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Mostrando postagens de Agosto, 2017

Meu Marido, de Eduardo Villela

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Olha, primeiro de tudo, quero deixar claro que não se trata de tentativa de interferir no tratamento. Ou terapia, análise, seja lá como vocês chamam isso. Mas se eu reparei que o Carlos mudou muito nos últimos meses, você também deve ter notado. É claro que reparou. Ou durante o tempo que passa aí deitado na sua sala ele finge ser outra pessoa, ou enquanto está falando não dá para notar, ou só percebe quem convive com ele diariamente? Me desculpa, mas se for isso mesmo, sinceramente não sei o que meu marido faz aí. Acho que um médico como você deve ter a sensibilidade de notar alterações no comportamento de um paciente, mesmo que essa pessoa seja muito diferente no consultório do que é na vida. Na verdade, sendo sincera mesmo, nunca acreditei muito nesse tipo de tratamento. Na minha família nunca teve isso. Mas voltando ao assunto, o Carlos realmente anda muito estranho. Cheguei a pensar que fosse influência da terapia, mas não tenho outra alternativa senão mandar esse e-mail bem grand…

O livro do desassossego, de Fernando Pessoa

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Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, parei de repente nas costas do homem que a descia diante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti por ele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelas pequenas alegrias e tristezas de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de se viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Desvio os olhos das costas daquele meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidam…

Tratado do uso das mulheres, de Rubem Fonseca

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'Foi tudo uma coincidência'. 'Coincidências não existem.' 'Não existem?' 'Vá lá, existem. Mas não resultam em nada.' 'Um amigo meu estava andando numa rua da cidade e um infeliz resolveu se matar, pulou da janela de um prédiio e caiu em cima do meu amigo que passava. Os dois morreram. Não foi uma coincidência? Com resultado, trágico, aliás.' 'E você se chamar Francisco Nunes Correia é a importante coincidência que levou você a querer escrever esse livro?' 'É.' 'O nome do sujeito é Francisco Nuñes Oria. Não é Nunes Correia. Ele nasceu em mil quinhentos e tantos, na Espanha.' 'As coincidências podem ser plenas ou parciaisl. Eu também sou médico, como ele era. O tratado que ele escreveu é de 1572, o final do número do meu telefone.' 'Que coisa mais boba.' 'Coincidências parciais são muitas vezes mais importantes do que as plenas. E não se esqueça de que o tratado dele, como o que eu pretendo escrever, é …

Os Miseráveis, de Victor Hugo

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