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Os exorcismos, por João do rio (Mote)

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Há sempre de um lado os espíritos bons, os anjos que se demonstram pela teurgia¹, e os espíritos maus, as larvas e os demônios, isto é, de um lado as teofanias², de outro as fúrias. Ultimamente, porém, casos incríveis, lendas antiquíssimas deram para reaparecer. Os agentes do Diabo, as sereias, os faunos, os gigantes, os tritões surgem de novo. O João Catraieiro, ali do Cais dos Mineiros, já viu passeando na água uma dama de vermelho com homens de barbas verdes que riam e assobiavam... Por que havemos de banir fatos? Eu, e dou-lhe como testemunha o dr. Rafael Pinheiro e outras pessoas conhecidas, já tive uma doente que frei Piazza pôs boa. A mulher delirava, tinha ataques formidáveis, eu tratava-a segundo Charcot. Uma vez ela disse: eu tenho o Diabo no corpo. Pois vá ao Castelo! Foi e ficou boa. Era um médico que me dizia o assombro. Nesse mesmo dia subi ao Castelo. Pelas pedras do morro iam homens carregando baldes d'água; mulherios estendiam roupas na relva; embaixo, a cida...

Ecos da noite, por Vagalume (Mote)

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"Aí chegamos às 3 horas e 45 minutos e vimos junto à baiana do mingau, que fica ao lado do escritório do Jardim Botânico, um grupo que discutia calorosamente sobre o policiamento da cidade, que felizmente melhora dia a dia a olhos vistos. neste grupo tornavam-se salientes uma rapariga nova, vestida de preto, que tem o hábito bom ou mal de passear de madrugada, terminando o seu passeio no Boqueirão, não para tomar banhos de mar; um português ajanotado, vulgarmente conhecido por Maduro, que é  habitué  de mingau, onde discute com quem naquele ponto faz paragem, e uma adorável rapariga, que dá sorte em toda parte, na rua da Assembleia, onde reside, nos Democráticos, quando há bailes e em todos os pontos de boêmia. O Chagas, guarda-livros barato, durante a madrugada de hoje esteve mesmo a pedir uma camisola de força, pintou o sete e o diabo a quatro e por um triz a guarda civil fê-lo puxar a rica marcha para o xadrex mais próximo. Achamos que o Chagas há muito devia estar...

Viradinho a paulista nas ilhas do canal, de João Mattos

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VIRADINHO A PAULISTA NAS ILHAS DO CANAL Pra começo de conversa, ler mais um pouco sobre a vida de Victor Hugo. Depois de temperar estes bifinhos e adiantar a salada, procuro na enciclopédia. Imagino sua mulher, Adèle Foucher, dando instruções à nova cozinheira. Como preparar bem o coq au vin - o velho Hugo devia ser muito exigente. Coq au vin ou boeuf bourguignon? Coq au vin é mais apropriado para um marido narcisista como ele, a imagem de um galo velho cai bem para aquele sátiro sempre em busca de novas aventuras de alcova. Sim, filho, quiser é com S. Todas as formas do verbo querer são com S. E não enrola muito nesse dever, o ônibus pra escola não espera. Talvez ela se atrapalhasse um pouco no trato das filhas, Léopoldine pensando em frisar os cabelos, Adèle querendo um vestido de mousseline . Que confusão, a mãe se chama Adèle, a filha é Adèle também, como é que uma escritora pode lidar com isso? A diarista vem amanhã, vou ver se aproveito este solzinho fraco para secar os ...

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

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Quando mamãe morreu, enterramos papai. Em seu luto, definhou por um mês sem sair de casa. Foi sua primeira morte. Foram trinta e três anos de vida em comum, entre o casamento e o noivado. Não nos surpreendeu a sua reação à perda, pois não esperávamos outra atitude de quem, por anos, foi muito distante e frio e agora, depois de testemunhar, impotente, o corpo de minha mãe ser lentamente devorado pelo câncer, percebeu-se só. Mas o que realmente o levou à derrocada foi a descoberta dos tais diários e do caderno vermelho. Cuidadosamente guardados entre as coisas de costura de minha mãe, os livros e cadernos foram encontrados por meu pai quando selecionava objetos para jogar no lixo e para doar. Primeiro, chamou-lhe a atenção a quantidade de textos escritos na letrinha miúda que ele reconheceu ser daquela que, sob sua ótica, despendia todo o seu tempo no cuidado da casa, no trato com a família, na preocupação com a comida, com a roupa passada, com os deveres de casa dos filhos, com a febr...

A Paixão segundo H.H., por Guilherme Preger

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A PAIXÃO SEGUNDO H.H. Papi foi aquele que me ensinou a comer. A comer os homens, a devorá-los. Da ponta do dedo mindinho à corcova da glande. Com a minha boca grande e dentada. Com a minha boca de pelos. Hoje eu sei escrever. E que se fodam aqueles que pedem reverências ao dicionário. A minha escrita úmida é gloriosa. Com minha boca dentada eu devoro homens. Com meu pau-estilete eu sangro as páginas com as lacerações de minha escrita. Eu digo que as páginas são minhas meninas virgens. Eu digo que gosto de borrá-las como um homem maduro borra o ventre de uma menina virgem com a graxa de sua porra. A tinta na página é uma porra. Negra. Nessa porra eu me lambuzo e não tomo banho. Todo dia quando acordo só saio do quarto se já tiver escrito ao menos duas laudas. E eu faço. E saio lacerada porque a escrita para mim só a ferro quente. Então eu saio do quarto para a luz da Casa do Sol. A luz entra oblíqua por seus janelões coloniais. Então eu me visto de coquete antiga. Daqu...

Sobre as mulheres de escritores por Charles Kiefer.

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Para escrever, preciso isolar-me, recolher-me, concentrar-me somente no que estou escrevendo. Ou faço assim, ou a inspiração não vem. Aliás, sempre que ela me visita, encontra-me trabalhando. Tenho as aulas, as viagens, as palestras, as feiras de livros. E não adianta. Até consigo escrever um conto ou outro em fins de semana, mas para escrever novelas e romances eu preciso de tempo ocioso, preciso não fazer nada, vagabundear, alterar os horários de dormir e levantar, almoçar e jantar. Preciso, enfim, do que chamo de caos criativo. Mas os conhecidos e os desconhecidos são implacáveis, querem leituras, orelhas, apresentações. Felizmente, a Marta, minha esposa, nos últimos tempos, tem assumido o papel de cão de guarda. Sem a sua proteção, eu não conseguiria escrever nada. Isso me fez pensar no esquecido papel das mulheres de escritores. Sem elas, muitas obras clássicas da literatura mundial não teriam sido escritas. Sem Mafalda, Erico Verissimo, certamente, teria produzido uma bi...

Xica Delícia, de Bruno Flores

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Xica Delícia O povo de Manacapuru jamais se esqueceria do dia em que Francisca da Silva, a Xica Delícia, seria eleita vereadora. O sucedido daria o que falar nos periódicos regionais, atraindo visitantes de povoados vizinhos, ansiosos por conhecer a rapariga vereadora. Mas os falatórios de momento resistiriam ao passar das vazantes e ganhariam espaço na memória coletiva. Anos depois, não haveria quem passasse pela praça principal de Manacapuru e não fosse tomado por uma insólita curiosidade pelo busto de mármore que ali reinava: uma índia sexagenária, de cabelos esvoaçantes e decote expondo sua volumosa natureza. Xica Delícia, a rainha do Solimões. Chegara sozinha em Manacapuru, aos catorze anos, após sua tribo Ianomâmi ser devastada por grileiros no Médio Rio Negro. Vagava pelo cais do porto entre bares e camelôs, e logo ficou conhecida por sua inigualável ternura. Alugava na época um quartinho na pensão da dona Inês, que fazia vista grossa para o vaivém de estivadores ...