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Pelo Menos - Poliana Paiva

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Pelo Menos Nem passar dos trinta a gente pode mais. Outro dia, na sala de espera da depilação, uma menina me perguntou se eu estava encarando bem a menopausa. Tudo bem a pessoa ser novinha, gatinha, cheirando a leite. Tenho sobrinhas, afilhadas, sei como é. Mas daí a achar que uma mulher de trinta e cinco anos está na menopausa é um pouco demais. Minha vontade foi dar-lhe uma resposta atravessada mas fiz a fina, dei um sorriso amarelo-margarina e voltei pra minha “Caras”. Mais precisamente, pra reportagem sobre o vazamento de fotos íntimas de alguma celebridade. Nessas horas fico feliz de não ter emplacado como atriz, porque, do jeito que já perdi vários aparelhos, se eu tivesse feito qualquer ponta em “Malhação”, meus bucelfies estariam por aí, espalhados em todas as redes. Esse tipo de coisa com certeza me deixaria arrasada e poderia ser capaz até de tolhir meu exibicionismo, pra tristeza de todos os meus paus amigos. O sorriso amarelo-margarina de superioridade tinha um mot...

Mafalda - Tiago Velasco

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Mafalda O ar-condicionado zune hipnótico. Na cama, o corpo inerte sob o lençol é perturbado. Quatro patas felpudas caminham, elegantes, sobre as costas dele. Passarela de pele, tecido adiposo, ossos. Ele se vira de lado. A gata cai sobre o colchão. As pupilas se dilatam, o rabo balança, vagaroso. Arma o bote. Novamente sobre ele, equilibra-se na superfície estreita da lateral do corpo semidesperto. Ele hesita em abrir os olhos: a vitória de Mafalda. O jogo físico e psicológico pende para a felina. Com a pata, a bichana, canhota, mostra as unhas e puxa o cabelo dele. Gestos curtos e repetidos. Ele precisa de concentração. Sabe que está fadado a perder. A gata sente na ponta do bigode que falta pouco. Um golpe de misericórdia. Ao pé do ouvido: miaaaaau! Miaaaaaaaaau! Ele suspira. As pálpebras se abrem. A visão míope desfoca Mafalda. Miaaaau! Game over. Seis e catorze da manhã. Conto escrito para o encontro de 13/ 10/ 2015 Tiago Velasco nasceu em 1980 no R...

As vozes Transitórias - Fernando Andrade

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As vozes Transitórias                          Quando subia para o sótão para deixar algum item destituído de uso, ao entrar pela porta de quase um metro de altura, onde tinha que se abaixar muito para passar para entrar lá dentro. Mas não era apenas um verbo de permanência. Talvez fosse mais um verbo de imanência. De ser menor, redução de tamanho, pois o teto era rebaixado à pouco mais de 2 metros. Aquele lugar tinha uma horizontalidade que poucos sótãos haveriam de ter. Conhecidos por serem “aconchegantes”. Sim, ela sabia que ao passar pelo umbral da porta, a percepção do espaço era alterada, pois não havia como o sótão “caber” dentro do espaço da casa que continha o depósito. O olhar dela se horizontalizava para o além ver, do alcance possível, do seu corpo; das suas mãos quando queriam alcançar um objeto devolvido ao uso da casa. Esta deformação de visão tanto central, q...

Mote do encontro (27/ 10/ 15)

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Mote lido por Walter Macedo Filho A casa dos budas ditosos   Atrás, bem que eu tentei, a primeira vez em pé, encostada no muro do farol da Barra, que, aliás, é meio inclinadinho, e a gente fica mais ou menos reclinada de bruços, grande farol da Barra. Ele passou cuspe, eu me preparei toda ansiosa e, quando ele enfiou, não consigo imaginar dor pior do que aquela, uma dor como se tivessem me dado dezenas de punhaladas, uma dor funda e lacerante, que não passava nunca, me arrepio até hoje. E as tentativas posteriors foram todas desastrosíssimas, experiências humilhantes e acabrunhantes, passei anos traumatizada e decidida a tornar aquilo território perpetuamente proibido e mesmo execrado. Até que Norma Lúcia me ensinou uma coisa. Não. Duas coisas. Não. Três coisas. Primeira coisa: no começo, na iniciação, por assim dizer, tem que ser de quatro, requisito absoluto para a grande maioria. Segunda coisa: tem que dizer a ele que venha devagar. Ou, melhor ainda, dizer ...