esquerda, justamente antes da porta, e seguir por um corredor mais estreito, que levava à cozinha e ao banheiro. [...] Recordarei sempre, com nitidez, porque f...

A Triesfera, de Guilherme Preger

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Quando recebi o bip do novum informando que a Tirania havia sido eleita, pensei: é preciso fugir. Mas não havia para onde.             Logo depois do novum , recebi dois outros bips em sequência. Eram do contato afetivo. Eles vieram na cor vermelha, de urgência.             As mensagens estavam escritas em nosso código de enlace. Tive que usar o decriptador secreto. Ele estava escondido num arquivo opaco de meu dispositivo virtual.             A primeira mensagem, em código hexadecimal (1578ACB745), quando traduzida dizia: “Eureka”. A segunda dizia apenas um código numérico, que não entendi.             Em seguida, mais um bip, que dizia: “SOS”. E então achei que deveria visitá-lo imediatamente.           ...