Entremeio com o vaqueiro Mariano, de Guimarães Rosa


“Em julho, na Nhecolândia, Pantanal de Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais. Típico, e não um herói, nenhum. Era tão de carne-e-osso, que nele não poderia empessoar-se o cediço e fácil da pequena lenda. Apenas um profissional esportista: um técnico, amoroso de sua oficina. Mas denso, presente, almado, bom-condutor de sentimentos, crepitante de calor humano, governador de si mesmo; e inteligente. Essa pessoa, este homem, é o vaqueiro José Mariano da Silva, meu amigo. Começamos por uma conversa de três horas, à luz de um lampião, na copa da Fazenda Firme. Eu tinha precisão de aprender mais, sobre a alma dos bois, e instigava-o a fornecer-me factos, casos, cenas. Enrolado no poncho, as mãos plantadas definitivamente na toalha da mesa, como as de um bicho em vigia, ele procurava atender-me. Seu rosto, de feitura franca, muito moreno, fino, tomava o ar de seriedade, meio em excesso, de um homem-de-ação posto em tarefa meditativa. Mas os grandes olhos bons corriam cada gesto meu ou movimento, seguintemente, mostrando prestança em proteger, pouquinha curiosidade, e um mínimo de automática desconfiança. Porque dele se propagava, com ação direta, sobretudo, um sentido de segurança, uma espécie tranquila de força. Contou-me muita coisa. Falou do boi Carocongo. Do garrote Guabirú que, quando chegava em casa, de tardinha, berrava nove vezes, e só por isso não o matavam, e porque tinha o berro mais saudoso. Da vaquinha Buriví, que acompanhava ao campo sua dona moça, a colher as guaviras, ou para postar-se à margem do poço, guardando o banho dela, sem deixar vir perto nenhuma criatura. De raro, aludia, voz mais baixa, a misteriosos assuntos:
— Tem boi que pode tomar ódio a uma pessoa...
 — Dizem que um boi preto, em noite muito preta, entende o cochicho da gente...
Falou do alvoroço geral do gado, quando o tempo muda; do desfile deles, para o sal das salinas, nas sizígias; dos que malham junto de casa e despertam dando sinal de temporal noturno, correndo berrando medo, para o largo, para o centro das campinas; da paz que os leva, quando saem da malhada, no clarear do dia, e se espalham pobres no capim escuro; da alegria de todos, sob a chuva quente. Seu poder de rastreador dava-lhe à fala um orgulho, e acendia um cigarro, para contar melhor:
— ... Como era um lugar visonho, assim meio sertão, sem gado, eu achei que por lá devia de ter passado uma rês e parado, por umas duas ou três horas. Senti, pelo cheiro. A gente sabe. O touro tem uma catinga quase como a do ramo de guiné; vaca e boi-de-carro têm catinga igual, só a do touro é mais forte...
Descreveu os rodeios: os animais — touros, bois, bezerros, vacas, — trazidos grupo a grupo e ajuntados num só rebanho, redondo, no meio do campo plano, oscilando e girando com ondas de fora a dentro e do centro à periferia, e os vaqueiros estacionados à distância ou cavalgando em círculos, ou cruzando galopes, como oficiais de uma batalha antiga, procurando, separando, conduzindo; mas sempre a vigiarem a imensa bomba viva, que ameaça estilhar-se e explodir a hora qualquer, e que persevera na estringência de mugidos: fino, grosso, longe, perto, forte, fraco, fino, grosso... E as vaquejadas: vai-se escondido, pelos matos, e sai-se em cima do gado, de repente... Pior, porém, era caçar a rês feroz, em ermas regiões, perante a lua:
 — A pega do gado bagual, de noite, é trabalho terrível... Disse da onça-parda, que come bezerros no campo, e do choro de urros, quando a onça-pintada estoura o gado nos malhadores. Dos bois bravios da Serra da Bodoquena, que descem à noite, para beber, uns touros pastores, matados a carabina. Dos rebanhos insulados, apertados, muito a muito, nos firmes do Pantanal, pelas inundações maiores, os bois se aglomerando, pânicos, centenas sobre centenas, subindo-se, matando e esmagando, para deixar restar, na seca, um monte de esqueletos.”

Extraído de “Estas Estórias”, de Guimarães Rosa, 1962. 



(Mote vencedor lido por José Fontenele para o encontro de 17/04/2018)


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