quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Diálogo, por Caio Fernando Abreu

(mote para o encontro de 06/12/2016)


Diálogo

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: È.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: È.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)

(lido por Vinicius Varela)


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Colo de Mãe, por Beatriz Moreira Lima

Quando puseram o bebê em seus braços, sentiu um misto de alívio e pânico. Finalmente, aquela criatura tinha saído de dentro dela; aquele alienígena que se instalara, contra a sua vontade, no seu ventre, fora expulso. Foram horas de um sofrimento excruciante, mas valera a pena. Só que agora o ser sanguinolento estava sobre seu peito e a plateia parecia esperar uma demonstração de amor materno. O tal amor incondicional. Não sentiu nada, apenas um pouco de repulsa por causa do sangue que ainda envolvia o recém-nascido. Chorou. Primeiro, timidamente; depois, aos soluços. A enfermeira tirou o bebê de seu colo, com ar de reprovação. Aleluia! Agora precisava planejar a sua fuga. 
Lucienny fugiu de madrugada. Sua mãe dormia em uma cadeira ao lado de sua cama, na enfermaria da maternidade. Nos outros leitos, três mulheres também dormiam, enquanto uma quarta gemia sem parar. Encontrou com facilidade suas roupas na sacola pendurada ao pé da cama. Foi um pouco mais difícil pegar o dinheiro da mãe. A coroa dormia agarrada com a bolsa. Mania de pobre... Por sorte, tinha o sono pesado e, com cuidado, conseguiu abrir um pouco o fecho éclair e enfiar a mão para puxar a carteira. Não havia grandes coisas, como era de se esperar, mas dava pra partida. 
No corredor, apesar da hora, o trânsito era intenso. Assim mesmo, não chamou a atenção de ninguém. Estavam todos muito absortos em seus afazeres e problemas. Na rua, ainda escura, o movimento já era grande. Pessoas, que mais pareciam zumbis, se deslocavam para o trabalho. Era preciso garantir o sustento da família, pensou. Apressou o passo e entrou no primeiro ônibus. Sentou-se no banco atrás do motorista e caiu dormindo. 
Quando acordou, no ponto final, o sol já ardia forte na manhã de dezembro. Demorou um pouco para se localizar no tempo e no espaço. Precisava desvencilhar-se da senhora que a acordara e que parecia pretender acompanhá-la. Estava bem, garantiu-lhe. Ótima! 
Sentiu o cheiro do mar. Estava entre as praias de Copacabana e Ipanema. Caminhou para o Arpoador. Sentia-se leve, quase ausente. Atravessou a faixa de areia e foi molhar os pés na água. Uma onda mais forte molhou seu vestido curto. Percebeu o sangue que escorria por entre suas pernas. Lembrou-se do bebê. Seu filho. Não parecia real. Não era mãe de ninguém. Mãe, era aquela que tinha ficado dormindo ao lado de seu leito no hospital. Imaginou o seu despertar. O desespero ao constatar a ausência da filha. 
De repente, uma fisgada no baixo ventre. O sangue manchava a areia. O sol batia forte na sua cabeça, de onde os pensamentos pareciam escapar, levados pelas ondas. Quando percebeu que estava tonta, que suas pernas fraquejavam, não teve tempo de sentar-se. Apenas caiu. Viu as nuvens no céu azul, sentiu a água do mar no seu corpo, teve saudades de sua mãe. Encolheu-se e abraçou as pernas. Dormiu, na esperança de acordar no seu colo.


Conto vencedor do encontro de 22/11/2016

Beatriz Moreira Lima nasceu em 1970, é funcionária pública, mas sempre gostou de escrever. Teve um filho em 1998, publicou um livro em 2008 (“Tempos Férteis”, editora 7 Letras) e até 2018 pretende plantar uma árvore para completar a sua minibiografia. Enquanto isso, frequenta o Clube da Leitura


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Minha Mãe, por Victor Giudice

"─ Uma vez você me disse que tia Adelaide e você eram duas bobas. Só você é que foi boba. Que é que pensa que ganhou, se trancando num quarto, com os olhos fechados para a vida? Se lembra quando você mandava eu rezar e dizia que rezava a noite inteira? Eu nunca rezei nem uma ave-maria sequer. Agora eu sei que é tudo mentira da grossa, já sei da missa a metade, que a única verdade é o prazer. Mamãe, eu sou uma pecadora, está ouvindo? Sua filha é uma pecadora.
Nenhuma resposta. No final do corredor, tia Adelaide arregalava os olhos para mim, com as mãos postas, como se implorasse o silêncio de Deus. Quanto mais ela suplicava, mais eu gritava. Mas não obtive resposta. De repente, eu encontrei a força que havia buscado por toda a vida e agarrei a maçaneta da porta de minha mãe com as duas mãos. A garganta de tia Adelaide desprendeu um não lancinante de tragédia grega e ela tentou me impedir com os mesmos dedos que se entrelaçavam aos meus. Não conseguiu. Quando a maçaneta girou, ela cambaleou e sumiu nos fundos da casa. Depois, com um mínimo de esforço, a porta rangeu discretamente e se abriu. Não vou tentar descrever as acrobacias de meu coração porque seria perda de tempo. O importante foi a visão inicial, ou seja, nada. Vi tudo e não vi nada. Os sentidos me revelaram suas singularidades. As imagens devem ser examinadas parcialmente até que se possa liberar a visão sobre o todo. No primeiro dia de aula, vi tanta coisa na escola que ao voltar não consegui contar nada a tia Adelaide. Hoje foi assim. Quando entrei no quarto de minha mãe as revelações foram tantas que a princípio não me foi possível registrar uma só. Depois minha atenção se voltou para duas almofadas de seda vermelha sobre a cama. Estão desbotadas e puídas, mas ainda se nota a perfeição do trabalho. Em cada uma delas minha mãe bordou três rosas em ponto cheio, com linha mercerizada, em tonalidades que vão do branco ao lilás. Entre os objetos amontoados sobre a penteadeira, destaquei uma caixa de madeira revestida de malacacheta, com incrustações de pequenas contas verdes nas arestas da tampa. Algumas já se desprenderam. Dentro, descobri uma confusão de dedais enferrujados, um ovo de madeira para cerzir meias, agulhas de crochê de diferentes tamanhos e três tesourinhas Vitry, uma em perfeito estado. As paredes estão forradas com um papel listrado, cujas cores não se distinguem mais. A madeira da porta do banheiro deve ter sido laqueada de azul. Ainda se percebe a tinta nos pontos que não descascaram. Mas o que mais me impressionou foi uma camada de poeira muito fina que cobre todos os objetos, insuficiente para corromper a alma das coisas e que, ao contrário, confere-lhes uma dignidade secular. Entendo agora a respeitável função da poeira. De alguma forma ela se liga à ausência, um fenômeno absolutamente venerável. Há ausências grandiosas, outra noção que aprendi hoje. Na hora, um calafrio me percorreu o corpo. Eu tinha nas mãos um carretel vazio, quando me dei conta de que o quarto estava tão vazio quanto o carretel. Mas não virei o rosto, para não deixar que meus olhos materializassem a ausência. Era preciso senti-la. A grandeza da ausência de minha mãe foi o fato mais comovente de minha existência. Nenhum outro será parecido. Minha mãe, cuja voz eu ouvira pela manhã, durante a discussão com tia Adelaide, se fora. Não houve necessidade de explicações. Minha mãe não estava nem estaria jamais naquele quarto onde ficara toda a vida, e muito menos em outro lugar qualquer. Simplesmente havia partido, como partem os dias e os anos. Dali em diante, sua ausência definitiva se tornaria viva. E presente. Próxima à penteadeira vislumbrei a máquina Singer, antiquíssima, onde ela bordava. No tampo, debaixo da agulha, dois bastidores prendiam uma colcha inacabada. Eram as mãos de branquíssima que os guiavam através dos caminhos de carbono que tia Adelaide e eu copiávamos. Recolhi o linho derramado em pregas sobre o tapete e o estendi sobre a cama. Pela última vez, não vi o tecido, mas sim flores e folhagens inexplicáveis, entrelaçadas em ramos ondulantes que não brotavam de planta alguma. Súbito me lembrei de que as melodias de Francisco também não brotavam de parte alguma e, no entanto, eram belas. O prazer é belo mas não é tudo. Naquele instante a ausência de minha mãe era tudo. Senti uma infinita pena por não poder dizer a ela que eu ainda não sabia da missa a metade."
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(mote para o encontro de 22/11/2016, lido por André Salviano) 


Trecho do conto “Minha mãe” (p. 39-41), de Victor Giudice, publicado no livro Salvador janta no Lamas (José Olympio, 1989), premiado em 1989 como O melhor da ficção pela APCA. Victor Giudice foi um grande contista além de crítico, músico e professor. Nascido em 1934 e falecido em 1997, surge no boom do conto brasileiro nos anos 70 com Necrológio (Edições O Cruzeiro, 1972), “O arquivo” conto que faz parte desse livro foi publicado em 8 países: Estados Unidos, México, Argentina, Nicarágua, Colômbia, Bulgária, Polônia, Alemanha e Tchecoslováquia, e incluído na coletânea Os cem melhores contos do brasileiro do século (Objetiva, 2001), organizado pelo Ítalo Moriconi. Seu último livro de contos O Museu Darbot e Outros Mistérios (Leviatã, 1994) ganhou o Prêmio Jabuti de 1995 na categoria contos. Além dos contos publicou dois romances: Bolero (Rocco, 1985) e O sétimo punhal (José Olympio, 1995), e deixou o inacabado Do catálogo de flores, falecendo antes de completar a obra. Para saber mais sobre o autor e sua obra é só acessar a página. 


terça-feira, 1 de novembro de 2016

O triunfo da cor

O triunfo da cor, por Carmen Belmont

Ele era magro e tinha uma cabeleira ruiva, o que lhe valia mil apelidos na escola. Cabeça de fósforo. Cenourinha. Labareda. Curupira. Diabo-da-tasmânia. Salsicha. Como ninguém jamais levantou o assunto bullying, ficou apenas o registro na memória de algumas brincadeiras bobas de criança, sem maiores traumas. A juba vermelha só chegou a incomodar um pouco porque não podia participar de nenhuma bagunça sem ser pego, pois era sempre o primeiro de quem os inspetores e professores se lembravam. Quem mandou ter uma característica tão facilmente identificável como aquela? Se bem que era calmo – apesar da inquietude interna que o fazia tamborilar em qualquer coisa, de paredes a cadernos – e não costumava se meter em encrencas. Pelo menos não em encrencas desse tipo.

A verdade é que ir à escola não lhe interessava muito, a não ser pela possibilidade de zoar com os amigos nos intervalos das aulas. Passava a maior parte do tempo calado e sonolento, ou batucando em tambores invisíveis ou moscando na última fila, ou então sonhando com seus mundos faz-de-conta invariavelmente cheios de jovens heróis lutadores, saídos de algum mangá japonês. Claro que isso não ajudava nos exames, então notas baixas e constantes comparecimentos dos pais à escola eram inevitáveis.

A sua falta de interesse parecia exasperar a todos, embora ele não fizesse ideia do porquê, pois vivia muito bem consigo mesmo, obrigado. Tanto conversaram e fuçaram o seu suposto “problema” que concluíram que ele tinha um tal de transtorno de deficit de atenção, que ele tratou logo de chamar de “meu DDA-zismo”, a fim de poder assumir de vez o personagem. Daí se sucedeu a peregrinação aos médicos e psicólogos e o calvário dos remédios que não adiantavam nada, só serviam para deixá-lo atordoado e preso a um corpo indolente, como se não fosse ele que estivesse ali.

Como não houve fórmula ou tratamento que resolvesse, o jeito foi ir em frente assim mesmo, de cara limpa, aos trancos. Ele adolescia normalmente em meio aos seus pares, que nem eram tão diferentes assim, já que cada um tinha a sua própria inadequação para lidar. Aprendeu a tocar bateria e a gostar de rock ‘n’ roll e de videogames. Arte, só se fosse música agitada ou cinema, não tinha paciência para livros ou pinturas. Filmes e videoclipes eram sempre bem-vindos, conteúdo digital da Internet também. O celular tornou-se um item tão indispensável quanto os poucos amigos inseparáveis.

Naquela tarde, a turma iria sair para visitar uma exposição de pinturas. Ele gostava de atividades externas, afinal eram bem mais divertidas do que as de sala de aula. Continuava sendo bom, apesar da lembrança nada agradável daquele passeio a um centro de recreação juvenil, uma espécie de sítio localizado nos arredores da cidade, onde ele tinha sofrido uma repentina crise de asma. Ainda bem que um dos pais acompanhantes era médico e o socorreu. No final, depois do susto, ficou tudo tranquilo. Bem, mas o que poderia acontecer agora? O lugar era na cidade mesmo, e, depois, já fazia tempo que as crises não apareciam, vai ver tinham sumido de vez.

A exposição trazia quadros de dois famosos museus europeus, apresentando artistas chamados de pós-impressionistas que, conforme a explicação dada aos estudantes, revolucionaram a forma de pintar por meio do triunfo da cor. Ele não entendeu bulhufas: ué, mas todo pintor não usa cores? Por que para aqueles ali as cores eram mais valorizadas do que para os outros? 

Desistiu de tentar acompanhar aquele blá-blá-blá sem sentido algum para ele e observou a primeira tela em frente da qual estavam reunidos, em um espaço isolado: flores meio amarelas em um vaso de cobre sobre um fundo azul. Era bonita, mas ele não ficou assim tão impressionado; até achou as plantas meio esquisitas, talvez porque parecessem vivas através da explosão de cores ou algo assim – pelo menos foi o que ouviu vagamente a professora dizer. 

O grupo se moveu adiante para um salão maior e com mais quadros. Ele os seguiu sem pressa, bem lá atrás. De repente, sem saber por que, deu vontade de ver novamente aquelas estranhas flores que pareciam ter pequenos tentáculos, por isso decidiu voltar.

Foi então que a viu. Ela estava lá sozinha, parada. Cabelos negros amarrados num rabo-de-cavalo, celular nas mãos sobre o peito, contemplando a pintura, como se estivesse em transe. Ele não se atreveu a chegar mais perto; apenas esperou.

Quando finalmente ela desviou o olhar e pousou os marejados olhos de um azul translúcido nos dele, aconteceu:

(Dois pontos)



(Conto vencedor lido em 01.11.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)







terça-feira, 25 de outubro de 2016

Só Garotos, por Patty Smith

 No ano seguinte, meu pai nos levou para uma rara excursão ao Museu de Arte de Filadélfia. Meus pais trabalhavam duro, e levar quatro crianças de ônibus até Filadélfia era algo exaustivo e caro. Foi o único passeio que fizemos com a família toda, marcando a primeira vez em que fiquei cara a cara com a arte. Senti uma espécie de identificação física com os esguios e lânguidos Modigliani; fiquei comovida com os temas elegantes e tranquilos de Sargent e Thomas Eakins; ofuscada com a luz que emanava dos impressionistas. Mas foram as obras de uma sala dedicada a Picasso, dos arlequins ao cubismo, que me penetraram mais fundo. Sua confiança brutal me deixou sem fôlego.
Meu pai admirou o virtuosismo do desenho e o simbolismo das obras de Salvador Dalí, mas não viu nenhum mérito em Picasso, o que levou à nossa primeira desavença séria. Minha mãe ficou ocupada cercando meus irmãos, que deslizavam pelo piso liso de mármore. Tenho certeza de que, enquanto descíamos a grande escadaria, eu parecia ser a mesma de sempre, uma menina embasbacada de doze anos, toda braços e pernas. Mas secretamente eu sabia que havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.

(Mote lido do Marcio Couto para o encontro de 01/11/2016)







sábado, 22 de outubro de 2016

Trump e seu trompete, de Fernando Andrade

Trump morava numa pocilga perto Da rua do Lavradio, cujo nome do lugar lembrava algo que coça bastante. Hotel Pulga. O nome do dono era Homero Pulga Jacinto. Todo dia ao subir as escadas Trump via a palavra do nome da rua rabiscada no corrimão da escada. Lavradio.
Tinha alguma mania por palavras rabiscadas, depois claro das palavras cruzadas.
Alguém, talvez algum vizinho tinha colocado à faca, talhado na madeira do corrimão a seguinte mensagem talvez a ele que saía de noite para tocar.
Lavra o seu trompete. Rá Rá Rá.
Trump tocava no quarto. Ele na verdade ensaiava para o show depois da meia noite num Night show ali perto da rua do Livramento. Ele trump, gostava muito do seu trompete. Tocava com a boca igualzinha do Miles Davis. Ele tinha por hábito tocar em surdina porque achava que o som do instrumento era lascivo. O hotel era mal afamado, com uma clientela perdida num filme a lá David Lynch. Ele não queria fazer trilha nenhuma para qualquer tipo de trama a ser implantada naqueles corredores mal iluminados e que por penúria só tinha um banheiro comunitário. Já diziam seus colegas músicos que tocavam com ele, Trompete é coisa demoníaca. Parece um vagido saído de uma tristeza dodecafônica.
Trump um dia-noite estava na sua poltrona com o seu trompete num banquinho, repousado, quando ouviu um urgido ou talvez um mugido como se houvessem colocado ali um boi no hotel pulga. Ele saiu do quarto e olhou idoneamente para os dois lados do corredor. O som do mugido parecia que vinha do apartamento do seu Homero. Ele já com certa lassidão resolveu subir as escadas que levavam ao último andar. Chegou bem perto e resolveu voltar e trazer seu trompete. Aquilo parecia vir de um (a) trompeta. Ou uma corneta. Do tipo que se toca em estádios de futebol. Já era quase meia noite. O show era pontual como uma pulga que radiografa um palco e suas coceiras. Dali começou um solo de jazz a lá Davis com Marcus Miller, alegro ma non tropo. Aquilo parecia um tanto flamenco. Homero abriu a porta e perguntou o que o senhor está fazendo aqui? Trump. Eu vi ou melhor ouvi um ruído vindo daqui? Sim, ouviu, é minha esposa. E o que ela está fazendo? Pegando folego ou resfolegando. E Trump, pesaroso, não sabia onde enfiar o seu trompete. Vou lavradiar essa noite na sua conta. Seu estropício!
Trump saiu para o seu Night show.
Trompeta - Significado: Indivíduo desprezível, velhaco, sem préstimo.
Indivíduo que acaba com o prazer do outro, desmancha prazeres.

Trompete – significado: É um instrumento musical da família dos metais que se caracteriza por instrumento de bocal e feito de metal. Usado em diversos gêneros musicais principalmente o jazz e o clássico.

Trump – Indivíduo falastrão que curte bisbilhotar a vida alheia.

(Conto lido no encontro de 18/10/2016)


Fernando Andrade, 48 anos é jornalista. e poeta.trabalhou por 10 anos como livreiro.  Foi auxiliar de acervo na Biblioteca parque. Colabora com resenhas de cinema literatura e musica para site Ambrosia. Tem dois livros publicados de poesia pela editora oito e meio: Lacan por Câmeras Cinematográficas  e Poemometria. Participa do Clube da leitura tendo um conto na coletânea volume 3.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A vida secreta dos ácaros, de Poliana Paiva

Minha irmã me denunciou prum programa de tv a cabo que denuncia pessoas que, segundo a opinião deles, são acumuladoras, ou seja, pessoas que, segundo a definição deles, possuem mais coisas do que necessitam. Aí eu pergunto: quem são essas pessoas que acham que sabem o tanto que as outras devem possuir? Qual o problema de eu ter um quarto só pros meus discos de vinil? E outro só pras fitas de vídeo? E daí que hoje em dia tem tudo em mp3, no netflix ou na nuvem? E se a nuvem e a internet e todas essas mídias pouco palpáveis um dia sumirem do mapa, quem vai poder ouvir 'the dark side of the moon' tranquilona? Quem, meus caros? O pessoal da tv a cabo é que não vai ser!

Quando minha irmã soube que eu fiquei indignada com o que ela chamou de convite mas que na minha terra se chama coersão, ela ficou perplexa. Disse que era uma chance em mil ser escolhida prum programa como aquele, que era por isso que eu estava encalhada, que homem nenhum aguenta aquela quantidade de ácaro no ambiente e que isso e aquilo e aquilo outro. Teve uma hora que eu coloquei o celular no viva voz e fui cozinhar. Cozinhar me acalma, me deixa solta. Tem gente que fuma maconha, não tem? Eu cozinho. Cada um com seu cada qual, tudo certo. Menos pra minha irmã, naturalmente. Pra ela nada é tão certo assim. Outro dia reclamou de eu ter 20 caixas de 50 unidades de sabão em pó dentro do meu quarto. A criatura é funcionária pública e não entende as agruras do freelancer. O freelancer não pode ver uma promoção, ainda mais se for de itens não perecíveis. Compro tudo, não nego, pago no débito. Pensa que minha irmã entende isso? Nada. Só quer saber de falar no meu ouvido. Outro dia disse que meu guarda roupa era irreal. Ela me vem com um tênis fluorescente e uma meia até o joelho por cima de uma legging me dizer isso? De onde ela tirou tanta audácia? E daí que eu tenho vestidos que não me servem há 20 anos? Quem garante que eu nunca mais vou emagrecer? Já olhou minha despensa pra ver quantas caixas de diet shake com validade prolongada tem lá? Não olhou. E, sinceramente, nem quero que olhe, vai ser mais um motivo pra me chamar de acumuladora.

Agora a mania mais nova dela é querer que eu troque meu colchão. Um colchão onde eu perdi minhas duas virgindades, um colchão que abrigou surubas de gente que já foi famosa e que hoje só faz programa de denúncia a supostos acumuladores na tv a cabo. Um colchão épico. E daí que microorganismos moram nele? Prefiro microorganismo a gente chata. Gente que não tem mais o que fazer do que prestar atenção nos hábitos dos outros. Gente que acha que tudo tem que postar no facebook. Gente que recicla lixo mas acumula pensamento negativo. Gente que fala gratidão e que não toma mel porque o mel incorre em sacrifício animal. Gente cansativa. Prefiro gente que vem aqui em casa e, mesmo reclamando que na hora de dormir não dá pra esticar os pés sem bater nas caixas de sabão em pó, comparece direitinho no meu colchão. Gente que não reclama de comer pão de forma que tava na promoção com mel de abelha. Gente que não me irrita. Pensando bem, é até melhor que minha irmã não saiba o que os ácaros da minha cama têm pra contar. Eu ia ter de ouvir um rosário sobre doenças sexualmente transmissíveis e casos de estupro a mulheres que moram sozinhas e dão a esmo.

Agora, sem brincadeira, esse papo todo me deu uma espécie de epifania. Para aqui pra refletir comigo: quem sabe essa não é uma boa ideia prum programa?

A vida secreta dos ácaros.

Taí. Vou ligar pra minha irmã agora pra ver se ela dá essa ideia pra moça que ela conhece que trabalha na tv a cabo. Se rolar mesmo uma produção dessas, super topo dar uma entrevista. Mas com uma condição: que a equipe venha sem celular, que nasci na década de 70 e não tenho mais colágeno nem cabelo ao vento pra ir parar no insta de gente jovem reunida. Gente que no lugar da parede da memória, tem o snap do esquecimento.

Gente que eu, sob o olhar de meus vinis e minhas vhs, respeito, mas não entendo.

(Conto vencedor do encontro de 18/10/2016)

Poliana Paiva é formada em Cinema pela UFF e em Teatro pela CAL. Roteirista e atriz, já fez programas de auditório, de revista e de ficção, além de ter escrito e dirigido 4 curtas. Tem um canal no Youtube 'Tudo sobre Jasmine', onde escreve, atua e dirige. Há alguns meses, vem fazendo participações em esquetes do Porta dos Fundos.


sábado, 8 de outubro de 2016

Herzog, por Saul Bellow

 Se estou louco, tudo bem para mim, pensou Moses Herzog.
Algumas pessoas achavam que ele não estava regulando bem e por um tempo ele mesmo tinha questionado a sanidade. Mas agora, embora continuasse se comportando estranhamente, sentia-se confiante, animado, clarividente, forte. Em estado de graça, estava escrevendo cartas para todo mundo sob o sol. Estava tão agitado por essas cartas que, desde o final de junho, ia de um lugar para o outro com uma valise cheia de papéis. Tinha carregado essa valise de Nova York a Martha’s Vineyard, mas voltara de Vineyard imediatamente; dois dias depois voou para Chicago, e de Chicago foi para um vilarejo no oeste de Massachusetts. Escondido no campo, escreveu incessantemente, fanaticamente, aos jornais, a pessoas na vida pública, a amigos e parentes e, por último, para os mortos, para seus próprios mortos obscuros e finalmente para os mortos famosos.
Era o auge do verão nos Berkshires. Herzog estava sozinho no velho casarão. Normalmente cheio de caprichos em matéria de comida, agora ele comia pão de fôrma Silvercup, feijão enlatado e queijo americano. De quando em quando colhia framboesas no jardim coberto de mato, erguendo os ramos espinhentos sem muito cuidado. Quanto ao sono, dormia num colchão sem lençóis — era sua cama de casal abandonada — ou na rede, coberto por seu casaco. Capim barba-de-bode bem alto e mudas de alfarrobeira e de bordo se espalhavam pelo terreno em volta. Quando abria os olhos à noite, as estrelas estavam próximas como corpos espirituais. Fogos, evidentemente; gases — minerais, calor, átomos, mas eloquentes às cinco da manhã para um homem numa rede, enrolado em seu casaco.
Quando algum novo pensamento se apossava do seu coração, ele ia para a cozinha, seu quartel-general, para passá-lo para o papel. A tinta branca das paredes de tijolo estava descascando e Herzog às vezes limpava cocô de camundongo de cima da mesa com a manga da camisa, perguntando-se calmamente por que motivo os camundongos tinham tamanha paixão por cera e parafina. Eles faziam buracos nas compotas lacradas com parafina; roíam até o pavio as velas de aniversário. Um rato cavou um túnel num pacote de pão de fôrma, deixando um molde do seu corpo nas fatias. Herzog comeu a metade que sobrou, lambuzada de geleia. Era capaz de compartilhar com os ratos também.

Enquanto isso, um canto da sua mente permanecia aberto ao mundo exterior. Ouvia os corvos pela manhã. Seus gritos estridentes eram deliciosos. Ouvia os tordos ao anoitecer. À noite havia uma coruja. Ao caminhar pelo jardim, excitado por uma carta mental, via rosas se enroscando na calha de chuva; ou amoras — os pássaros se fartando na amoreira. Os dias eram quentes, as noites afogueadas e poeirentas. Ele olhava para tudo com vista apurada, mas se sentia meio cego.

(mote vencedor lido por Marcio Couto no encontro de 04/10/2016)


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

CARTA ABERTA A ANDREA, por Poliana Paiva

Estudamos juntas e juntas fomos aos shows do Menudo do Tremendo da Blitz do Tim Maia. Pedíamos mão de pipoca no circo voador porque não tínhamos grana pra nenhuma guloseima. Tudo que não fosse a cervejinha - pésima, diga-se de passagem, mas que naquela época descia maravilhosamente bem, afinal, era cerveja - para nós era superfluo.

A vida foi nos separando naturalmente, cada uma prum canto. Não tinha facebook, celular, bipe nem nada, só tinha mesmo o obsoleto aparelho fixo, hoje responsável somente por telefonemas para os mais idosos, ligações de bandidos afirmando estar de posse de sua filha e telemarketing de quinta categoria. Mas, há 25 anos, o telefone era particularmente importante, pois foi justamente através dele que eu soube como você, minha querida Andrea, a quem não via há um ano, estava passando. Cheguei em casa depois da aula de jazz - por jazz, leia-se dança praticada com polainas, collants cavados e sapatilhas, quase sempre ao som de Frankie goes to Hollywood - e vi um bilhetinho que informava que você estava muito doente e que bom seria se eu fosse te ver logo. Sua mãe deixou o recado. Não dormi a porra da noite toda. Você durou quatro meses e, em todo esse tempo, fui te visitar duas vezes apenas. Lembro de algumas amigas em comum ligando dizendo que tínhamos pouco tempo pra nos despedir e que não dava pra esperar tanto entre uma visita e outra. Mas eu as enganava - e a mim mesma, naturalmente - dizendo que na semana que vem, depois das provas, eu daria um jeitinho.

Passou-se um ano e recebo outra ligação de sua mãe, a danada tinha encontrado um cartão que você esqueceu de me mandar, datado do natal do ano anterior de sua partida, onde estava escrito: “Por mais que a gente cresça, seremos sempre aquelas meninas comendo sufflair no banco da Praça Afonso Pena, olhando os meninos bonitos que passam.”

Outro dia voltei à Afonso Pena, onde até hoje moram meus pais. Comprei um sufflair e comi em sua homenagem, mas preciso que você saiba, amiga, os meninos bonitos cresceram e você não gostaria de ver no que eles se transformaram. Enquanto comia o sufflair - uma novidade estonteante naquelas priscas eras, lembrei que gostávamos dele porque tinha ar dentro. Ser aerado naquele tempo era uma coisa muito avant garde prum mero chocolate.

Aerado é o que tem ar dentro.

Talvez ali morasse todo o simbolismo de nossa amizade. O vento é feito de ar. A vida é sopro. E foi muito bom nossos sopros terem se cruzado por 21 anos.

Acho que ali me perdoei por não ter ido te ver mais vezes quando estavas partindo.

O perdão mais difícil é da gente com a gente mesmo.

Obrigada, amiga.


PS: Troquei a Praça Afonso Pena pela São Salvador, que, a propósito, está na boca do povo. Mas isso te conto depois.


(Conto vencedor do encontro de 04/10/2016)

Poliana Paiva é formada em Cinema pela UFF e em Teatro pela CAL. Roteirista e atriz, já fez programas de auditório, de revista e de ficção, além de ter escrito e dirigido 4 curtas. Tem um canal no Youtube 'Tudo sobre Jasmine', onde escreve, atua e dirige. Há alguns meses, vem fazendo participações em esquetes do Porta dos Fundos.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Previsível

Previsível, por Carmen Belmont

Cocoricó. Por incrível que pareça, havia um galo no coração da cidade. Devia ser da loja de aves vivas no pé da ruela que subia o morro. A rouca insistente cantoria começava às quatro da manhã e se estendia até o sol nascer, ah, que vontade de esganar esse galo desgraçado! Mas na impossibilidade de sair de pijama correndo pelas madrugadas, acabou se acostumando ao ruído incômodo. E só se mexia mesmo quando ao som insólito se juntava o do despertador anunciando o dia.

Ela não tinha a menor graça. Ou tinha, mas era cuidadosamente abafada por um jeito de ser comum e previsível. Acordava cedo, arrumava-se sobriamente e ia para aquele escritório, igual a tantos outros, desempenhar suas burocráticas tarefas com a maior correção possível. Era polida, reservada e discreta o suficiente para ter conquistado um lugar no gabinete da diretoria. Não faltava. Não se atrasava. Não se metia na vida alheia. Não ria alto. Não.

Tão certinha por fora. Mas ela sabia, havia uma insanidade à beira de. Como quando naquela vez em que todo mundo foi embora e ela ficou sozinha no escritório. As câmeras estavam sendo trocadas, os olhos de vidro apagados, vazios. Finalmente tinha terminado de cumprir o encargo de enviar por e-mail aquele relatório imprescindível para a reunião de amanhã cedo – ufa! Desligou o computador e arrumou a sua mesa, como sempre fazia. A dela era mais uma no sem fim de fileiras e baias separadas por semidivisórias de vidro, como num aquário, dispostas de um lado e de outro de um corredor principal, cujas luzes de sinalização eram as únicas acesas a essa hora.

Que horas seriam? Dez? Onze? Droga, esqueceu-se de ver no computador antes de apagar. Com a bateria do celular morta e nenhum relógio imediatamente à vista, ficava difícil adivinhar, mas as luzes lá fora atestavam: já era bem tarde. Todos os elevadores estavam desligados, restando apenas um no saguão principal, que ficaria funcionando a noite toda para algum possível workaholic retardatário. Os vigilantes noturnos iriam fazer a ronda no meio da madrugada, para se certificar de que as portas estivessem trancadas e luzes e máquinas desligadas a contento. Mas ainda iria demorar um pouco até que eles aparecessem por ali.

Foi aí que veio aquele pensamento estranho. É, não havia ninguém! O escritório imenso e morto era todinho dela, o que significava que poderia fazer o que bem entendesse naquele momento. Nenhuma ordem para cumprir, ninguém para observar, criticar ou encher o saco. Esse pensamento sacudiu-a com uma excitação travessa, provocando um arrepio deliciosamente suave que percorreu seu corpo. 

Hum...olhou para cima, calculando se os alarmes de incêndio estavam funcionando, será que poderia fumar? Para não arriscar, abriu a janela. Pegou um cigarro do maço escondido na gaveta, sentou-se colocando as pernas sobre a mesa, acendeu o rolinho elegante e deu um longo trago bem devagar, saboreando a brisa que entrava sacudindo levemente as persianas semicerradas. Ficou assim recostada por alguns minutos, fumando e acompanhando a fumaça subir em voltas na penumbra, levada pelo vento em direção à janela. 

Olhou para as suas pernas, achou que ficaram mais bonitas usando aquele belo sapato de salto. Olhou para a sala espaçosa do chefe, a única com paredes opacas e banheiro privativo, que estava aberta, pois não se costumava trancar as portas internas – só se fazia isso com as duas últimas portas de madeira e vidro que davam para o hall do elevador. Levantou-se e foi até o banheiro. Segurando o cigarro entre os lábios, prendeu os cabelos no alto da cabeça e desabotoou a blusa branca, pendurando-a no cabide. Tirou a saia e a lingerie, voltando-se para o espelho aprovadoramente. 

Respirou fundo e pisou resoluta o carpete verde, desfilando com o cigarro nas mãos. Rodopiou nua pelos quatro cantos da sala, como num balé invisível. Uma vez na cadeira do chefe, sacou os sapatos, colocando-os bem em cima daquela pilha importante de documentos, dando risadas. E agora, gostaram?  – disse para os retratos de família que estavam perfeitamente enfileirados em molduras prateadas.

Saiu da sala e assim, alegre e afogueada, foi zanzando entre as mesas e armários, ora cantarolando, ora fazendo caras e bocas, ora trepando nos móveis. Ah, é, de repente lembrou-se daquela perua que a detestava. Procurou o local onde a outra trabalhava e se sentou sobre os papéis, desarrumando toda a mesa da fulana, abrindo bem as pernas: olha isso, tá vendo? Sou bem mais gostosa que você! E então deitou-se languidamente e soltou uma gargalhada histérica até não ter mais fôlego.

No dia seguinte, de manhã, uma bela mulher de vermelho entrou no escritório. Boquiabertos, os colegas a observaram, enquanto ela tomava seu lugar à entrada do gabinete da diretoria.



(Conto lido em 04.10.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio, um dos premiados em 2o lugar)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Jair, por Poliana Paiva

Muito embora seja filho da união estável de duas mulheres hoje com 65 anos, Jair sempre foi um sensível de fachada, desses que leram Simone, gostam de Mc Carol, aplaudem o protagonismo feminino mas na hora do vamo ver, na hora que o cinto aperta, que a vontade é destra, vão lá e destilam sua condescendência auto-imune.

Jair tem pau grande. E grosso. Dizem as boas línguas que se trata de um pau hábil e expressivo. Um pau democrático. Até a página dois, naturalmente, afinal, uma coisa que Jair nunca assume é sua preferência pelo padrão. Jair beija a loira de barriga negativa no chorinho de domingo de manhã na praça lotada e a mulata gorda nos cantos escuros do baile funk, onde, disfarçado de burguesia folclórica, pode abrir seu coração e ser ele mesmo.

No fundo Jair queria era poder dizer aos quatro ventos que mulher, se não tivesse boceta, ele não dava nem bom dia. Mas isso pegaria muito mal e faria com que ele passasse aperto com as intelectuais que gosta de seduzir e que, ou serão por ele comidas, ou lhe apresentarão alguma nova gatinha gratidão-mantra da lua-oficina de bambolê.

Para caras como Jair, não importa o que se sente. Importa o que se pensa que se sente. E o que se mostra. E o que se posta no face, no insta, no twitter e no snap. Jair vive de imagem. Jair pensa que é scanner.

Resta saber o quão pobre ficará Jair na hora exata que sua bundinha jiu-jitsu cair.

(Conto lido no encontro de 20/09/2016)

Poliana Paiva é formada em Cinema pela UFF e em Teatro pela CAL. Roteirista e atriz, já fez programas de auditório, de revista e de ficção, além de ter escrito e dirigido 4 curtas. Tem um canal no Youtube 'Tudo sobre Jasmine', onde escreve, atua e dirige. Há alguns meses, vem fazendo participações em esquetes do Porta dos Fundos.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Mote do encontro (04/10/ 16)



Mote lido por Daniel Russell Ribas

Um dia toparei comigo





O telefone tocou às sete da manhã e eu cambaleava do sono que não dormi. Confesso que fiquei satisfeita: a coordenadora da clínica queria me tranquilizar. A tranquilidade significava meu pai converso em vegetal sobre a cama, oxigênio a mil, dedos a necrosar, tosto de cera adivinhando o próximo habitat. Ora desperto, ora adormecido. Sim, a intermitência das coisas brutas e serenas retornara em grau máximo.
Novamente os vivos e os mortos povoavam seu quarto. Ele indicava um ponto na parede e lá residia a escola da infância, onde parentes preparavam seu desenlace. Esta era sua. Desenlace. Mas não era a única palavra a nos vexar. Havia todo um vocabulário misto de invenção e memória, o qual penávamos para decifrar: “hecatombe” não era problema, apenas reflexo de nossa pobreza de linguagem, mas “sorvete de gliche” gerava angústia, pois não havia mais pulmão para nos esclarecer. Aguardávamos entre uma respiração e outra, a busca calma de alguém que sempre soube dominar: uma golfada, o breve armazenamento do ar, o tempo de recuperação do cérebro para organizar ideias e conter o fôlego que lhe resta, e tudo precisava ser rápido, pois em segundos a máquina-homem necessitaria novamente de outra golfada e mais outra, e nesse intervalo mínimo teria de encontrar as palavras certas para explicar o que talvez fosse demasiado simples, sorvete de gliche é assim: gliche, morango e gliche.
Era nítido. A melhora passara e, desse momento em diante, restou a agonia da espera. A espera daquilo que aguardávamos há meses.
A enfermeira, ao telefone, repetiu a missa, com a constância de quem mantém uma clínica de viver e morrer idosos: pode ser hoje ou amanhã, ou quarta-feira o mais tardar.
Saí de casa imediatamente, atabalhoada, corri o mais que pude para tomar sua mão e dizer-lhe, se ainda era tempo, não eu não estava segura de nada, muito menos de ter jogado o remédio contra câncer no lixo, de ter gritado àquele médico bufão que eu bancaria a eutanásia de meu pai.
Foi ele, o médico, quem disse essa palavra pela primeira vez. Eutanásia. Eu sabia o que significava. E não era aquilo. Não era bem aquilo. Mas quem conhece o significado das palavras todas?


FÁBRIO, Paula. Um dia toparei comigo. Rio de Janeiro: Editora Foz, 1ª edição, 2015.




Paula Fábrio nasceu em 1970. É mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade de São Paulo. Desnorteio [Ed. Patuá], seu primeiro romance, foi Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, na categoria estreante. Seu novo livro, Um dia toparei comigo (Foz), é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e recebeu a bolsa de criação ProAC - Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Se Deus quiser

Se Deus quiser, por Carmen Belmont


“Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio.”
Rita Lee, in ‘Baila comigo’.


Ele não era um sujeito muito eloquente, mas isso nunca tinha sido um problema perto dos outros tantos na sua vida de menino de periferia. O que lhe faltava em palavras sobrava em resistência: crescera, como todo garoto nessa condição, apesar da pobreza, do descaso e devidamente vacinado contra as adversidades. Mal completara os estudos básicos, porque desde cedo já trabalhava para ganhar uns trocados e ajudar a mãe a alimentar as três bocas que o pai bêbado abandonara ainda pequenos. Mas tinha fé e era calmo e tenaz, de modo que não sofria pelo passado nem reclamava do presente. Quanto ao futuro, tentava fazer a sua parte para que fosse melhor, se Deus quiser.

Tinha encontrado Nícia em uma festa junina, uma daquelas em que ele fora mais por insistência dos amigos do que por outra coisa. Tá certo, também aceitara ir porque sabia que poderia ficar em paz vendo o vaivém das garotas sem ser incomodado, já que todo mundo logo se desgarrara da turma para se ocupar em conseguir alguma atenção feminina. Ele sabia dançar, mas não tinha a menor pressa. Comprara uma cerveja e arranjara uma posição estratégica para observar o salão enfeitado e borbulhante de pares coloridos, que rodopiavam ao som do ritmo contagiante do sanfoneiro e sua trupe musical.

Estava assim absorto em sua contemplação há uns minutos – ou seriam horas? – quando ela apareceu. Sozinha, vestida de branco  – será que ia participar do casamento na roça? Não, não podia ser a noiva – pensou –, pois acabara de ver os consortes da noite entre os dançarinos na quadra. Ela parou a poucos passos de onde ele estava e ficou olhando a festa como se procurasse alguém, mas não parecia aflita para achar quem quer que fosse. Ao contrário, alguns segundos depois deu de ombros e se aproximou do bar.

– Um refrigerante, por favor – pediu, entregando a ficha que tirou da pequena bolsa branca bordada de pontinhos minúsculos que pareciam ser flores. Pegou a bebida servida no copo descartável com a mão fina e levou-a aos lábios rubros, caprichosamente desenhados com batom. O gesto delicado contrastava com sua beleza enérgica, de olhos escuros e cílios espessos brilhando na tez morena. O vestido alvo destacava a silhueta generosa e as pernas bem torneadas. Uma única flor vermelha sustentava os cabelos castanhos displicentemente presos acima da orelha direita.

Aparentemente alheia à presença dele, ela parou a seu lado e foi percorrendo o salão em semicírculo com o olhar. Devagar, finalmente encontrou os olhos dele e, sorrindo, divertida, indagou:

– Tá gostando?

– Tô sim, e você?

Daí não se largaram mais o resto da noite, nem nas semanas seguintes, que se transformaram em meses, anos, um casamento e um casal de filhos. E também em muita luta para sobreviver numa casinha apertada e simples, perto dos sogros, para eles poderem ajudar com as crianças, senão não dava para gerenciar um lar, cuidar da mãe, apoiar os irmãos, trabalhar e ser arrimo de família – tudo de uma vez e ao mesmo tempo –, mesmo se Deus quisesse.

A esposa não tinha um trabalho formal, mas ajudava nas despesas costurando e vendendo cosméticos de catálogo. Ele agora dirigia um táxi, única alternativa restante depois de ter sido demitido do seu último emprego de carteira assinada. A muito custo conseguira juntar umas migalhas para pagar o primeiro aluguel do carro que, aliás, era uma salgada taxa semanal, a qual ele tinha que se virar para cobrir antes de fazer a sua féria. Com a crise, não estava fácil pra ninguém, então ele se ausentava para trabalhar sempre que podia, sacrificando suas horas com a família, não havia outro jeito. Mas como não era homem de se queixar, fazia o que tinha que fazer, confiando no que o destino – ou Deus – tinha reservado para ele.

Em uma dessas tardes no meio da semana, circulava pelo bairro da zona norte no qual mais costumava dar sorte para arranjar passageiros. Hoje o dia estava fraco, mas ele não desistia de passar e repassar pelas ruas na esperança de conseguir alguma coisa. Decidiu pegar a pista marginal da via principal, quem sabe? Foi quando avistou um homem, atarracado e uniformizado, fazendo sinal com o braço defronte de um dos muros altos que ladeavam a avenida.  A maioria dos imóveis por ali era de motéis mais ou menos arrumados, por isso ele não estranhou os trajes meio extravagantes da figura. Ao parar, o homenzinho deu uma batidinha na lateral da porta, pedindo para abaixar o vidro, e em seguida esclareceu:

– Tem um casalzinho aí saindo do hotel, tá a fim de levar?

–  Ôpa, levo sim, vambora! O porteiro baixinho sumiu na portinhola do muro, de onde não demorou muito para surgir um casal, o homem de mãos dadas com a moça. O motorista destravou a porta de trás, eles entraram e se acomodaram, o rapaz atrás do banco dele, a mulher ao lado.

– Boa tarde! Pra onde?

O rapaz tomou a frente: – Boa tarde. Conhece a Penha?

– Claro, moro lá. O interlocutor, em resposta, indicou o local aonde queria ir e o táxi deu a partida.

Do retrovisor, observou que o passageiro voltou-se para a mulher, tentando conversar, porém ela permanecia quieta, mal respondendo em murmúrios monossilábicos inaudíveis. O rapaz insistia, animado, provavelmente sem entender o porquê daquela atitude amuada da companheira depois de uma tarde supostamente prazerosa para ambos. Contudo, a moça não arredou pé do seu inexplicável silêncio durante todo o trajeto.

Chegando ao destino, o veículo parou. O rapaz dispôs-se a pagar, indicando que a moça iria prosseguir. Antes que qualquer dos dois se mexesse, o taxista perguntou de chofre:

– E aí, Nícia, onde tu vai descer?

– Peraí, tu conhece ela? – contestou o surpreso acompanhante.

– Se conheço? Conheço sim. Ou pensava que conhecia, pois até uma hora atrás ela era a minha mulher!

Sem dizer palavra, o homem entregou o dinheiro da corrida e ambos os passageiros – um por cada porta – desceram do carro.

Ele acelerou sem olhar para trás, os olhos marejados, o coração em frangalhos: como Deus queria.

(Conto lido em 06.09.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio)

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Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)