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Mostrando postagens de Abril, 2018

“Estou bem, mas poderia estar um pouquinho melhor”, de Lydia Davis

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Estou cansada. As pessoas na minha frente estão demorando muito para escolher o sabor do sorvete. Meu dedão está doendo. Tem um homem tossindo durante o concerto. A ducha está um pouco fria demais. O trabalho que tenho para fazer hoje de manhã é difícil. Nos sentaram muito perto da cozinha. A fila dos correis está comprida demais. Estou com frio sentada aqui no carro. O punho do meu suéter está úmido. O chuveiro está sem pressão. Estou com fome. Eles estão brigando outra vez. Esta sopa é insossa. Minha laranja-lima está um pouco seca. Não consegui sentar no trem sem ninguém ao meu lado. Ele está me fazendo esperar. Eles foram embora e me deixaram sozinha à mesa. Ele diz que minha respiração é incorreta. Preciso ir ao banheiro, mas tem alguém lá. Estou um pouco tensa. Minha nuca está dormente. O gato está com micose. A pessoa atrás de mim no trem está comendo algo que cheira muito mal. Está quente demais naquela sala para eu praticar piano. Ele me liga quando estou trabalhando. Comprei creme azedo por engano. Me…

Matadouro 1704, de Guilherme Preger

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“Humanista é uma pessoa com grande interesse pelos seres humanos. Meu cachorro é humanista” Kurt Vonnegut “Derrama o leite bom na minha cara/E o leite mau na cara dos caretas” Caetano Veloso “O diabo na rua, no meio do redemunho” Riobaldo Tatarana
Irmãos, as pragas invadiram nossos pastos e adoecem a nossa grama e alfafa. Nasceram e se multiplicaram as flores vermelhas que envenenam nossos bois. E com isso o sangue de nosso gado se deteriora e o leite de nossas vacas adquire uma maligna cor rubra. Do que adiantam as vacas se seu leite já não alimenta nossa prole? Sacrifiquemos então, Irmãos, uma Vaca para que o deus santificado, cuja mão livre organiza os passeios no pasto, possa interromper a PesTe que nos abate, como se fossemos nós o gado. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, digamos SIM ao sacrifício da Vaca! SIM! Em nome de minha mulher, de meus filhos e da família reunida em volta da mesa para a santa ceia, eu digo SIM! Em nome do meu tio Guimarães que me levava quando criança ao…

Vida Sertaneja, de Cecília Mouta

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A luz da lua sombreava, feito pintura, qualquer coisa que se atrevia a emergir naqueles vastos campos, agora negros, pela noite. A paisagem que se formava era quadro digno de memória. Dava dó de passar ali no meio e estragar a obra da natureza, mas a vida não é arte, e os compromissos não esperam. A barba por fazer coça o meu rosto feito urticária das “brabas”, mas não gosto de mim sem ela, então, só raspo quando vejo a loucura se aproximar em cima de boi “brabo”. E põe “brabo” nisso! Esses dias o Demônio danou a correr atrás de Jeremias, o rapaz que costumava me ajudar a botar o rebanho pra pastar nas terras mais distantes. Jeremias, que não é bobo nem nada, danou a correr também. Mas o pobre do rapaz foi ser filho de nordestino e puxou essa tal de genética das pernas curtas. Foi o tempo dos meus cílios se separarem para o chifre do Demônio perfurar sua pele maltratada. O berro de Jeremias era mais potente que berrante. O voo, mais alçado que de águia. Eu e mais dois ajudantes partim…

Entremeio com o vaqueiro Mariano, de Guimarães Rosa

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“Em julho, na Nhecolândia, Pantanal de Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais. Típico, e não um herói, nenhum. Era tão de carne-e-osso, que nele não poderia empessoar-se o cediço e fácil da pequena lenda. Apenas um profissional esportista: um técnico, amoroso de sua oficina. Mas denso, presente, almado, bom-condutor de sentimentos, crepitante de calor humano, governador de si mesmo; e inteligente. Essa pessoa, este homem, é o vaqueiro José Mariano da Silva, meu amigo. Começamos por uma conversa de três horas, à luz de um lampião, na copa da Fazenda Firme. Eu tinha precisão de aprender mais, sobre a alma dos bois, e instigava-o a fornecer-me factos, casos, cenas. Enrolado no poncho, as mãos plantadas definitivamente na toalha da mesa, como as de um bicho em vigia, ele procurava atender-me. Seu rosto, de feitura franca, muito moreno, fino, tomava o ar de seriedade, meio em excesso, …

Encantos, de Gabriel Cerqueira

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A infinitude do salão proporcionada pelos amplos espelhos adornados com madeira de jacarandá encantava Martim. A luz amarelada dos lustres derramava-se como ouro intangível em damas e cavalheiros. As joias das mulheres reluziam como estrelas em suas orelhas, colos e pulsos. O ar etéreo estava inebriado pela fumaça de cachimbos e charutos, o aroma do café, chocolate, doces de ovos, numa volúpia que parecia ser abençoada pelos céus. Martim entrou na Confeitaria Colombo meio acanhado. Aproveitando a hora preguiçosa entre o almoço e o chá da tarde na confeitaria, sentou a uma mesa no centro do salão; era a primeira vez que transpassava o balcão na entrada. Mesmo de família lá dos cafundós do Engenho de Dentro, Martim era chegado ao requinte da boemia dourada dos grandes salões, restaurantes, livrarias. Muitas das vezes ele sacrificava uma boa refeição ao poupar dinheiro para comprar o terno da moda. O garçom anotou o pedido de Martim, trazendo logo em seguida torradas tostadas na manteiga e…