Previsível, por Carmen Belmont

Previsível, por Carmen Belmont

Cocoricó. Por incrível que pareça, havia um galo no coração da cidade. Devia ser da loja de aves vivas no pé da ruela que subia o morro. A rouca insistente cantoria começava às quatro da manhã e se estendia até o sol nascer, ah, que vontade de esganar esse galo desgraçado! Mas na impossibilidade de sair de pijama correndo pelas madrugadas, acabou se acostumando ao ruído incômodo. E só se mexia mesmo quando ao som insólito se juntava o do despertador anunciando o dia.

Ela não tinha a menor graça. Ou tinha, mas era cuidadosamente abafada por um jeito de ser comum e previsível. Acordava cedo, arrumava-se sobriamente e ia para aquele escritório, igual a tantos outros, desempenhar suas burocráticas tarefas com a maior correção possível. Era polida, reservada e discreta o suficiente para ter conquistado um lugar no gabinete da diretoria. Não faltava. Não se atrasava. Não se metia na vida alheia. Não ria alto. Não.

Tão certinha por fora. Mas ela sabia, havia uma insanidade à beira de. Como quando naquela vez em que todo mundo foi embora e ela ficou sozinha no escritório. As câmeras estavam sendo trocadas, os olhos de vidro apagados, vazios. Finalmente tinha terminado de cumprir o encargo de enviar por e-mail aquele relatório imprescindível para a reunião de amanhã cedo – ufa! Desligou o computador e arrumou a sua mesa, como sempre fazia. A dela era mais uma no sem fim de fileiras e baias separadas por semidivisórias de vidro, como num aquário, dispostas de um lado e de outro de um corredor principal, cujas luzes de sinalização eram as únicas acesas a essa hora.

Que horas seriam? Dez? Onze? Droga, esqueceu-se de ver no computador antes de apagar. Com a bateria do celular morta e nenhum relógio imediatamente à vista, ficava difícil adivinhar, mas as luzes lá fora atestavam: já era bem tarde. Todos os elevadores estavam desligados, restando apenas um no saguão principal, que ficaria funcionando a noite toda para algum possível workaholic retardatário. Os vigilantes noturnos iriam fazer a ronda no meio da madrugada, para se certificar de que as portas estivessem trancadas e luzes e máquinas desligadas a contento. Mas ainda iria demorar um pouco até que eles aparecessem por ali.

Foi aí que veio aquele pensamento estranho. É, não havia ninguém! O escritório imenso e morto era todinho dela, o que significava que poderia fazer o que bem entendesse naquele momento. Nenhuma ordem para cumprir, ninguém para observar, criticar ou encher o saco. Esse pensamento sacudiu-a com uma excitação travessa, provocando um arrepio deliciosamente suave que percorreu seu corpo. 

Hum...olhou para cima, calculando se os alarmes de incêndio estavam funcionando, será que poderia fumar? Para não arriscar, abriu a janela. Pegou um cigarro do maço escondido na gaveta, sentou-se colocando as pernas sobre a mesa, acendeu o rolinho elegante e deu um longo trago bem devagar, saboreando a brisa que entrava sacudindo levemente as persianas semicerradas. Ficou assim recostada por alguns minutos, fumando e acompanhando a fumaça subir em voltas na penumbra, levada pelo vento em direção à janela. 

Olhou para as suas pernas, achou que ficaram mais bonitas usando aquele belo sapato de salto. Olhou para a sala espaçosa do chefe, a única com paredes opacas e banheiro privativo, que estava aberta, pois não se costumava trancar as portas internas – só se fazia isso com as duas últimas portas de madeira e vidro que davam para o hall do elevador. Levantou-se e foi até o banheiro. Segurando o cigarro entre os lábios, prendeu os cabelos no alto da cabeça e desabotoou a blusa branca, pendurando-a no cabide. Tirou a saia e a lingerie, voltando-se para o espelho aprovadoramente. 

Respirou fundo e pisou resoluta o carpete verde, desfilando com o cigarro nas mãos. Rodopiou nua pelos quatro cantos da sala, como num balé invisível. Uma vez na cadeira do chefe, sacou os sapatos, colocando-os bem em cima daquela pilha importante de documentos, dando risadas. E agora, gostaram?  – disse para os retratos de família que estavam perfeitamente enfileirados em molduras prateadas.

Saiu da sala e assim, alegre e afogueada, foi zanzando entre as mesas e armários, ora cantarolando, ora fazendo caras e bocas, ora trepando nos móveis. Ah, é, de repente lembrou-se daquela perua que a detestava. Procurou o local onde a outra trabalhava e se sentou sobre os papéis, desarrumando toda a mesa da fulana, abrindo bem as pernas: olha isso, tá vendo? Sou bem mais gostosa que você! E então deitou-se languidamente e soltou uma gargalhada histérica até não ter mais fôlego.

No dia seguinte, de manhã, uma bela mulher de vermelho entrou no escritório. Boquiabertos, os colegas a observaram, enquanto ela tomava seu lugar à entrada do gabinete da diretoria.



(Conto lido em 04.10.16 (terça-feira) no Clube da Leitura, realizado na Casa Rio, um dos premiados em 2o lugar)

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fascinada pelos ecos da linguagem escrita, Carmen Belmont lê e escreve desde que se entende por gente; tudo o mais é adendo. "A palavra/ alva/ alvará da imaginação". (Imagem: @cdbelmont in PicsArt)



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O livro do desassossego, de Fernando Pessoa

O Caderno Vermelho, por Leo Almeida

A Marcha de Alberto, de Bruno Flores