sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A peleja do Seu Sete contra o General, de Luiz Antonio Simas

A peleja do Seu Sete contra o General
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Conheço poucos fuzuês brasileiros que se comparem ao que acontecia na década de 1970, em Santíssimo, pertinho de Bangu. Em um galpão transformado em terreiro de umbanda, a médium Cacilda de Assis recebia Seu Sete da Lira, um exu fuzarqueiro e sedutor.
Os pontos eram tocados em ritmo de samba, ao som de tambores, pandeiros, chocalhos, cavaquinho e acordeão. Seu Sete, ao lado de 5 mil médiuns e de multidão de clientes, aparecia em grande estilo, de cartola, capa, colete, garrafa de marafo na mão e o escambau. Dava passes, cuspia cachaça em todo mundo e atendia o povão, artistas e autoridades.
O sucesso foi tanto que Seu Sete baixou, ao vivo, nos programas do Chacrinha, na TV Globo, e de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. O jornal O Estado de São Paulo (03/09/1971) noticiou o babado da seguinte maneira: "A disputada mãe de santo Dona Cacilda de Assis transformou os estúdios da Globo e da Tupi em verdadeiros terreiros de macumba. Embora as apresentações diferissem, o espetáculo em si foi o mesmo: os umbandistas do 'Seu Sete' invadiram o palco (baianas, cantores, pessoas bem-vestidas) num tumulto indescritível."
Os leitores imaginem o furdunço: Chacrinha e Flávio Cavalcanti entrevistaram Seu Sete da Lira enquanto a curimba comia solta. Consta que câmeras, assistentes de palco e mulheres da plateia recebiam entidades e davam passes via satélite.
Resultado da brincadeira: Os homens do regime militar interferiram no babado, a Globo e a Tupi tiveram que assinar um acordo de autocensura prévia e os militares baixaram um decreto de censura prévia aos programas ao vivo. Criou-se um órgão federal controlador da umbanda e o governo abriu uma sindicância que culminou com o fechamento do terreiro e o fim da carreira de Dona Cacilda, sob acusação da exploração da crendice popular e propaganda do charlatanismo.
Correu à boca miúda que o verdadeiro motivo da cassação do exu teria sido outro. A primeira-dama do país, Cyla Médici, teria rodado na canjira e recebido Seu Sete enquanto assistia ao programa do Chacrinha, chegando a pedir cachaça e dar consultas para os empregados da residência oficial do governo.
Acho, por tudo isso, que os estudiosos da ditadura deveriam incluir o Rei da Lira na lista dos cassados. A dupla dinâmica Seu Sete e Abelardo Chacrinha foi demais para sisudos censores. Nem a esquerdam, com seus materialismos importados da Europa, entendeu. O Brasil, todavia, desafiador em suas subversões pela festa, estava inteirinho ali.
Coisas Nossas. SIMAS, Luiz Antônio. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017. p. 31-2.

Mote vencedor para o encontro de 19/09/2017 lido por André Salviano


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O Terraço, de Guilherme Preger



No meu emprego, aumentaram as horas de trabalho desde a última crise. A explicação que os patrões deram é que, como caiu o preço dos produtos, tornou-se necessário produzir mais para compensar a queda de receita. O resultado é que estamos trabalhando pelo menos duas horas a mais diariamente. Se vendemos mais, aumentam as comissões. O problema é que estamos em crise e as vendas caíram, e mesmo produzindo mais, os consumidores estão comprando menos. Parece contraditório, mas os patrões disseram que todo o excedente de produção está sendo guardado em armazéns confiáveis. Assim, quando as vendas voltarem a aumentar, poderemos trabalhar menos e compensar o tempo trabalhado a mais. Não entendemos muito bem essa história de compensação, mas aceitamos assim mesmo. Todos nós precisamos de trabalho. É melhor do que mendigar nas ruas.
Todo dia acordo muito cedo para chegar ao trabalho no horário certo para não ser descontado. Todos os trabalhadores têm uma tolerância de 15 minutos para passar o crachá na catraca e eu sempre uso meu tempo de tolerância inteiro. Sento em minha cadeira e ligo o computador. As cores digitais em minha tela aparecem como um novo clarão do dia. Entro na caixa postal do trabalho para ver as mensagens. Vou apagando todas as mensagens de spam. Dezenas delas chegam todos os dias. Gosto muito de deletar mensagens de spam. Sobram umas duas ou três mensagens úteis, porém deixo algumas mensagens sem apagar para fingir ao meu chefe que estou lendo mensagens importantes. Quanto mais mensagens importantes, mas importante é o seu trabalho.
Depois de ler todas as mensagens, aí tenho que começar a escrever meus relatórios. Minha função em meu emprego é escrever relatórios. Tenho em média um ou dois relatórios para escrever a cada dia de trabalho. Como domino a arte da escrita, tenho facilidade para realizar essa tarefa. Porém, se termino logo a missão de escrever meus relatórios, meu chefe me passa outros relatórios. Como tenho bastante tempo de trabalho diário, decido usar a manhã toda para escrever um deles e a tarde toda para escrever outro. Os relatórios têm em média quatro ou cinco parágrafos, de modo que posso escrever um parágrafo por hora. Assim um dia inteiro se passa sem ser chateado pelo meu chefe, que fica feliz em me ver ocupado.
Na verdade, escrevo cada relatório em cerca de quinze ou vinte minutos e no restante do tempo bato aleatoriamente no teclado do computador. Às vezes abro um site de internet como se estivesse procurando uma informação para preencher o relatório. Meu chefe gosta de ver funcionários procurando conhecimento na internet. No entanto, visito sites de notícias ou artigos que não têm qualquer relação com os relatórios. Faço isso para passar o tempo mais rapidamente.
Minha luta diária é contra o sono. Tenho pouco tempo livre e quando chega a noite, em minha casa, pego alguns livros para ler ou escrevo trechos de meu novo romance. Vou nisso até mais tarde, apesar de acordar muito cedo. Escrever à noite me dá prazer. É quando minha imaginação está mais acesa. Mas quando estou no escritório de dia, digitando meus relatórios, sinto sono, muito sono. E olhar a tela do computador me dá grande vontade de dormir. Muitas vezes fecho os olhos e finjo que estou pensando e digitando. Nos pequenos cochilos que experimento discretamente às vezes até caio em sonhos. 
Há um sofá em minha sala, onde os visitantes se sentam esperando a vez de falar com o chefe. Por diversas vezes já olhei para aquele sofá como um boi olha para uma sombra de árvore num pasto calcinado pela luz do sol. Mas se me sento ou deito naquele sofá, meu chefe vai encontrar um motivo para me mandar embora.
Uma vez estava com tanto sono que mal me aguentava em pé. Entrei pelas escadas de incêndio procurando um lugar para me sentar. Mas fiquei com medo de aparecer alguém. Então fui subindo as escadas. Nunca tinha ido até a cobertura do edifício de minha firma. No último andar, encontrei uma porta fechada. Imaginei inicialmente que estaria trancada, mas surpreendentemente consegui girar a fechadura e a porta se abriu. 
No terraço, vislumbrei um pequeno jardim sob um telhado de madeira. No centro do jardim havia uma pequena fonte de água com um chafariz. Na fonte alguns peixinhos coloridos nadavam. Havia também uma mesa entre algumas cadeiras. No fundo, havia um sofá com uma manta belíssima, de estamparia com mosaicos coloridos. No sofá havia almofadas também estampadas.  Ventava um ar frio e o fluxo da água do chafariz dava a impressão de um regato a correr docemente. Meu sono venceu o medo de ser descoberto num lugar proibido. Deitei no sofá e adormeci.
Devo ter dormido por uma hora, mais ou menos. Depois desci, imprimi o relatório que já tinha terminado e coloquei na mesa do chefe. Ele leu o relatório, disse que estava muito bom e, como de praxe, me pediu para corrigir alguns trechos. Eu corrigi e entreguei. Já era hora de ir embora.  
E assim tem sido nos últimos meses. Todo dia depois do almoço, dou uma saída pela escada de incêndio e entro no terraço, me deito no sofá e adormeço. Nunca ninguém apareceu por lá e nunca alguém se referiu a tal jardim na cobertura. Outro dia, por curiosidade, perguntei a meu chefe se ele sabia quem ocupava o andar superior. Ele me disse que ninguém. Falou que na cobertura do edifício havia apenas a casa de máquinas dos elevadores. Eu disse que era uma pena, que o edifício deveria ter um terraço, pois a vista deveria ser muito bonita. Ele concordou ao mesmo tempo que me pediu atenção para terminar o relatório antes do fim do expediente. Eu respondi que com certeza terminaria, que ele não se preocupasse, sem esclarecer que já o havia terminado desde aquela manhã. 

Conto vencedor do encontro de 05/09/2017


Guilherme Preger é escritor contragolpista



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Meu Marido, de Eduardo Villela

Olha, primeiro de tudo, quero deixar claro que não se trata de tentativa de interferir no tratamento. Ou terapia, análise, seja lá como vocês chamam isso. Mas se eu reparei que o Carlos mudou muito nos últimos meses, você também deve ter notado. É claro que reparou. Ou durante o tempo que passa aí deitado na sua sala ele finge ser outra pessoa, ou enquanto está falando não dá para notar, ou só percebe quem convive com ele diariamente? Me desculpa, mas se for isso mesmo, sinceramente não sei o que meu marido faz aí. Acho que um médico como você deve ter a sensibilidade de notar alterações no comportamento de um paciente, mesmo que essa pessoa seja muito diferente no consultório do que é na vida. Na verdade, sendo sincera mesmo, nunca acreditei muito nesse tipo de tratamento. Na minha família nunca teve isso.
Mas voltando ao assunto, o Carlos realmente anda muito estranho. Cheguei a pensar que fosse influência da terapia, mas não tenho outra alternativa senão mandar esse e-mail bem grande para tentar tirar essa história a limpo. O Carlos está me traindo? Onde ele aprendeu essas coisas? Desculpe, mas preciso mesmo saber isso, apesar de desconfiar que talvez você não responda. Eu também consigo intuir as coisas só pelo jeito das pessoas responderem, entende? Não queria ligar para você, acho que seria até invasivo, e juro mais uma vez que não quero interferir no tratamento, só preciso entender por que ele anda tão diferente. Na nossa intimidade, eu digo, principalmente, aquelas manias...
É meio delicado o que vou dizer agora, e não sei se ele fala disso aí na sua sala. Mas a mudança de comportamento maior é na nossa cama, mesmo. Primeiro estranhei, achei até excitante aquilo, mas depois foi ficando muito exagerado. A gente quase não transava mais, e de repente veio o fogo, a vontade de fazer um monte de posições diferentes. Antes, quando e se transássemos, era só o papai e mamãe, raríssimo ir além disso, e agora do nada ele passa a querer fazer de tudo. No início me veio uma pequena desconfiança, mas era tão bom que deixava o pensamento pra lá. Passei a aproveitar o momento. Uma amiga até diz que os homens são assim mesmo, mudam de vez em quando. Acho que nós, mulheres, mudamos com mais rapidez, enquanto os homens passam por um ciclo bem maior até ficarem diferentes. Por isso causam surpresa. O Carlos conta a você que passou a querer usar minhas roupas de baixo, e até comprou uma cinta-liga pra gente transar? Não para mim, pra ele. Nossa, acho que se ele não te disse isso vai ficar muito emputecido comigo. Por favor, usa a sua ética de psicólogo aí e só aborda esse assunto estranho se ele falar, combinado?
O Carlos sempre foi uma pessoa tímida, digo, só reagia a mulher se era cantado, como aconteceu comigo. Eu acho que estou fazendo um grande favor a vocês dois, na verdade sendo prática, em escrever esse e-mail. Acho que deve ter coisa aqui que ele não relatou na análise, mas vai ajudar. Aliás, esse tratamento não termina nunca, né? Eu estou ajudando você, e quero também por favor que você nos ajude, dê um help no nosso casamento. Você quer fazer um trabalho muito bem feito? Então me conta se alguma outra mulher cantou ele, conta se ele ficou com alguém, me diz se ele está tendo outro relacionamento, se o meu marido Carlos me ama. Prometo que isso vai nos ajudar muito, e nunca mais vou escrever de novo. Mas você tem que me dizer, senão vou ficar mandando essas mensagens, porque não sossego até conseguir as coisas que realmente preciso, principalmente algo que vai salvar meu casamento. Digo salvar o casamento porque, é claro, não vou contar a ele o que você relatar aqui, mas vou agir diferente, de um jeito adequado para a situação. Eu não vou terminar com ele, de jeito nenhum! Sou dessas que sabem que um relacionamento tem cura. Não suporto traição, mas tenho certeza que ele faz por causa de um problema que está passando. Se você me falar agora que ele está vendo outra mulher, juro que não digo nada. Como ela é, e onde se conheceram? O Carlos está gostando dessa mulher? Você tem uma chance aqui de dar um rumo bom ao nosso casamento, aí vou saber que é um psicólogo bom e prático mesmo para ajudar o meu marido. Eu acho que se você disser que não, não vou acreditar. Também não tenho certeza se você vai responder a esse e-mail, mas sei que vai ler, e isso com certeza pode influenciar o tratamento. De um jeito positivo, eu espero. Eu amo muito meu marido, e tenho direito de saber o que acontece com ele. Se você responder, prometo que não vou mais incomodar.
Agradecida.

Re: Meu Marido
Prezada Elisângela,
Seu marido nada me relatou sobre os eventos mencionados. Proponho que vocês dois venham juntos ao meu consultório.
Atenciosamente,
Dr. Sabóia



Conto vencedor do encontro de 22/09/2017

Eduardo Villela nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Em 2015, foi finalista do concurso Brasil em Prosa, do jornal O Globo com a Amazon, com o conto "Genética". Tem contos publicados nas antologias de Verso e Prosa de 2015 e 2016 realizadas pela Oficina Literária Ivan Proença (OLIP) e participou, em 2016, da antologia O Eldorado é Aqui, de histórias sobre o estado do Amazonas. Seu primeiro livro de contos, "O Interesse pelas Coisas", saiu em fevereiro pela Editora Moinhos e está disponível no site da editora.


sábado, 26 de agosto de 2017

O livro do desassossego, de Fernando Pessoa

Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.

Descendo hoje a Rua Nova do Almada, parei de repente nas costas do homem que a descia diante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.

Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti por ele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelas pequenas alegrias e tristezas de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de se viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.

Desvio os olhos das costas daquele meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes – tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outro jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.

A sensação era exatamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme.Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta, é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta. 

Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sono. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo.

É um humanitarismo direto, sem conclusões nem propósitos, o que me assalta neste momento. Sofro uma ternura como se um deus visse. Vejo-os a todos através de uma compaixão de único consciente, os pobres diabos homens, o pobre diabo humanidade. O que está tudo isto a fazer aqui?

Todos os movimentos e intenções da vida, desde a simples vida dos pulmões até à construção de cidades e a fronteiração de impérios, considero-os como uma sonolência, coisas como sonhos ou repousos, passadas involuntariamente no intervalo entre uma realidade e outra realidade, entre um dia e outro dia do Absolto. E, como alguém abstratamente materno, debruço-me de noite sobre os filhos maus como sobre os bons, comuns no sono em que são meus. Enterneço-me com uma largueza de coisa infinita.

Mote vencedor para o encontro do dia 05/09/2017, lido por Eduardo Villela




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Tratado do uso das mulheres, de Rubem Fonseca


'Foi tudo uma coincidência'.
'Coincidências não existem.'
'Não existem?'
'Vá lá, existem. Mas não resultam em nada.'
'Um amigo meu estava andando numa rua da cidade e um infeliz resolveu se matar, pulou da janela de um prédiio e caiu em cima do meu amigo que passava. Os dois morreram. Não foi uma coincidência? Com resultado, trágico, aliás.'
'E você se chamar Francisco Nunes Correia é a importante coincidência que levou você a querer escrever esse livro?'
'É.'
'O nome do sujeito é Francisco Nuñes Oria. Não é Nunes Correia. Ele nasceu em mil quinhentos e tantos, na Espanha.'
'As coincidências podem ser plenas ou parciaisl. Eu também sou médico, como ele era. O tratado que ele escreveu é de 1572, o final do número do meu telefone.'
'Que coisa mais boba.'
'Coincidências parciais são muitas vezes mais importantes do que as plenas. E não se esqueça de que o tratado dele, como o que eu pretendo escrever, é um guia prático e higiênico sobre o coito. E isso hoje em dia é mais necessário do que em 1572.'
'E você tem que usar o mesmo título: Tratado sobre o uso das mulheres? Uso? Uso das mulheres?'
'Não sejamos hipócritas. O que os homens fazem com as mulheres na cama senão usá-las?'
'Então você me usa?'

'Digamos que eu me sirva de você, como se fosse uma iguaria. Ao praticar com você a introductio penis intra vas, eu te como, como dizemos muito apropriadamente em nossa bela língua.'
'Eu também te como. Você deveria chamar o seu livro de Tratado do uso das mulheres e dos homens.'
'Vocês mulheres dizerem que nos comem é um emprego novo desse vocábulo. Que digam. Mas a metáfora não é perfeita'.
'Quais são os temas que você pretende abordar?'
'Assim como o meu quase xará, farei inicialmente um levantamento dos estudos realizados no período compreendido entre o começo do século V e meados do século XV e de antes mesmo, pois os medievos se basearam muito em Galeno. Mas você quer saber quais são os t´picos. São variados. Por exemplo: de que maneira o uso das mulheres pode ser danoso ou proveitoso; como resistir às tentações da carne; os riscos higiênicos, os riscos dos excessos; o coito como uma atividade imprescindível para assegurar a saúde do corpo e da mente humanos. Tenho aqui cópias desses velhos tratados sobre o assunto. Por incrível que pareça ainda existem nos dias de hoje, não tão repressivos quanto na Idade Médica, preconceitos puritanos que condenam o prazer sexual'.
'Você vai perder muito tempo para fazer isso.'
(...)
'A igreja, no século XXI, ainda se prende, de certa maneira, aos ditames bíblicos sobre a necessidade de reproduzir, como está no Genesis, 1,28. Para esses fanáticos, indiferentes ao fato de viermos num mundo em que existe gente em excesso, o objetivo do coito seria a geração de novos seres. Mas a finalidade do coito deve ser o prazer. Não vou, portanto, ao contrário do meu antecessor, ensinar também a usar as mulheres para fazer filhos. Exatamente o oposto'.
'Porém, um dos tópicos mencionados por você é como resistir à tentação da carne. Não é um apelo á castidade?'
'Não, claro que não. Eu estou numa festa e uma mulher extremamente atraente me leva para o banheiro para que eu a coma. Estou morrendo de tesão por ela, mas não tenho uma camisinha comigo. Então tenho que resistir à tentação da carne'.
'Que festas são essas que você frequenta?'
'É uma situação hipotética.'
'Fala a verdade. Já aconteceu isso com você? Confessa, diga: aconteceu antes de eu conhecer você.'
'Aconteceu antes de eu conhecer você'.
'E você resistiu?'
'Não. É por isso que eu sei que a carne é fraca.'
'A mulher confiou em você. Mas você me disse que a regra de ouro nas relações sVocê vai ensinar uma coisa que não sabe fazer.'
'Não sabia.'
'Esse episódio do banheiro foi há muito tempo?'
'Há quanto tempo nos conhecemos?'
'Um ano, dois meses e vinte e dois dias.'
' Esse detalhe me deixa emocionado. Vinte e dois dias?'
' E seis, não, sete horas.'
'Eu devia casar com você.'
'Que merda, anda, fala logo, há quanto tempo você comeu no banheiro essa vadia sem preconceitos puritanos?'
'Uns dois, três anos.'
'Aids fica incubada por muito tempo, sabia?'
'Depois daquele comportamento imprudente fiquei muito preocupado e fiz um monte de exames.'
'Quero ver a data e o resultado do último.'
(...)

publicado no livro Contos para ler na cama, Record, 2005

Mote lido por Vivian Pizzinga para o encontro de 22/08/2017 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Os Miseráveis, de Victor Hugo




Ser bem-sucedido, eis o ensinamento que, gota a gota, vai caindo da corrupção que avança. Diga-se de passagem, o sucesso é algo bastante repugnante. Sua falsa semelhança com o mérito engana os homens. Para a multidão o sucesso tem quase o mesmo perfil que a superioridade. O sucesso, sósia do talento, tem quem se deixe lograr: a história. Somente Tácito e Juvenal rosnaram para ele. Hoje em dia uma filosofia quase oficial entrou em intimidade com ele, enverga sua libré e lhe serve de antecâmara. Ser bem-sucedido: teoria. Prosperidade supõe capacidade. Ganhe na loteria e será considerado um homem hábil. Quem triunfa é venerado. Nasça com sorte e pronto, o resto virá por si; seja feliz, e será visto como grande. Fora cinco ou seis grandes exceções, que fazem o esplendor de um século, a admiração contemporânea não passa de miopia. O dourado passa por ouro. Ser o primeiro a chegar não prejudica nada, desde que sejamos este primeiro.


(Mote lido por Gabriel Cerqueira para o encontro de 25/07/2017)


Victor-Marie Hugo foi um escritor, político e ativista francês. Nasceu em 26 de fevereiro de 1802 em Besançon. Considerado um dos maiores escritores da história da literatura mundial, Victor Hugo sempre fora hábil com as letras e escreveu diversas obras, como odes, romances e peças, desde a juventude. A maioria de seus escritos contém sérias críticas e reflexões sobre a sociedade francesa do século XIX; não é raro observar que suas tramas servem como planos de fundo para apresentar diversas questões sociais e existenciais. Victor Hugo ficou em exílio por quase duas décadas em Bruxelas por ser contrário ao governo de Napoleão III e apenas retornou ao seu país natal quando a república fora proclamada em 1870. Em 1871 se torna deputado e em 1876, senador, cargo que exerceu até sua morte em 22 de maio de 1885 decorrente de uma congestão pulmonar. Entre algumas de suas obras mais famosas estão O Corcunda de Notre-Dame (1831), Os Miseráveis (1862), Os Trabalhadores do Mar (1866).