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Carolina, por César Manzolillo

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Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. Esse mundo tá um caos. Além do mais, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atriz, acho que você não sabia, né? Claro que não sabia. A gente mal se conhece. Bem, tô começando mas você acredita que meu primeiro trabalho profissional foi numa peça de Nelson Rodrigues? A temporada acabou domingo passado. Bonitinha mas ordinária . Não, eu não era a protagonista. Era uma das irmãs da Ritinha. A Vera Fischer fez no cinema. A Ritinha, eu quero dizer, ela fez a Ritinha. Acho ele um gênio. Foda mesmo. Manda muito bem. Minha família toda foi assistir. Até meu pai. Ficou meio chateado porque eu apareci de peito de fora. Mentalidade atrasada, meu Deus. Aquela cena tava completamente dentro do contexto. Por mim ele nem teria ido. Já sabi...

Cultura: uma visão antropológica, de Sidney W. Mintz

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Talvez nenhum dos escritos de Boas tenha revelado de maneira mais marcante o seu ponto de vista como a carta que escreveu a um parente durante a sua primeira visita aos esquimós, ao iniciar a sua carreira de antropólogo. Era dezembro de 1883. Boas, seu criado Wilhelm e o esquimó que os acompanhava, de nome “Sigma”, tinham viajado sob condições altamente adversas para o extremo noroeste do Estreito de Cumberland. Caminhando por 36 horas, na maior parte desse tempo perdidos, vagando pelo gelo a 45ºC negativos,suas provações só tiveram fim quando foram convidados a entrar em um iglu esquimó, onde puderam se aquecer, comer e dormir. “Não é realmente um belo costume”, observou Boas, “que estes ‘selvagens’ sofram todo tipo de privações em comum, mas nos momentos de alegria, quando alguém traz um butim da caçada, eles se juntem para comer e beber? Eu muitas vezes me pergunto quais as vantagens que a nossa ‘boa sociedade’ possui sobre a desses ‘selvagens’. Quanto mais observo seus costumes, m...

Beije-me antes de partir, por Gabriel Cerqueira

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Em um bar barato em Lincoln Park, Chicago, numa noite chuvosa de quarta-feira. A conversa foi interrompida pela chegada de um homem sorridente e olhar gentil. Era Johnnie, um produtor musical que havia ganhado certa fama por causa de algumas boas apostas em cantores de rua. Nos conhecemos ainda na universidade. Não éramos próximos, transamos algumas vezes, mas pela boca dos outros ele conheceu até meu passado pelas noites de Detroit. At Detroit they don’t have any mercy. They just want your pussy. Na última vez em que nos vimos ele disse que arranjaria algum modo de ganhar dinheiro e voltaria para me buscar. Não acreditei em nenhuma palavra dele. Só que Johnnie voltou, o motivo ninguém sabe. Bebo um gole de cerveja e dou um trago no cigarro. Motivos à parte, Johnnie está em cima de mim na minha cama. Como as intenções sobre meu corpo sempre são de segunda nunca neguei uma boa foda. Ele começou por cima, beijando meu pescoço e seios, demorou-se nos mamilos rijos, me lambeu at...

A benção do malandro, de José Fontenele

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A bênção do malandro Quem nota o seu Cesinha desacompanhado na mesa da diretoria da Estudantina pode pensar que ele é apenas um homem idoso utilizando o privilégio de sua idade. Supor isso denuncia que a pessoa ou é novata naquela gafieira ou não conhece as malevolências amorosas do malandro. Chapéu Panamá de abas curtas, paletó sempre branco e engomado, camisa de algodão de listras branco-pretas do glorioso Botafogo, calças brancas de leve brim e sapato social como a luz da lua, seu Cesinha não risca o salão por impedimento de suas mulheres. Elas têm medo de ganhar outra concorrente. Digo mulheres porque o malandro é casado de forma civil com a mulata Dolores, mas também dedica atenção amorosa para a mãe dela, a Serafina. O segredo da relação dupla sempre foram as palavras e o gingado dentro e fora da gafieira. Malandro altivo, o Cesinha, antes de ser respeitado, era um excelente dançarino e um convicto sedutor. Quando as madamas desciam para testar seus passos lá onde a dança de...

Amor a quem?, de Bertold Brecht

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Dizia-se da atriz Z. que ela tinha se suicidado devido a um amor infeliz. O sr. Keuner disse: “Ela se suicidou por amor a si mesma. De todo modo, ela não pode ter amado X. Senão ela não lhe teria feito isso. Amor é o desejo de dar algo, não de receber. Amor é a arte de produzir algo com as capacidades do outro. Isto requer atenção e afeição do outro. Isto sempre se pode obter. O desejo exagerado de ser amado tem pouco a ver com amor genuíno. O amor a si tem sempre algo suicida” Conto vencedor lido por Walter Macedo para o encontro de 03/10/2017 Retirado de Histórias do Sr. Keuner, Editora 34

A peleja do Seu Sete contra o General, de Luiz Antonio Simas

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A peleja do Seu Sete contra o General | Conheço poucos fuzuês brasileiros que se comparem ao que acontecia na década de 1970, em Santíssimo, pertinho de Bangu. Em um galpão transformado em terreiro de umbanda, a médium Cacilda de Assis recebia Seu Sete da Lira, um exu fuzarqueiro e sedutor. Os pontos eram tocados em ritmo de samba, ao som de tambores, pandeiros, chocalhos, cavaquinho e acordeão. Seu Sete, ao lado de 5 mil médiuns e de multidão de clientes, aparecia em grande estilo, de cartola, capa, colete, garrafa de marafo na mão e o escambau. Dava passes, cuspia cachaça em todo mundo e atendia o povão, artistas e autoridades. O sucesso foi tanto que Seu Sete baixou, ao vivo, nos programas do Chacrinha, na TV Globo, e de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. O jornal O Estado de São Paulo (03/09/1971) noticiou o babado da seguinte maneira: "A disputada mãe de santo Dona Cacilda de Assis transformou os estúdios da Globo e da Tupi em verdadeiros terreiros de macumba. Embora as apre...

O Terraço, de Guilherme Preger

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No meu emprego, aumentaram as horas de trabalho desde a última crise. A explicação que os patrões deram é que, como caiu o preço dos produtos, tornou-se necessário produzir mais para compensar a queda de receita. O resultado é que estamos trabalhando pelo menos duas horas a mais diariamente. Se vendemos mais, aumentam as comissões. O problema é que estamos em crise e as vendas caíram, e mesmo produzindo mais, os consumidores estão comprando menos. Parece contraditório, mas os patrões disseram que todo o excedente de produção está sendo guardado em armazéns confiáveis. Assim, quando as vendas voltarem a aumentar, poderemos trabalhar menos e compensar o tempo trabalhado a mais. Não entendemos muito bem essa história de compensação, mas aceitamos assim mesmo. Todos nós precisamos de trabalho. É melhor do que mendigar nas ruas. Todo dia acordo muito cedo para chegar ao trabalho no horário certo para não ser descontado. Todos os trabalhadores têm uma tolerância de 15 minutos para pas...