Manteiga - Daniel Russell Ribas



Manteiga


Ela não respira. Sente a pressão. Na garganta. Grunhidos. O peso em cima. Imobilizada. Os braços arranham no chão de taco de madeira. Se fosse espectadora, se perguntaria o que está acontecendo. Não pensa. Não consegue. Não se levanta. Não consegue. Sente um corte fino na cintura brevemente. Está sem a calcinha. De repente, um toque de melado. Um cheiro peculiar, porém familiar. Movimento. Algo bate nela por trás. Sente o formato, é familiar, mas envolvido em uma cobertura. Ele repete o movimento com força e o tecido impacta em sua carne. Mas não há penetração. Chora. Geme. Assim como começou, o ataque para. Alguém grita “Corta”.

Maria ainda está no chão. Olha para cima e a luz do holofote a cega. Aos poucos, reconhece o ambiente. Está no apartamento alugado pela equipe de um casal distinto. Ambos entusiasmados com o fato de que uma potencial obra de arte seria forjada no espaço. Notou que ele está no canto, com uma expressão distante e fria. É um ator metódico, não sai do estado psicológico de seu personagem atormentado. O diretor fala algo em italiano e, em seguida, avisa em francês para que preparem o cenário para a próxima sequência. Uma assistente a ajuda a se levantar e, sem dizer uma palavra, a conduz até o banheiro, que dubla de camarim de maquiagem naquela locação. Ela e a maquiadora lhe dão um sabão e abrem o chuveiro. “Está morna” e a seguram pelos braços até ela entrar no box do chuveiro. Maria está muda. Talvez ainda encarnando sua personagem perturbada, pensariam.

Após a filmagem do dia, encontrou com Bernardo, o diretor do filme e seu amante. Foram no café localizado em frente ao prédio em que a produção se concentrava. É o estágio mais delicado da obra, as sequências em que a intimidade entre seu personagem e o do homem se estabelecem. Na trama, ela era uma jovem sem rumo e em busca de algo além de seu relacionamento funcional e o homem mais velho, transformado pela perda, danificado. Duas almas perdidas que se encontram e iniciam uma conexão carnal e destrutiva. Um poema brutal e honesto sobre a ausência do amor no mundo contemporâneo. Um espetáculo artístico que examina com honestidade o ser humano num ambiente que o oprime e suas válvulas de escape. Uma obra pra ganhar muitos prêmios e durar anos. Foram estas as palavras de Bernardo quando a contratou para o papel principal de seu novo filme e eram as mesmas que repetia naquele momento em que seus cafés foram postos à mesa.

- Você não me avisou.

- Se avisasse, não seria honesto.

- Sou uma atriz, Bernardo. Eu sei fingir.

- Por isso mesmo. Não quero enganação. Apenas a verdade.

Maria expôs que não se sentia bem com o que acontecera. Sabia que não havia sofrido uma violência, pois não fora estuprada de fato. Entretanto, sentia o abuso como se fosse verdade. Até agora, não conseguia tirar o que ocorrera pela manhã de sua cabeça. Ainda estava abalada.

- Maria, o que fazemos agora? Tomamos café num lugar quente, em uma noite fria, e conversamos. Não há absolutamente algo além de ordinário neste momento. Pessoas que morrem sem escrever seus nomes na história, que não contribuirão para este mundo, exceto fazendo filhos e poluindo e consumindo, fazem exatamente o que estamos fazendo agora. Enquanto gravávamos a cena em que seus personagens perdem o controle de seus sentimentos, alguém esteve nesta mesa, tomando café, talvez lendo um jornal e foi trabalhar. Talvez estivesse acompanhado. Sabe o que ele fará em seguida? Comer e dormir. E amanhã o mesmo. Um ourobouros infame até a morte. Nós, não. Somos artistas. Temos a obrigação moral de sacudir esta sociedade. Exibir nas telas sua hipocrisia com a poesia de que fomos dotados. O que fizemos e faremos é de vital importância. Sem nós, a história do mundo não será registrada. Como diretor do filme, sou o responsável para que esta cruzada não seja em vão. É meu dever moral garantir a integridade. Acima de tudo, integridade. Porque, Maria, o único lugar onde ela pode existir é na arte. Nós devemos chocar. Não somos estes executivos com maçãs no lugar de rostos. Como artistas, vamos além. Por isso, não importamos. Apenas a arte.

- Bernardo, eu não estou bem.

- É sua personagem. Neste momento, ela não está bem, logo você não está bem. É a sincronicidade jungiana. A emoção de Maria, a personagem, foi tamanha que passou para Maria, a atriz. Este é o método que o homem utiliza, por exemplo. A transferência é forte para modificar nossa apreensão e o sentido das coisas. Isto é bom, pois garante a virtude da arte. É direta, brutal e honesta. Quando este alguém que tomava café nesta mesa enquanto filmávamos assistir a esta cena no cinema, ele sentirá a urgência do momento. Assim, triunfamos. Eu sei, porque sou o comandante desta cruzada. Em minhas mãos, seremos maiores que a vida. Ad eternum.

O garçom retorna e serve o croissant de Bernardo. Ele pega uma faca, enfia na manteiga e, com fome, abre o corte no pão. Maria pede licença e vai ao banheiro. Sem hesitar, vomita na pia. Olha-se no espelho. Chora de novo. Relembra a existência medíocre de sua humanidade até participar do filme. Antes disso, era justamente uma dessas criaturas sem identidade que zanzam pelas ruas como autômatos. Tinha um sonho de se destacar, de criar algo através do mecanismo imortal que é a arte. Segundo Bernardo, era isso que faziam agora. Ela concordava. Ainda assim, não se sentia bem. Havia algo terrível. Uma falha em nome de uma boa causa. Um erro grave como o pecado da nulidade foi cometido. Mas o que era? Todos disseram que era por algo importante. Uma loucura se debater por algo que sequer havia de fato acontecido. Sua mente insistia em discordar. O coração batia. Não queria encarar o espelho sujo à sua frente.

Mirou a fresta logo acima do toalete. Via a parte de uma árvore, com as folhas balançando ao vento. Sem som. Enquanto se concentrava no lado de fora, talvez alguém fizesse uma obra de arte, outra pessoa tomaria café e uma mulher seria violentada. Ao mesmo tempo, tudo pode acontecer. E mudar.


Conto escrito para o encontro de 04/ 08/ 2015




Daniel Russell Ribas é membro do “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal. Escreve no blogue “Entre a rua e o meio fio” (http://multiconto.blogspot.com.br/), em parceria com o poeta Henrique Santos. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio).

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