quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sobre​ ​silhuetas​ ​e​ ​sombras​ ​projetadas, de Maria Paganelli

O entardecer é sobre um amor específico, um romance específico, mais especificamente. Entardece e é mais difícil enxergar o que acontece na minha moradia. Vejo bem nitidamente as silhuetas que percorrem o céu mudando de cor. Desenham em cores fortes, delicadas e mutáveis. Já as sombras são puro breu e aumentam mais a cada instante. Ele está certo, é o horário em que menos dá pra se ver as coisas. Nada se vê, nada se entende. Nem por mim que construí tudo aquilo que pode ser silhueta e sombra, mas muito menos pelo curioso visitante com uma pequena vela que o guia. De dentro da casa eu era acostumada a enxergar sem luz a minha escuridão e, quando o encontrei na porta, aproveitava o que ele conseguia enxergar para ver com seus olhos a minha casa, ver como sou com outra percepção. No meio a isso acontece um apagão do que eu via lá dentro e não consigo mais entender de onde vem aquelas projeções esquisitas. Que sombras são aquelas sem formas específicas? Sou eu ou ele? Ou somos os dois que desenham a escuridão indefinida dentro de mim? As sombras que projeto pela luz em comum ficam cada vez mais difíceis de entender se mostram um caminho para dentro da casa ou nos embarreiram, expondo todo o medo de alguma iluminação. A nossa vela, com o tempo, derrete na mão dele e também pinga sobre meus pés descalços. Incômodos e dores acontecem num sábado feio. Dos meus olhos escorrem algumas coisas que não sei do que nomear. E como a vela, também me queimam e doem. Não entendo. É como se agora brilhasse no meu olho aquele reflexo da vela, quando fui atender a porta. Sem dúvidas derretia alguma parte de mim ali bem à beira da rua. Mas ele trouxe uma vela pequena, chamas inseguras que dançam bastante no fio envolto em cera branca e nos meus olhos castanhos como os dele. Não entendo... - Lá fora entardece passando cores infinitas no céu. Lá fora as cores se escurecem, ficam cada vez mais parecidas com o tom escuro de azul que tenho dentro do meu quarto apagado. Sintonias muitas nesse encontro entre fora e dentro de casa. Entre os dois. Entre dia e noite. Num encontro de fim de tarde, que é momento de indefinição tão emocionante. Nesse meio do caminho acontece aquele silêncio demorado: o tempo das respirações. Enquanto respiramos, eu, ele e a vela, me vejo a um silêncio de distância de convidá-lo a entrar, iluminar o ambiente, os candelabros e a lareira daqui de dentro. Mas dele eu ainda não sei, só ouço respirações.

Conto lido no encontro de 07/11/2017

Maria Paganelli é artista. Pinta, escreve e tem uma banda de forró chamada Patuá. Ela se entrega com uma sensibilida ímpar ao que faz, como demonstra em um belo sorriso italiano cheio de vitalidade. Veja seus trabalhos em: https://www.facebook.com/mariaivpaganelli/?notif_id=1510486672450253&notif_t=page_invite&pnref=story



segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sempre aos domingos, por Bruna Viana

Te amo sempre, aos domingos. Enquanto arrasto minha ressaca, de álcool ou de sono, para qualquer compromisso familiar em que eu deva sorrir. Te amo, no trajeto, enquanto empurro o pedal da bicicleta, cansada em parte pela minha falta de técnica e, em muito, pelas sobras emocionais de outros seis dias em que vivi. Te amo porque chove ou faz calor e sempre tenho de lidar com as consequências de me vestir de forma incompatível com clima –preciso, constantemente, de agasalho ou de filtro solar. Te amo porque almoço o que não queria, porque sinto sono durante a tarde e vontade imensa de uma rede qualquer que sustente minha alma desconfortável e, quem sabe assim, torne-me um pouco mais leve. Te amo porque o dia entardece desse jeito implacável e me obriga ao porvir de outra semana. te amo porque não sei mais o que esperar de outra semana. Te amo enquanto procrastino a bagunça do armário e descumpro a velha promessa da faxina aos domingos. Te amo porque despejo em ligações para novos ou velhos amigos essa ânsia de desatar da garganta esse nó-de-domingo. Esse dia em que se adensa o mal resolvido. Te amo porque estou inerte, falta-me ânimo e busco um filme qualquer que me antecipe da segunda feira uma nova vida. Te amo enquanto encaro a falta de paciência que o calendário desse ano teve por mim. Te amo porque tento dormir cedo, perambulo o corredor entre os quartos e escuto TVs ao longe, desassossegada de minha programação. Te amo porque meu pescoço não se encaixa no travesseiro, porque estou cansada, mas desperta, porque penso e sinto tanto e me esforço e me enfeito, leio os livros, corto e lavo meus cabelos, escuto todos aqueles forrós nordestinos, festejo e corro em calçadas e vou para tantos lugares, tantas viagens e sempre acabo assim,em qualquer lugar, de qualquer modo, dando o nome de amor para esse sentir vazio que me toma

Sempre, aos domingos.

(Mote vencedor para o encontro do dia 21/11/2017).

O mote, Sempre aos Domingos, foi extraído do texto homônimo de Bruna Viana, na página 21 do terceiro número da Madame Eva, Revista de Tautologias, disponível em https://revistamadameeva.wordpress.com/revistas/madame-eva-no3/

Bruna Cabral de Pina Viana nasceu em uma vila de pescadores no sul da Bahia. Paraíso que nao se revela o nome para que ninguem se anime em visitar. Escreveu em areia seus primeiros e melhores versos. Só o mar pode ler. Publicou seu primeiro livro aos sete anos, edição já esgotada. Caminhou pelo nordeste dos treze aos dezessete anos, tempo em que produziu dois de seus melhores contos, premiados Honra Capibarida. Escreve, atualmente, somente em guardanapos de mesas de bar. Mas sempre os atira ao mar.



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Carolina, por César Manzolillo

Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. Esse mundo tá um caos. Além do mais, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atriz, acho que você não sabia, né? Claro que não sabia. A gente mal se conhece. Bem, tô começando mas você acredita que meu primeiro trabalho profissional foi numa peça de Nelson Rodrigues? A temporada acabou domingo passado. Bonitinha mas ordinária. Não, eu não era a protagonista. Era uma das irmãs da Ritinha. A Vera Fischer fez no cinema. A Ritinha, eu quero dizer, ela fez a Ritinha. Acho ele um gênio. Foda mesmo. Manda muito bem. Minha família toda foi assistir. Até meu pai. Ficou meio chateado porque eu apareci de peito de fora. Mentalidade atrasada, meu Deus. Aquela cena tava completamente dentro do contexto. Por mim ele nem teria ido. Já sabia que ia reagir mal. Enfim. E depois eu não quero que as pessoas pensem que sou uma patricinha que veio fazer terapia porque não tem mais nada pra fazer na vida. Tipo pra passar o tempo, entende? Minha família não é rica. Bem classe média. Acho que até pode me ajudar no meu trabalho de atriz. Tudo tem prós e contras, não é mesmo? Eu posso começar. Talvez o ideal seja eu começar sem compromisso. Sei que não sou obrigada a nada. Não precisa você me dizer. Não sou tão tapada. Verdade. Sou filha única. Não sou mimada. Quando falo que sou filha única, as pessoas logo pensam isso. Bem ao contrário. Mas não posso negar que durante muito tempo eu desejei muito ter um irmão, uma irmã, um primo adotado que fosse, a casa mais cheia, mais barulho, mais agitação. Carolina, minha filha, você ainda não está pronta? O táxi já chegou. Temos hora marcada. Por que você se olha tanto nesse espelho? Depois que você entrou pro teatro, resolveu ensaiar tudo. Até a vida. 


(Mote vencedor lido por Daniel Ribas para o encontro de 07/11/2017)


César Manzolillo nasceu no Rio de Janeiro, licenciado em Letras (Português-Literaturas), mestre e doutor em Língua Portuguesa pela UFRJ, com pós-doutorado pela USP. Professor de Língua Portuguesa, lecionou e ofereceu cursos na Faculdade de Letras da UFRJ, no Instituto de Letras das UERJ, no Instituto de Letras da UFF, na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, na UNESA, no SinproRio e no Colégio de Aplicação da UERJ. Diretor da montagem da peça "Senhora dos afogados", de Nelson Rodrigues, apresentada durante o mês de julho de 2008 na Sede da Cia. de Teatro Contemporâneo (Botafogo, Rio de Janeiro). Revisor de textos. Após participação em algumas coletâneas, lança "A angústia e outros presságios funestos", seu primeiro livro de contos.





segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cultura: uma visão antropológica, de Sidney W. Mintz

Talvez nenhum dos escritos de Boas tenha revelado de maneira mais marcante o seu ponto de vista como a carta que escreveu a um parente durante a sua primeira visita aos esquimós, ao iniciar a sua carreira de antropólogo. Era dezembro de 1883. Boas, seu criado Wilhelm e o esquimó que os acompanhava, de nome “Sigma”, tinham viajado sob condições altamente adversas para o extremo noroeste do Estreito de Cumberland. Caminhando por 36 horas, na maior parte desse tempo perdidos, vagando pelo gelo a 45ºC negativos,suas provações só tiveram fim quando foram convidados a entrar em um iglu esquimó, onde puderam se aquecer, comer e dormir. “Não é realmente um belo costume”, observou Boas, “que estes ‘selvagens’ sofram todo tipo de privações em comum, mas nos momentos de alegria, quando alguém traz um butim da caçada, eles se juntem para comer e beber? Eu muitas vezes me pergunto quais as vantagens que a nossa ‘boa sociedade’ possui sobre a desses ‘selvagens’. Quanto mais observo seus costumes, mais me convenço de que não temos por que nos considerarmos superiores. Onde, em nossa sociedade, encontraríamos tamanha hospitalidade? Aqui, sem a menor queixa, eles estão dispostos a fazer todos os trabalhos que lhes são exigidos. Nós não temos o direito de criticá-los por sua forma de vida e suas superstições, que podem nos parecer ridículas. Nós, pessoas ‘altamente educadas’, somos piores, relativamente falando. O medo das tradições e velhos costumes está profundamente arraigado na humanidade, e do mesmo modo que regula a vida aqui, impede o progresso para nós. Acredito que todos os indivíduos e todos os povos se veem diante do conflito de abandonar a tradição e seguir o caminho da verdade. Os esquimós estão sentados ao meu redor, as bocas cheias de fígado de foca cru (a gota de sangue no verso do papel mostra que eu também participei). Como ser pensante, o resultado mais importante desta viagem para mim está no fortalecimento do meu ponto de vista de que o conceito de um indivíduo ‘cultivado’ é meramente relativo, e que o valor de uma pessoa deve ser julgado pelo seu Herzenbildung. Esta qualidade está presente ou ausente aqui entre os esquimós, tanto quanto entre nós.”


Mote vencedor do encontro de 03/10/2017 lido por Gabriel Cerqueira. Você pode ler o artigo completo aqui

Sidney Wilfred Mintz (1922-2015) foi um antropólogo norte-americano. Povos do Caribe e a Antropologia da Alimentação foram suas especialidades, mas também realizou estudos no Irã e em Hong Kong. Formado pela Universidade de Columbia e professor da mesma, Mintz também lecionou na Universidade de Munique, na Universidade Chinesa de Hong Kong, Johns Hopkins University, entre outras.



Franz Uri Boas (1858-1942) foi um antropólogo alemão radicado nos EUA. Professor renomado na Universidade de Columbia e estudioso do povo inuit, Boas é considerado como um dos fundadores da Antropologia Moderna.



Beije-me antes de partir, por Gabriel Cerqueira


Em um bar barato em Lincoln Park, Chicago, numa noite chuvosa de quarta-feira.

A conversa foi interrompida pela chegada de um homem sorridente e olhar gentil. Era Johnnie, um produtor musical que havia ganhado certa fama por causa de algumas boas apostas em cantores de rua. Nos conhecemos ainda na universidade. Não éramos próximos, transamos algumas vezes, mas pela boca dos outros ele conheceu até meu passado pelas noites de Detroit. At Detroit they don’t have any mercy. They just want your pussy. Na última vez em que nos vimos ele disse que arranjaria algum modo de ganhar dinheiro e voltaria para me buscar. Não acreditei em nenhuma palavra dele. Só que Johnnie voltou, o motivo ninguém sabe. Bebo um gole de cerveja e dou um trago no cigarro.
Motivos à parte, Johnnie está em cima de mim na minha cama. Como as intenções sobre meu corpo sempre são de segunda nunca neguei uma boa foda. Ele começou por cima, beijando meu pescoço e seios, demorou-se nos mamilos rijos, me lambeu até quase eu gozar e então entrar em mim.
A fumaça de dois cigarros preencheu o ar do quarto escuro. Deitei sobre o peito de Johnnie e ficamos calados, apreciando o gosto do tabaco e o silêncio da noite.
– Quero saber se quer ir comigo – ele disse calmo e de repente.
– Não pensei que fosse cumprir sua promessa de príncipe num cavalo branco.
Peter, um amigo que tínhamos em comum, deve ter contado que pretendo sair de Chicago. Não tenho nada aqui além de um emprego miserável em uma loja de departamentos. Minha família já se foi, os amigos vêm e vão. Johnnie disse que poderia me arrumar um trabalho decente na Califórnia com um de seus amigos e que, se quisesse, poderia morar com ele. Será que estava apaixonado por mim desde a faculdade? Como esse não era o primeiro acordo que fiz por sexo, resolvi aceitar a proposta.
Já coloquei quase tudo o que tenho em caixas – minha vida inteira coube em cinco delas – e faltam apenas algumas roupas, sapatos e o diploma da Detroit Mercy University pendurado na parede. Pego e olho meu nome escrito com uma caligrafia desenhada. Nada do que fiz por ele valeu a pena. O sonho universitário é gerado num útero de esperança com um bom discurso institucional, só para depois te parirem na sarjeta.
Duas semanas depois já estávamos em São Francisco. Por enquanto estou morando com Johnnie para poupar alguns trocados. Arranjei um estágio em uma agência de advocacia pela primeira vez. Tudo está indo muito bem, inclusive as coisas com Johnnie. Acho que me apaixonei pelo sujeito, algo inédito para uma criatura destrutiva como eu.
Sempre busquei meu fim. Nunca amei ninguém e as transas sempre tinham outro objetivo além do prazer. A bebida e as drogas se tornaram um alento contra o vazio crescente em meu peito. Outro dia numa conversa um amigo disse que nunca pensou em se matar e me assustei; e existia essa alternativa, simplesmente nem pensar em tirar a própria vida? Mas quando estava com Johnnie a existência que me era pesada soava branda.
Sexta-feira à noite e saímos para comemorar o bom andamento de nossa nova vida. Estamos em um pub e Johnnie me apresenta alguns de seus amigos, inclusive Keith Mars,  sucesso recente que lançou o nome da sua gravadora nos holofotes da indústria musical californiana; “Era só questão de tempo para se tornar um sucesso nacional”, Johnnie disse enquanto entramos em uma sala privada.
Há diversos rastros de estrela cadente em cima da mesa nos aguardando. Aspiro duas delas quase que de uma vez e meu corpo relaxa e dispara. Pego Johnnie honey, meu Johnnie, e danço com ele pelo cômodo banhado em uma luz azul. Agarro o desgraçado e o beijo, aperto seu corpo contra o meu, forte, intenso. Bebo vodka com uma bala, a consciência resiste quase se partindo.
Não sei quanto tempo se passou desde que estamos aqui, nem quanto cheirei ou bebi, e a euforia está diminuindo. Está indo embora rápido demais e ela não se torna apatia. Sinto meu corpo formigando e começo a suar frio, perco o equilíbrio. Sinto nojo de mim mesma, olho ao redor e vejo a estupidez de toda aquela decadência. Sinto vontade de beber veneno ou pular de um prédio. Começo a tremer e desabo no chão. Johnnie vem ao meu encontro, alarmado.
– Merda, Steve! – ele grita – Você matou a puta!
E Johnnie caminha em direção à porta com Keith a tiracolo.
Oh, Johnnie honey, meu coração está batendo mais rápido, mas não é por amor.
Alguém me ampara enquanto diz com a voz vacilante “Puta merda, eu só trouxe as coisas!”. Reviro os olhos e a língua embola na boca. Mesmo com meu corpo colapsando minha mente está serena. Tudo está distante, alheio e opaco. Convulsiono, me debato. Coração e cabeça parecem que vão explodir. O azul escurece cada vez mais, o som fica abafado, parece que o tato está parando de funcionar, até que...



(Conto mais votado no encontro de 03/10/2017)

Gabriel Cerqueira não faz a menor ideia de quem ele é.

 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A benção do malandro, de José Fontenele

A bênção do malandro
Quem nota o seu Cesinha desacompanhado na mesa da diretoria da Estudantina pode pensar que ele é apenas um homem idoso utilizando o privilégio de sua idade. Supor isso denuncia que a pessoa ou é novata naquela gafieira ou não conhece as malevolências amorosas do malandro. Chapéu Panamá de abas curtas, paletó sempre branco e engomado, camisa de algodão de listras branco-pretas do glorioso Botafogo, calças brancas de leve brim e sapato social como a luz da lua, seu Cesinha não risca o salão por impedimento de suas mulheres. Elas têm medo de ganhar outra concorrente. Digo mulheres porque o malandro é casado de forma civil com a mulata Dolores, mas também dedica atenção amorosa para a mãe dela, a Serafina. O segredo da relação dupla sempre foram as palavras e o gingado dentro e fora da gafieira.
Malandro altivo, o Cesinha, antes de ser respeitado, era um excelente dançarino e um convicto sedutor. Quando as madamas desciam para testar seus passos lá onde a dança de salão era aperfeiçoada, era o Cesinha que guiava os braços brancos e sedosos das grã-finas. Os invejoso diziam que ele era apenas um divertimento de senhoras ricas, algo como um mico de circo; aí ele se enfezava, jurava briga e gingava capoeira de meter medo em qualquer um. Quando saía soco e chute a dança acabava, as madamas iam embora e todo mundo perdia. Foi por isso que demorou um tempo até as grã-finas retornarem e o Cesinha ficar famoso por causa da viúva do coronel.
O nome dela era Claudete Moraes Pereira Barroso, esposa de um Coronel do Exército ainda vivo naquela época. A moça, sem aliança, aprendia os primeiros movimentos no salão e era só elogios aos passos e remelexos do Cesinha. E como diz o bloco, simpatia é quase amor. Por isso não deu outra. O sorrisão do mulato conquistou a grã-fina, o marido morreu de infarto ao saber que era traído e a dona Claudete passou a ser chamada de viúva do coronel. Aí então, quando diziam que cornice não mata, a gente contava a história da viúva do coronel e a fama do Cesinha corria as ruas. A viúva teve problemas com advogados e herança, e logo sumiu. O mulato? Explodiu na gafieira. Faziam fila para dançar com ele e os lábios do Cesinha trabalhavam mais que cuíca em época de carnaval. O malandro só fugia quando as amantes descobriam que eram traídas. Quando a poeira baixava ele aparecia mais cheiroso e simpático do que nunca, galanteando até modelo de vitrine de shopping e ia riscar o salão com outra dama, sem se estressar com mulher, porque estresse a gente sabe que mata tanto quanto cornice.
Então apareceu a Dolores, que no terreiro era filha de Iansã. Mulata três por quatro, cara fechada, brava, botava no chão qualquer um que se engraçasse com ela. Dolores não era uma mulher para ser conquistada, ela era a caçadora. Os mais velhos dizem que quando eles dançaram pela primeira vez, ela o derrubou para deixar claro que era ele quem deveria ter cuidado com ela, não o contrário. Para conquistá-lo a mulata fez guerra: rasgava roupa da mulher que dançava com o malandro, puxava cabelo, dava rasteira e chegou até a morder o braço de uma madama que gingou com o Cesinha. Aí a diretoria se emputeceu. Falou para a Dolores esfriar a cabeça fora da Estudantina por uns dias. E foi nesses dias que ela foi vista no terreiro com velas e flores amarelas, espadas de Iansã, que são iguais às espadas de São Jorge, mas com as bordas amarelas, e melão – oferendas para sua mãe Iansã. O Cesinha, por outro lado, não acredita nesse feitiço. Afirma que foi procurar a Dolores porque queria se desculpar. “Se desculpar com o quê homem?” Perguntavam. Mas ele nunca respondia.
Dois meses depois do pedido de desculpas, a Dolores apareceu meio barriguda, com as carnes mais robustas e o gingado lento. O casório foi no civil, mas a amarração legítima foi no terreiro. Sem dinheiro, porque o Cesinha só fazia bico, eles foram morar na casa de Serafina, mãe da mulata, que também era tão viúva quanto a viúva do coronel. E a gente sabia que ia dar coisa ruim, porque a dona Serafina tem as carnes vistosas para uma mulher de cinquenta anos. Panela velha é que faz comida boa, não é? Por isso o Cesinha, quando não tinha seus bicos, ia comer na panela da sogra. Logo aconteceu o pior: o malandro foi pego com a boca na botija da Serafina. Dolores bateu na cara dele, xingou, quebrou panela e prato, rodou a baiana pra todo mundo ouvir e botou o nome dele na macumba. Só desfez a mandinga por pedido do mulato, que não conseguia nem dançar, tão sorumbático estava. O pessoal do terreiro também ajudou, falou que não pegava bem pra filha de Iansã castigar marido e mãe ao mesmo tempo porque podia dar desgraça braba. Então passaram a morar juntos e o Cesinha teve três filhos com a Dolores, todos homens, e uma filha com a Serafina. Hoje ainda vivem no mesmo teto, porque o mulato só recebe o aposento e os filhos herdaram a malandragem e a cadência do pai.
Vivem felizes. Nunca ninguém viu o seu Cesinha emburrecido com nada.
Então quem vê o mulato no canto todo arrumado no brim e no sorriso, nem desconfia. Acha que ele é um velho daqueles bem velhos que só falta morrer igual velho. Mas quem conhece a história do seu Cesinha, como eu, pede permissão pra diretoria, sobe os degraus com reverência e vai pedir bênção.

Ficar de bem com a malandragem só traz coisa boa.

Conto vencedor do encontro de 19/09/2017

José Fontenele é Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalha em uma Agência Literária. Escreve resenhas para os sites Ambrosia (ambrosia.com.br) e Vortex Cultural (http://vortexcultural.com.br), contos e atualmente trabalha no segundo romance.




sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Amor a quem?, de Bertold Brecht

Dizia-se da atriz Z. que ela tinha se suicidado devido a um amor infeliz. O sr. Keuner disse: “Ela se suicidou por amor a si mesma. De todo modo, ela não pode ter amado X. Senão ela não lhe teria feito isso. Amor é o desejo de dar algo, não de receber. Amor é a arte de produzir algo com as capacidades do outro. Isto requer atenção e afeição do outro. Isto sempre se pode obter. O desejo exagerado de ser amado tem pouco a ver com amor genuíno. O amor a si tem sempre algo suicida”

Conto vencedor lido por Walter Macedo para o encontro de 03/10/2017


Retirado de Histórias do Sr. Keuner, Editora 34

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A peleja do Seu Sete contra o General, de Luiz Antonio Simas

A peleja do Seu Sete contra o General
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Conheço poucos fuzuês brasileiros que se comparem ao que acontecia na década de 1970, em Santíssimo, pertinho de Bangu. Em um galpão transformado em terreiro de umbanda, a médium Cacilda de Assis recebia Seu Sete da Lira, um exu fuzarqueiro e sedutor.
Os pontos eram tocados em ritmo de samba, ao som de tambores, pandeiros, chocalhos, cavaquinho e acordeão. Seu Sete, ao lado de 5 mil médiuns e de multidão de clientes, aparecia em grande estilo, de cartola, capa, colete, garrafa de marafo na mão e o escambau. Dava passes, cuspia cachaça em todo mundo e atendia o povão, artistas e autoridades.
O sucesso foi tanto que Seu Sete baixou, ao vivo, nos programas do Chacrinha, na TV Globo, e de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. O jornal O Estado de São Paulo (03/09/1971) noticiou o babado da seguinte maneira: "A disputada mãe de santo Dona Cacilda de Assis transformou os estúdios da Globo e da Tupi em verdadeiros terreiros de macumba. Embora as apresentações diferissem, o espetáculo em si foi o mesmo: os umbandistas do 'Seu Sete' invadiram o palco (baianas, cantores, pessoas bem-vestidas) num tumulto indescritível."
Os leitores imaginem o furdunço: Chacrinha e Flávio Cavalcanti entrevistaram Seu Sete da Lira enquanto a curimba comia solta. Consta que câmeras, assistentes de palco e mulheres da plateia recebiam entidades e davam passes via satélite.
Resultado da brincadeira: Os homens do regime militar interferiram no babado, a Globo e a Tupi tiveram que assinar um acordo de autocensura prévia e os militares baixaram um decreto de censura prévia aos programas ao vivo. Criou-se um órgão federal controlador da umbanda e o governo abriu uma sindicância que culminou com o fechamento do terreiro e o fim da carreira de Dona Cacilda, sob acusação da exploração da crendice popular e propaganda do charlatanismo.
Correu à boca miúda que o verdadeiro motivo da cassação do exu teria sido outro. A primeira-dama do país, Cyla Médici, teria rodado na canjira e recebido Seu Sete enquanto assistia ao programa do Chacrinha, chegando a pedir cachaça e dar consultas para os empregados da residência oficial do governo.
Acho, por tudo isso, que os estudiosos da ditadura deveriam incluir o Rei da Lira na lista dos cassados. A dupla dinâmica Seu Sete e Abelardo Chacrinha foi demais para sisudos censores. Nem a esquerdam, com seus materialismos importados da Europa, entendeu. O Brasil, todavia, desafiador em suas subversões pela festa, estava inteirinho ali.
Coisas Nossas. SIMAS, Luiz Antônio. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017. p. 31-2.

Mote vencedor para o encontro de 19/09/2017 lido por André Salviano


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O Terraço, de Guilherme Preger



No meu emprego, aumentaram as horas de trabalho desde a última crise. A explicação que os patrões deram é que, como caiu o preço dos produtos, tornou-se necessário produzir mais para compensar a queda de receita. O resultado é que estamos trabalhando pelo menos duas horas a mais diariamente. Se vendemos mais, aumentam as comissões. O problema é que estamos em crise e as vendas caíram, e mesmo produzindo mais, os consumidores estão comprando menos. Parece contraditório, mas os patrões disseram que todo o excedente de produção está sendo guardado em armazéns confiáveis. Assim, quando as vendas voltarem a aumentar, poderemos trabalhar menos e compensar o tempo trabalhado a mais. Não entendemos muito bem essa história de compensação, mas aceitamos assim mesmo. Todos nós precisamos de trabalho. É melhor do que mendigar nas ruas.
Todo dia acordo muito cedo para chegar ao trabalho no horário certo para não ser descontado. Todos os trabalhadores têm uma tolerância de 15 minutos para passar o crachá na catraca e eu sempre uso meu tempo de tolerância inteiro. Sento em minha cadeira e ligo o computador. As cores digitais em minha tela aparecem como um novo clarão do dia. Entro na caixa postal do trabalho para ver as mensagens. Vou apagando todas as mensagens de spam. Dezenas delas chegam todos os dias. Gosto muito de deletar mensagens de spam. Sobram umas duas ou três mensagens úteis, porém deixo algumas mensagens sem apagar para fingir ao meu chefe que estou lendo mensagens importantes. Quanto mais mensagens importantes, mas importante é o seu trabalho.
Depois de ler todas as mensagens, aí tenho que começar a escrever meus relatórios. Minha função em meu emprego é escrever relatórios. Tenho em média um ou dois relatórios para escrever a cada dia de trabalho. Como domino a arte da escrita, tenho facilidade para realizar essa tarefa. Porém, se termino logo a missão de escrever meus relatórios, meu chefe me passa outros relatórios. Como tenho bastante tempo de trabalho diário, decido usar a manhã toda para escrever um deles e a tarde toda para escrever outro. Os relatórios têm em média quatro ou cinco parágrafos, de modo que posso escrever um parágrafo por hora. Assim um dia inteiro se passa sem ser chateado pelo meu chefe, que fica feliz em me ver ocupado.
Na verdade, escrevo cada relatório em cerca de quinze ou vinte minutos e no restante do tempo bato aleatoriamente no teclado do computador. Às vezes abro um site de internet como se estivesse procurando uma informação para preencher o relatório. Meu chefe gosta de ver funcionários procurando conhecimento na internet. No entanto, visito sites de notícias ou artigos que não têm qualquer relação com os relatórios. Faço isso para passar o tempo mais rapidamente.
Minha luta diária é contra o sono. Tenho pouco tempo livre e quando chega a noite, em minha casa, pego alguns livros para ler ou escrevo trechos de meu novo romance. Vou nisso até mais tarde, apesar de acordar muito cedo. Escrever à noite me dá prazer. É quando minha imaginação está mais acesa. Mas quando estou no escritório de dia, digitando meus relatórios, sinto sono, muito sono. E olhar a tela do computador me dá grande vontade de dormir. Muitas vezes fecho os olhos e finjo que estou pensando e digitando. Nos pequenos cochilos que experimento discretamente às vezes até caio em sonhos. 
Há um sofá em minha sala, onde os visitantes se sentam esperando a vez de falar com o chefe. Por diversas vezes já olhei para aquele sofá como um boi olha para uma sombra de árvore num pasto calcinado pela luz do sol. Mas se me sento ou deito naquele sofá, meu chefe vai encontrar um motivo para me mandar embora.
Uma vez estava com tanto sono que mal me aguentava em pé. Entrei pelas escadas de incêndio procurando um lugar para me sentar. Mas fiquei com medo de aparecer alguém. Então fui subindo as escadas. Nunca tinha ido até a cobertura do edifício de minha firma. No último andar, encontrei uma porta fechada. Imaginei inicialmente que estaria trancada, mas surpreendentemente consegui girar a fechadura e a porta se abriu. 
No terraço, vislumbrei um pequeno jardim sob um telhado de madeira. No centro do jardim havia uma pequena fonte de água com um chafariz. Na fonte alguns peixinhos coloridos nadavam. Havia também uma mesa entre algumas cadeiras. No fundo, havia um sofá com uma manta belíssima, de estamparia com mosaicos coloridos. No sofá havia almofadas também estampadas.  Ventava um ar frio e o fluxo da água do chafariz dava a impressão de um regato a correr docemente. Meu sono venceu o medo de ser descoberto num lugar proibido. Deitei no sofá e adormeci.
Devo ter dormido por uma hora, mais ou menos. Depois desci, imprimi o relatório que já tinha terminado e coloquei na mesa do chefe. Ele leu o relatório, disse que estava muito bom e, como de praxe, me pediu para corrigir alguns trechos. Eu corrigi e entreguei. Já era hora de ir embora.  
E assim tem sido nos últimos meses. Todo dia depois do almoço, dou uma saída pela escada de incêndio e entro no terraço, me deito no sofá e adormeço. Nunca ninguém apareceu por lá e nunca alguém se referiu a tal jardim na cobertura. Outro dia, por curiosidade, perguntei a meu chefe se ele sabia quem ocupava o andar superior. Ele me disse que ninguém. Falou que na cobertura do edifício havia apenas a casa de máquinas dos elevadores. Eu disse que era uma pena, que o edifício deveria ter um terraço, pois a vista deveria ser muito bonita. Ele concordou ao mesmo tempo que me pediu atenção para terminar o relatório antes do fim do expediente. Eu respondi que com certeza terminaria, que ele não se preocupasse, sem esclarecer que já o havia terminado desde aquela manhã. 

Conto vencedor do encontro de 05/09/2017


Guilherme Preger é escritor contragolpista



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Meu Marido, de Eduardo Villela

Olha, primeiro de tudo, quero deixar claro que não se trata de tentativa de interferir no tratamento. Ou terapia, análise, seja lá como vocês chamam isso. Mas se eu reparei que o Carlos mudou muito nos últimos meses, você também deve ter notado. É claro que reparou. Ou durante o tempo que passa aí deitado na sua sala ele finge ser outra pessoa, ou enquanto está falando não dá para notar, ou só percebe quem convive com ele diariamente? Me desculpa, mas se for isso mesmo, sinceramente não sei o que meu marido faz aí. Acho que um médico como você deve ter a sensibilidade de notar alterações no comportamento de um paciente, mesmo que essa pessoa seja muito diferente no consultório do que é na vida. Na verdade, sendo sincera mesmo, nunca acreditei muito nesse tipo de tratamento. Na minha família nunca teve isso.
Mas voltando ao assunto, o Carlos realmente anda muito estranho. Cheguei a pensar que fosse influência da terapia, mas não tenho outra alternativa senão mandar esse e-mail bem grande para tentar tirar essa história a limpo. O Carlos está me traindo? Onde ele aprendeu essas coisas? Desculpe, mas preciso mesmo saber isso, apesar de desconfiar que talvez você não responda. Eu também consigo intuir as coisas só pelo jeito das pessoas responderem, entende? Não queria ligar para você, acho que seria até invasivo, e juro mais uma vez que não quero interferir no tratamento, só preciso entender por que ele anda tão diferente. Na nossa intimidade, eu digo, principalmente, aquelas manias...
É meio delicado o que vou dizer agora, e não sei se ele fala disso aí na sua sala. Mas a mudança de comportamento maior é na nossa cama, mesmo. Primeiro estranhei, achei até excitante aquilo, mas depois foi ficando muito exagerado. A gente quase não transava mais, e de repente veio o fogo, a vontade de fazer um monte de posições diferentes. Antes, quando e se transássemos, era só o papai e mamãe, raríssimo ir além disso, e agora do nada ele passa a querer fazer de tudo. No início me veio uma pequena desconfiança, mas era tão bom que deixava o pensamento pra lá. Passei a aproveitar o momento. Uma amiga até diz que os homens são assim mesmo, mudam de vez em quando. Acho que nós, mulheres, mudamos com mais rapidez, enquanto os homens passam por um ciclo bem maior até ficarem diferentes. Por isso causam surpresa. O Carlos conta a você que passou a querer usar minhas roupas de baixo, e até comprou uma cinta-liga pra gente transar? Não para mim, pra ele. Nossa, acho que se ele não te disse isso vai ficar muito emputecido comigo. Por favor, usa a sua ética de psicólogo aí e só aborda esse assunto estranho se ele falar, combinado?
O Carlos sempre foi uma pessoa tímida, digo, só reagia a mulher se era cantado, como aconteceu comigo. Eu acho que estou fazendo um grande favor a vocês dois, na verdade sendo prática, em escrever esse e-mail. Acho que deve ter coisa aqui que ele não relatou na análise, mas vai ajudar. Aliás, esse tratamento não termina nunca, né? Eu estou ajudando você, e quero também por favor que você nos ajude, dê um help no nosso casamento. Você quer fazer um trabalho muito bem feito? Então me conta se alguma outra mulher cantou ele, conta se ele ficou com alguém, me diz se ele está tendo outro relacionamento, se o meu marido Carlos me ama. Prometo que isso vai nos ajudar muito, e nunca mais vou escrever de novo. Mas você tem que me dizer, senão vou ficar mandando essas mensagens, porque não sossego até conseguir as coisas que realmente preciso, principalmente algo que vai salvar meu casamento. Digo salvar o casamento porque, é claro, não vou contar a ele o que você relatar aqui, mas vou agir diferente, de um jeito adequado para a situação. Eu não vou terminar com ele, de jeito nenhum! Sou dessas que sabem que um relacionamento tem cura. Não suporto traição, mas tenho certeza que ele faz por causa de um problema que está passando. Se você me falar agora que ele está vendo outra mulher, juro que não digo nada. Como ela é, e onde se conheceram? O Carlos está gostando dessa mulher? Você tem uma chance aqui de dar um rumo bom ao nosso casamento, aí vou saber que é um psicólogo bom e prático mesmo para ajudar o meu marido. Eu acho que se você disser que não, não vou acreditar. Também não tenho certeza se você vai responder a esse e-mail, mas sei que vai ler, e isso com certeza pode influenciar o tratamento. De um jeito positivo, eu espero. Eu amo muito meu marido, e tenho direito de saber o que acontece com ele. Se você responder, prometo que não vou mais incomodar.
Agradecida.

Re: Meu Marido
Prezada Elisângela,
Seu marido nada me relatou sobre os eventos mencionados. Proponho que vocês dois venham juntos ao meu consultório.
Atenciosamente,
Dr. Sabóia



Conto vencedor do encontro de 22/09/2017

Eduardo Villela nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Em 2015, foi finalista do concurso Brasil em Prosa, do jornal O Globo com a Amazon, com o conto "Genética". Tem contos publicados nas antologias de Verso e Prosa de 2015 e 2016 realizadas pela Oficina Literária Ivan Proença (OLIP) e participou, em 2016, da antologia O Eldorado é Aqui, de histórias sobre o estado do Amazonas. Seu primeiro livro de contos, "O Interesse pelas Coisas", saiu em fevereiro pela Editora Moinhos e está disponível no site da editora.


sábado, 26 de agosto de 2017

O livro do desassossego, de Fernando Pessoa

Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.

Descendo hoje a Rua Nova do Almada, parei de repente nas costas do homem que a descia diante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.

Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti por ele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelas pequenas alegrias e tristezas de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de se viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.

Desvio os olhos das costas daquele meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes – tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outro jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.

A sensação era exatamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme.Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta, é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta. 

Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sono. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo.

É um humanitarismo direto, sem conclusões nem propósitos, o que me assalta neste momento. Sofro uma ternura como se um deus visse. Vejo-os a todos através de uma compaixão de único consciente, os pobres diabos homens, o pobre diabo humanidade. O que está tudo isto a fazer aqui?

Todos os movimentos e intenções da vida, desde a simples vida dos pulmões até à construção de cidades e a fronteiração de impérios, considero-os como uma sonolência, coisas como sonhos ou repousos, passadas involuntariamente no intervalo entre uma realidade e outra realidade, entre um dia e outro dia do Absolto. E, como alguém abstratamente materno, debruço-me de noite sobre os filhos maus como sobre os bons, comuns no sono em que são meus. Enterneço-me com uma largueza de coisa infinita.

Mote vencedor para o encontro do dia 05/09/2017, lido por Eduardo Villela