“Estou bem, mas poderia estar um pouquinho melhor”, de Lydia Davis

Estou cansada.
As pessoas na minha frente estão demorando muito para escolher o sabor do sorvete.
Meu dedão está doendo.
Tem um homem tossindo durante o concerto.
A ducha está um pouco fria demais.
O trabalho que tenho para fazer hoje de manhã é difícil.
Nos sentaram muito perto da cozinha.
A fila dos correis está comprida demais.
Estou com frio sentada aqui no carro.
O punho do meu suéter está úmido.
O chuveiro está sem pressão.
Estou com fome.
Eles estão brigando outra vez.
Esta sopa é insossa.
Minha laranja-lima está um pouco seca.
Não consegui sentar no trem sem ninguém ao meu lado.
Ele está me fazendo esperar.
Eles foram embora e me deixaram sozinha à mesa.
Ele diz que minha respiração é incorreta.
Preciso ir ao banheiro, mas tem alguém lá.
Estou um pouco tensa.
Minha nuca está dormente.
O gato está com micose.
A pessoa atrás de mim no trem está comendo algo que cheira muito mal.
Está quente demais naquela sala para eu praticar piano.
Ele me liga quando estou trabalhando.
Comprei creme azedo por engano.
Meu garfo é curto demais.
Estou tão cansada que minha aula não vai correr bem.
Esta maçã esta com manchas marrons.
Pedi um muffin seco de milho, mas quando chegou não estava seco.
Ele mastiga tão alto que tenho que ligar o rádio.
Pesto é difícil de misturar.
A verruga no meu dedo voltou a crescer.
Não posso comer ou beber nada hoje de manhã por causa do exame.
Ela estacionou seu Mercedes em frente à minha garagem.
Pedi um muffin de aveia e passas levemente tostado, mas não veio levemente tostado.
A água do meu chá demora demais para ferver.
A costura na ponta da minha meia está torta.
Está frio demais naquela sala para eu praticar piano.
Ele não pronuncia palavras estrangeiras corretamente.
Meu chá tem leite demais.
Estou há muito tempo na cozinha.
Minha meia nova está babada de gato.
Meu assento não te as costas.
O liquidificador está vazando no fundo.
Não consigo me decidir se continuo ou não a ler este livro.
Perdi a vista do rio da janela do trem porque ficou escuro.
As framboesas estão azedas.
O moedor de pimenta não mói muito bem.
O gato fez xixi no meu telefone.
Meu Band-Aid está molhado.
Na loja não tem mais café descafeinado sabor avelã.
Meus lençóis se embolam todos na máquina de lavar.
O bolo de cenoura está um pouco solado.
Quando torro o pão de passas, as passas ficam muito quentes.
A pele do meu nariz está um pouco seca.
Estou com sono, mas não posso ir para a cama.
O sistema de som da sala de exames está tocando música folclórica.
Não estou com vontade de comer aquele sanduíche.
Tem um novo homem do tempo no programa de rádio.
Agora que as folhas das árvores caíram, dá para ver o novo deque dos vizinhos.
Acho que não gosto mais da minha colcha.
No restaurante estão tocando sem parar as mesmas músicas de soft rock.
A armação do meu óculos está fria.
Tem queijo de Saint-André na bandeja de queijos, mas eu não posso comer.
O tique-taque do relógio está muito alto.

Publicado em “Nem vem” (Companhia das Letras, 2017),

(Mote vencedor lido por José Fontenele para o encontro de 08/05)




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